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Podcast Fora de Foco #19 – Dobradona e Vladimir Safatle

A nova edição do Podcast Fora de Foco está em clima de #EleNão….. opa, quer dizer, eleição.

O programa vai falar um pouco sobre a dobradona, uma iniciativa de lançamento de candidaturas que prezam pelo poder horizontal e uma mudança no modo de representação política. Para saber mais, entre no site dobradona.org

A segunda parte do programa traz um áudio do professor de FFLCH Vladimir Safatle sobre o risco de um novo golpe militar no país.

Ouça ae!!!!

 

Donald Trump continua andando

“Você acerta Donald na cabeça e ele segue em frente. Nem percebe que foi atingido”, a frase é de Roger Ailes, ex-presidente da Rede de TV Fox News, ícone conservador estadunidense, sobre Donald Trump.

Fogo e Fúria – Por dentro da Casa Branca de Trump (Ed. Objetiva) , de Michael Wolff, é uma crônica de como, um candidato tratado como piada na maior parte do tempo da campanha eleitoral, conseguiu se eleger contra o status quo da política dos EUA.

(Primeiro, veja aqui como o cineasta Michael Moore, que está longe de ser um trumpista, elencou cinco motivos pelo qual Trump venceria a eleição meses antes dela ocorrer )

Em tempos de fake news e de pós-verdade, “seguir em frente”, como faz Trump, talvez é a principal qualidade que um político conservador deva ter.

O livro de Wolff pode ter exageros: alguém eleito presidente da maior potência mundial não pode ser um completo idiota, como o jornalista deixa claro em praticamente todas as frases do livro. Mas ele nos faz entender como a descrença na política e na “nova ordem mundial” pode produzir figuras como essa.

O ridículo político

Em diversas partes de seu livro, Wolff deixa claro que Trump é uma marca. Sua empresa não é do ramo imobiliário, esportivo, de lazer ou qualquer outro. Sua empresa é ele. E junto com isso vem, por exemplo, uma forma de pensar e resolver as coisas. O problema tem que ser resolvido, então, às favas com a diplomacia, faça-se uma lista países onde seus cidadãos, a partir de hoje, não podem mais viver o “sonho americano”. Abandone-se políticas públicas de imigração e constrói-se um muro na fronteira com o México. (e faça os mexicanos pagarem por ele)

A filósofa Márcia Tiburi lançou, em 2017, seu livro “O ridículo político” (Ed. Record). Nesse vídeo ela recorda do filósofo alemão, integrante da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin onde ele aponta que havia naquele momento uma estetização da política.

“Quando a gente fala de estética política nós estamos colocando em cena justamente o aparecer do poder. O modo como o poder se apresenta e como, ao se apresentar, toca na nossa sensibilidade. Como nos afeta e nos influencia o nível também dos nossos sentidos”, explica.

Trump não é burro! Mas talvez a construção de um presidente que não é nada além do que a sua marca seja uma das coisas mais americanas que existem.

Em certo momento, Wolff explica qual era a importância de Steve Bannon, que foi membro do Conselho de Segurança Nacional do governo Trump até abril de 2017.

“Simplesmente fazer tornou-se um princípio de Bannon, o antídoto generalizado para a resistência e para o tédio da burocracia do estabilishment. Foi o caos desses tipo de atitude que realmente levou as coisas a serem feitas”.

Na coletânia de artigos “Ocuppy – Movimentos de protesto que tomaram as ruas” (Ed. Boitempo), o filósofo e psicanalista Vladimir Safatle aponta:

“O pensamento, quando aparece, exige que toda a ação não efetiva pare, com o intuito de que o verdadeiro agir se manifeste. Nessas horas, entendemos como, muitas vezes, agimos para não pensar. Pensar de verdade significa pensar em sua radicalidade, utilizar a força crítica do pensamento. Quando a força crítica do pensamento começa a agir, todas as respostas se tornam possíveis e alternativas novas aparecem na mesa”.

A saída de Trump, mais que o não-pensamento, é o anti-pensamento. É o se manter em pé mesmo com uma bala na cabeça. A urgência do ato em oposição ao pensamento é a mentira de que não há outro modo de fazer as coisas.

