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O jovem Karl Marx: “A crítica da crítica da crítica”

Por Bruno Pavan

Contrariando o título do texto e talvez 100% dos guias de boas práticas jornalísticas, isso não é uma crítica ao filme “O Jovem Karl Marx”, dirigido por Raoul Peck, que foi indicado ao Oscar em 2017 pelo documentário “Eu não sou seu negro”.

Não se trata de uma crítica porque não tenho ambição de comentar um filme esteticamente. Não tenho nenhuma noção disso.

No começo da semana eu recebi um email da Boitempo Editorial me convidando para a pré-estréia do filme que havia visto, por meio de alguns comentários nas redes sociais, que tinha sido boicotado pela grande indústria do audiovisual. A informação, no entanto, é falsa. O filme estreará no dia 28 de dezembro, quando o outro velhinho barbudo que veste vermelho ainda estiver na sua viagem de volta a sua fábrica de brinquedos no Polo Norte, em salas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

A exibição desta sexta-feira (24) foi em um shopping na Avenida Paulista, às 10 da manhã. Eu, como morador de Interlagos, teria que sair bem cedo. E assim fiz. E em absurdas 1 hora e 30 minutos eu estava na frente do cinema. O Cinemark, que em dia de #RedFriday, virou Cinemarx (sobe a música da Praça é Nossa!).

No início do filme, duas cenas mostram os desvios pequenos-burgueses de Marx e Engels. A esposa do alemão, Jenny von Westphalen, acusa a funcionária que cuida de sua filha pequena de estar roubando a casa da família. Ao que Marx responde: “deixa ela roubar, estamos devendo dois meses de salário pra ela”.

A história de Engels é mais conhecida. Seu pai era dono de uma fiação em Manchester. Depois que uma das funcionárias perdeu o dedo por dormir em cima de uma máquina de tear e as funcionárias realizaram um motim, Engels se interessou por aquela situação e escreveu, em 1845, “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”.

Avançando até São Paulo de 2017, depois de ficar em pé em um ônibus lotado por 1h30, me permiti também a um desvio pequeno-burguês. Como cheguei antes da sessão começar, fui tomar um café. Na Starbucks. R$ 5,50 a xicrinha. Com direito a um mini-cookie. Do outro lado do corredor havia um outro lugar. Onde talvez eu devesse tomar o meu café com menos culpa: o Havana.

O filme também cumpre o objetivo de ser entretenimento. Como uma espécie de “informações de bastidores”, soubemos que Marx proferiu a sua célebre frase “os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo” depois de uma noitada de xadrez regada a muito goró com Engels. “Amigos nunca fiz bebendo chá”, reforçou, décadas depois, o filho de Jessé Gomes da Silva, o Zeca Pagodinho.

Zeca Pagodinho cachorro

Em outro momento, no início da aproximação de ambos com o anarquista francês Pierre Proudhon, fase em que Marx era crítico ferrenhos dos hegelianos, a dupla estava em dúvida sob qual seria o título do livro que estavam escrevendo. A esposa de Marx (que, como a de Engels, tem papel central na trama), os provocou dizendo que o livro deveria se chamar: “A crítica da crítica da crítica”. Na cena do rompimento deles com Wilhelm Wetling, o alemão aos alerta, não com essas palavras, mas que a crítica acaba dando a volta e comendo o próprio argumento. No fim, a sugestão da Sra Marx não foi aceita e a obra ficou conhecida como “A sagrada família”.   

O filme encerra a sua viagem em 1848, com o lançamento do Manifesto do Partido Comunista. Marx não queria escrevê-lo, estava cheio de escrever panfletos e já tinha, ao que tudo indica, ideia e pesquisa da sua obra definitiva: O Capital. Além do mais, estava querendo descansar. Ele foi convencido por Engels a deixar o descanso pra lá e embarcar no desafio de dizer a ao mundo pra que os comunistas vieram. “Depois descansaremos, como dois bons burgueses”, provocou.

Voltando um ano, em 1847, é contado como os comunistas deram um passo essencial para lançar no ar o “espectro que ronda a Europa”. Engels, sob protesto de parte dos participantes, sobe ao palanque para discursar no congresso da então Liga dos Justos, em Londres. O grupo atuava sob o lema, que hoje chamaríamos de desconstruidão “Todos os homens são irmãos”. Engels substitui esse lema pelo famoso “Proletários de todo o mundo, uni-vos”. Os Justos se tornam, então, comunistas.

Ao final da sessão, a Black Friday nos aguardava do lado de fora. Tudo convidava ao consumo, já que tudo parecia estar em promoção. Eu, faminto, quase fui seduzido por um anúncio do Monarca do Hambúrguer, chamado por aqui de Burguer King, que me prometia um lanche, um refrigerante e um balde de batatas fritas (com DOIS SACHÊS de maionese) por R$ 19,90. Declinei do convite. Acabei pagando R$ 2,50 no brasileiríssimo (mas não muito) Torcida sabor cebola. Nunca é tarde para a auto-crítica.