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Acordo entre União Europeia e Mercosul vai mexer no nosso queijo

Texto do acordo ainda não foi publicado e terá que ser aprovado pelo Congresso nacional, mas a indústria tem que ficar de olho

Por Bruno Pavan

Na semana passada, durante o encontro do G20, todos foram pegos de surpresa com a confirmação do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul. Em discussão desde 1999, o acordo indiscutivelmente dá novo gás ao Mercosul e também vem em boa hora para a UE, precisando expandir suas fronteiras.

Vitória do globalismo pois, tão atacado pelo chanceler Ernesto Araújo. 

Falando diretamente para  seu bolso, o acordo poderá fazer com qu produtos europeus cheguem por aqui mais baratos. Desde carros até vinhos, queijos e macarrão. Seu petit comitê regado a vinhos e queijos no fim de semana pode ficar mais barato. 

É preciso, no entanto, ver essa questão por um outro patamar. O da indústria nacional. 

Peguemos, por exemplo, a indústria queijeira. Ela movimenta R$ 22 bilhões por ano no Brasil. Os produtores vão desde gigantes como a Itambé até produtores artesanais. O estado de Minas Gerais é responsável por 25% da produção brasileira. A produção artesanal é a saída da crise para muitas famílias.

Leia aqui o especial do G1 sobre o assunto.

Uma das grandes questões que o congresso terá que se debruçar nos próximos anos e a do queijo parmesão. A itambé, por exemplo, vende queijo parmesão. Acontece que o queijo parmesão original é produzido na Itália, nas regiões da Emília- Romanha e Lombardia. Eles seguem uma série de regras para ostentar o DOP – Denominação de Ordem Protegida. Ou seja, se o parmesão italiano vier pra cá custando menos, quem perde é a indústria nacional, que não vai mais poder colocar “parmesão” em sua embalagem. Fora que, a variedade de queijos italianos e franceses disponíveis obviamente vai prejudicar o comércio do queijo artesanal do pequeno produtor.

Algo parecido acontecerá com o vinho. Com a bebida francesa e italiana chegando mais barata ao país, os produtores nacionais vão continuar vendendo o que vendem hoje?

O que será que as federações das indústria pelo país, tão mobilizadas pelo impeachment da ex-presidenta Dilma  tão simpática a agenda do ministro Paulo Guedes vão fazer diante desse risco? Esse blog tem uma singela e simpática ideia: um queijo inflável e campanha “não mexam no meu queijo”.              

Não se pode dizer que é um governo socialista, diz Raquel Varela sobre a geringonça portuguesa

O chanceler português Antonio da Costa com a ex-presidenta do Chile Michelle Bachelet. Foto: Sebastian Rodriguez / Gobierno do Chile

Por Bruno Pavan

Parece que foi ontem, mas a crise de 2008 completará uma década ainda esse ano. Para muitos a crise foi a pior desde 1929. O que começou com empréstimos de alto risco sendo concedido a torto e a direito nos Estados Unidos devastou e economia de diversos países gerando crises econômicas e políticas sucessivas.

Um dos maiores atingidos por ela foi Portugal. Principalmente depois de 2010 o país foi devastado por altos índices de desemprego, aumento na taxa da pobreza, corte de serviços básicos e a utilização de dinheiro público para salvar empresas privadas.

A suposta saída foi apontada pela chamada Troika, grupo composto por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia, é velha conhecida de quem viveu o Brasil dos anos 90: privatizações de empresas e serviços públicos, superávit na balança comercial e cortes no investimento público em prol do pagamento da dívida pública.

A historiadora portuguesa Raquel Varela explica que o remédio amargo da Troika focou, novamente, nos cortes contra os trabalhadores, que hoje trabalham com direitos cada vez mais precários. Enquanto os capitalistas concentram uma fatia cada vez maior da riqueza do país.

“O que a troika impôs foi uma dramática intensificação do trabalho. As pessoas trabalham mais horas com mais tarefas. Desde 2008 isso tem levado a um aumento enorme do desgaste dos trabalhadores, do absenteísmo no trabalho e dificuldades das pessoas em se concentrarem. Fora que as políticas impostas são péssimas do ponto de vista do desenvolvimento do país sobretudo a longo prazo, já que elas destroem os sistemas de educação e saúde públicos”, disse.

Nasce a geringonça

Nos anos 1990 as experiências neoliberais principalmente na América latina, foram traumáticas. Altíssimas taxas de desemprego e estados totalmente desmontados fizerma com que todo o continente tivesse uma guinada a esquerda nas eleições no final da década e começos dos anos 2000. De moderados como Lula, no Brasil, e Nestor Kirchner, na Argentina; até Hugo Chávez, na Venezuela; Evo Morales, na Bolívia e Rafael Correa, no Equador, que refundaram seus respectivos países com novas constituições.

Portugal vive hoje um momento parecido. Depois de governos de direita desde a crise econômica, hoje o país é governado pela chamada “Geringonça socialista”. O primeiro ministro Antonio da Costa, do Partido Socialista, precisou de uma coalizão tida como frágil da direita portuguesa, com o Bloco de Esquerda, o partido Comunista Português e os Verdes.

O sociólogo português Boaventura Sousa Santos, em entrevista à Folha de S. Paulo, disse que o único governo de esquerda a, de fato, governar à esquerda na Europa é o de Portugal

Varela não é tão otimista assim. Ela aponta que o apoio de certos setores da classe trabalhadora ao governo é por medo de que a direita volte ao poder, mas que o governo o PS não rompeu com as políticas neoliberais da Troika.

“Não se pode dizer que é um governo socialista, apesar do partido se chamar socialista. As privatizações não foram revertidas, manteve-se a degradação dos serviços públicos e o governo se recusou a alterar as leis liberais que a Troika implementou. Não é socialista porque o capital tem todo o espaço de acumulação. A geringonça não só salvou as ações privadas de três bancos como se orgulha de pagar juros antecipadamente ao FMI”, critica Varela.

Para ela, o bom momento econômico do país não permite que haja um avanço dos grupos chamados “eurocéticos”, ao contrário do que acontece em países como França e Itália. Mas que como o governo da geringonça não realizou mudanças econômicas profundas, em uma próxima crise a situação em Portugal pode se agravar ainda mais.