Por isso a confiança em instituições e ideias pouco democráticas como a família, a igreja e a polícia. Por isso a oposição à política e a virtude nos gestores. Estados tem que ser gerenciados como empresas privadas.

Ao contrário do que disse Francis Fukuyama depois do fim da URSS: parece que a História vai começar outra vez.

Para o “Novo”, Brasil deve combater a pobreza e não a desigualdade de renda. Por que isso não faz sentido?

Na manhã desta segunda-feira (11) o economista, engenheiro, palestrante e pré-candidato do Partido Novo à Presidência da República João Amoêdo, tuitou que o grande problema brasileiro não é a desigualdade de renda mas, sim, a pobreza.

O que queremos: combater a pobreza e não necessariamente a desigualdade. Somos, felizmente, diferentes por natureza.
O combate à pobreza de faz com o crescimento e com a criação de riqueza, e não com a sua distribuição.

Abaixo, um vídeo do professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Vladimir Safatle, no evento da Revista Cult “o que foi feito?” que explica a incoerência desse discurso em um país como o Brasil.

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Vladimir Safatle: “A política hoje está nos extremos. E no Brasil nós só temos um extremo”

Em debate no espaço da Revista Cult, em São Paulo, Vladimir Safatle e Ruy Braga participaram do debate “o que foi feito”, para debater os caminhos e desafios da esquerda no Brasil

Por Bruno Pavan

Quatro eleições vencidas e um impeachment no final. A esquerda, capitaneada pelo Partido dos Trabalhadores, parecia que havia conquistado um espaço definitivo no debate público brasileiro. De 2003 até 2014, milhões entraram no mercado consumidor, a crise de 2008 não passou de uma marolinha, o país recebeu Copa do Mundo e Olimpíadas em menos de dois anos e chegamos a ser a sexta maior economia do mundo.

Porém, o Brasil hoje vive uma crises políticas e econômicas sem precedentes e a classe baixa que ascendeu nos governos PT vê seus ganhos desmoronarem e são forçados a aceitarem trabalhos com condições precárias. Mas o que aconteceu?

O evento “O que foi feito?” aconteceu na última quinta-feira (30) no Espaço Cult, em São Paulo, convidou o filósofo Vladimir Safatle e o sociólogo Ruy Braga, ambos da USP, para debater os caminhos, os erros e como a esquerda pode voltar a ser propositiva no debate político nacional.

Capa do mais recente livro de Vladimir Safatle

Safatle, que lançou recentemente o livro “Só mais um esforço” (Ed. Três Estrelas) aponta que a esquerda hoje só apresenta um pensamento reativo diante dos desmontes trabalhista e do investimento público com a PEC do congelamento de gastos, mas não consegue propor nada novo.

“A esquerda nacional vende um pouco o cenário de uma situação de desespero. Então eles dizem ‘não dá pra parar, não dá pra pensar, não dá pra fazer nada, eles estão vindo daqui e dali, vão destruir tudo, depois a gente vê’. Isso nada mais é que uma estratégia quando você não tem estratégia”, criticou.

“Lulodependência é a tragédia da esquerda brasileira”

Capa do livro “A rebeldia do precariado”

Já Ruy Braga, que também lançou recentemente o livro “A rebeldia do precariado” (Ed. Boitempo), e que deu uma entrevista ao Podcast Fora de Foco aqui, critica muito a falta de rumos da esquerda brasileira, que pra ele não consegue mais propor nada ao país. Um dos principais motivos é uma espécie de “Sebastianismo do século XXI” no Braisl, o que ele chamou de “lulodependência”.

“Nós estamos perdendo a partida sem entrar em campo. A gente já entregou o ouro pro bandido, que é apostar em Lula 2018. Lula, ainda que concorra, concorrendo, ainda que vença, vencendo, ainda que seja capaz de governar, ele vai entregar mais do mesmo frustrando de maneira ainda mais radical as expectativas que foram criadas nesse período e que convergiu para sua eventual vitória. O modelo de desenvolvimento que o Lula vai esboçar é o PAC 3, é onde ele consegue chegar. Ele não é capaz de identificar no horizonte possível um modelo de desenvolvimento que rompa com isso, e mesmo se fosse capaz, os seus vistos políticos e as suas alianças espúrias bloqueariam”, apontou.

A frustração relativa dos Brasileiros

Mas por que, mesmo diante de um cenário de crise profunda, onde o presidente da República Michel Temer conta com 3% de aprovação dos brasileiros, não estamos vendo grandes massas nas ruas?

Para Safatle o que ocorre hoje no Brasil é uma espécie de “frustração relativa” onde a parte da população que ascendeu de classe social recentemente, vê seu poder de compra cair, a economia estagnar e  os empregos voltarem a ficar precarizados.

“Os piores momentos pra um governante é que aquele em que o país começa a se transformar, porque você produz um sistema de expectativas. Se esse sistema não se realiza, você pode ter certeza que vai ter que lidar com uma frustração três vezes maior, e nesses momentos os governos caem. Quem faz as revoluções nunca são as classes mais baixas, são as classes que começam a subir e depois percebem que não podem mais. Isso é uma reversão de expectativas em um prazo curtíssimo de tempo e é óbvio que isso geraria uma debacle geral e que mostra claramente a fragilidade institucional brasileira”, apontou.

“Hoje a política está nos extremos”

Uma análise mais superficial da realidade política internacional pode nos fazer acreditar que há uma forte onda conservadora no mundo todo. Podemos, facilmente, recuperar os exemplo da saída da Grã-Bretanha da União Europeia e a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, ambas cercadas por um mote nacionalista conservador. Braga e Safatle, porém, apontam um outro tipo de explicação para esses fenômenos: as receitas políticas hoje se encontram cada vez mais nos dois extremos do espectro político.

Para Safatle, isso aconteceu desde a crise de 2008, onde governos tanto de centro-esquerda quanto de centro-direita repetiam as mesmas receitas que deram no colapso econômico mundial.

“Eu não diria que você vive uma onda conservadora no resto do mundo. Você vê a política indo para os extremos, que é outra coisa. Um exemplo era na Holanda. Durante todo o tempo a imprensa falava da “ascensão irresistível” do protofascismo holandês. Quando chegou nas eleições, a esquerda radical quase toma o poder. Porque pra imprensa é muito melhor você criar essa ilusão de que “olha, está vendo, eles estão vindo” então você inventa uma espécie de figura de centro liberal pra dizer: não dá pra  gente ficar discutindo muito, tem que ser esse aqui mesmo. É o modelo francês que vê o fascismo chegando e diz que o povo tem que aceitar uma figura de centro totalmente insípida, inodora e incolor mas que vence pelo medo. Mas lá o candidato da extrema esquerda (Jean-Luc Mélenchon) ficou com cerca de 20% (A candidata da direita Marine Le Pen teve 21,7% contra 19,5% de Mélenchon). O que aconteceu na Inglaterra, o partido trabalhista (sob liderança do radical Jeremy Corbyn) moribundo que por muito pouco não formou governo. Então, por tudo isso, hoje a política só existe nos extremos. O problema brasileiro é que hoje só existe um extremo”, conjecturou.

Braga usou o tempo em que viveu nos EUA, entre 2015 e 2016, para lembrar da pré-candidatura do democrata Bernie Sanders. Socialista e com base no sindicalismo, nos jovens universitários e no movimento negro, Sanders, para Braga, poderia ter vencido Trump nas eleições.

“Se você olhar hoje no mundo, as experiência de esquerda que são bem sucedidas são as apostaram em uma radicalização do projeto político. Eu estava nos EUA e acompanhei um pouco o fenômeno do Bernie Sanders. Eu arriscaria que hoje nós somos ameaçados por um louco na Presidência dos EUA porque o Partido Democrata sistematicamente bombardeou o Sanders em favor da Hillary Clinton. Existem muitos estudos mostrando que a vitória do Trump não foi assegurada por uma onda conservadora que o inundou de votos, mas, sim, pelos democratas que não se dignaram a ir votar na Hillary Clinton. Se houvesse o Sanders como um anti-Trump, hoje nós estaríamos vivendo uma realidade política internacional na qual, pela primeira vez na história americana, um candidato autenticamente de esquerda estaria hoje no poder”, encerrou.