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Por 2022, Bolsonaro entra em queda de braço com Doria por Fórmula 1

A corrida pela Fórmula 1 é a largada para 2022

Por Bruno Pavan

Nesta segunda-feira (24) o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a Fórmula 1 vai se mudar de São Paulo para o Rio de Janeiro a partir de 2021. “tem 99% de chances”, apontou. Já se trata de um recuo, já que no mês de maio o mesmo havia afirmado que a corrida de 2020 já ocorreria no circuito de Deodoro. “ou seria isso ou seria a saída dela (Fórmula 1) do Brasil”

Acontece que dessa vez nem precisou-de de um mês para que Bolsonaro fosse desmentido. O diretor executivo da F1, Chase Carey, o desmentiu minutos depois, dizendo que as negociações com a cidade de São Paulo seguem ocorrendo. 

“No momento nós não temos nada fechado, estamos ainda em negociação e não queremos eliminar qualquer possibilidade então estamos negociando com o Rio de Janeiro mas também com São Paulo onde nós temos um contrato até 2020”, afirmou.

Para entender melhor isso, que tem cara, cheiro e gosto de bravata, já que o autódromo ainda nem existe, visite o site Grande Prêmio, que vem fazendo uma excelente cobertura sobre o assunto.

Há uma guerra fria por detrás de tudo isso entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo João Doria. Ao que parece, o “Bolsodoria” da campanha não anda muito bem. Doria tomou o PSDB pra ele, desmontando o pouco que restava da Social Democracia no partido, e, dizem, quer ser candidato à Presidência em 2022. 

O presidente alfinetou o governador paulista dizendo que se quiser ser candidato ao seu posto em 2022 “tem que pensar no Brasil”. O tucano respondeu que “a questão da Fórmula 1 não é política. É econômica. Não é hora de eleição”. O afastamento é claro.

O maior beneficiado disso, o governador fluminense Wilson Witzel, faz parte da ala mais bolsonarista raiz. Era um ilustre desconhecido até antes das eleições e só ganhou força nos últimos 15 dias de campanha, quando colou seu nome ao do presidente. Doria já era prefeito da capital paulista e já era favorito ao Palácio dos Bandeirantes. É uma figura política mais forte.

Na semana passada as circunstâncias dos vazamentos da operação Lava Jato foram benéficas ao presidente, já que outro presidenciável, Sérgio Moro, agora está em seu bolso (com o perdão do trocadilho). 

Com os indicadores econômicos dando sinais que não vão reagir tão cedo, a reforma da previdência ainda patinando, o tal “mercado” já olha com desconfiança para o novo governo. O destino da Fórmula 1 é apenas o começo desse distanciamento que parece irreversível.

Racismos, Marx e as “coisas de preto” no Brasil

“É preto, é coisa de preto”, diz William Waack

Recebi em meados do mês de março da Companhia das Letras o livro Racismos, do historiador e professor da King`s College, em Londres, Francisco Bethencourt*.

A primeira coisa que me chama a atenção é o “s” de Racismos que tem muito destaque na capa. O livro procura entender as origens dos diversos tipos de racismos pelo mundo no tempo.

“O racismo é relacional e sofre alterações com o tempo, não podendo ser compreendido na sua totalidade através do estudo segmentado de breves períodos temporais, de regiões específicas ou de vítimas recorrentes – negros ou judeus, por exemplo”, explica Bethencourt na introdução do livro.

Outro destaque de seu pensamento durante o livro é que em relação à preconceitos étnicos associados a ações discriminatórias foi motivado por projetos políticos. A extensa obra analisa diversos momentos históricos desde as cruzadas, a exploração oceânica dos europeus, as sociedades coloniais, como foi a criação das teorias de raça e, por fim, o papel do nacionalismo.

O Brasil

“Como é possível que a mesma pessoa seja considerada negra nos Estados Unidos, de cor no Caribe ou na África do Sul e branca no Brasil? (…) nos Estados Unidos, uma gota de sangue africano define um indivíduo como negro, ao passo que, no Brasil, o status de classe média embranquece a tez humana”, explica o autor logo na página 22.

Aqui entra o ALERTA LEIA MARX do texto. É um erro pensar na questão de raça descolada da questão de classe no Brasil. Bethencourt acusa a interpretação marxista para o problema do racismo limita a explicação às relações econômicas. Talvez realmente tenhamos que ir além de Marx para entender, por exemplo, a questão das desigualdades de acesso à escola, saúde pública ou bens culturais da população negra no Brasil. Mas tirar o sistema capitalista dessa conta não é o caminho.

A tal da Nova Classe Média, propagandeada pelos governos petistas e limitada a nível de renda mensal, foi um erro grave. Do mesmo jeito que, alguém que ganha R$ 2.000,00 por mês tem a sua tez embranquecida, se isso não vier com reformas profundas no Estado, daqui a alguns anos essa mesma pessoa pode ter seus direitos trabalhistas extingui….. er, quer dizer, flexibilizados, ter que virar profissional autônomo ou voltar pra subempregos. E tem a sua tez escurecida novamente.

Foi só a crise econômica chegar ao Brasil que a renda dos negros e pardos, entre 2015 e 2017, caiu 1,6% e 2,8% respectivamente. A dos brancos subiu 0,8%. Entre 2012 e 2014 a situação era inversa: os rendimentos dos autodeclarados pretos cresceu 8,6%; de pardos 6,5% e o de brancos 5,6%. Um trabalhador negro ganha, em média, 56% do que um branco. Clique aqui ler mais. Quando fazemos o recorte por gênero, os números são ainda piores. 63% das trabalhadoras domésticas do país são mulheres negras, uma categoria que sempre teve condições trabalhistas muito precarizadas. Clique aqui para ler mais.

Por fim, mas não menos importante, cabe lembrarmos que, com menos direitos sociais a balança sempre acaba pendendo mais para a questão penal e carcerária. Com a terceira maior população atrás das grades do planeta, 726 mil pessoas se encontram presas hoje no Brasil. 64% delas são negras. Os estados do Acre (95%), Amapá (91%) e Bahia (89%) são os com maiores percentuais de negros nas penitenciárias. Clique aqui para ler mais.

O lugar do negro na sociedade brasileira está bem delimitado, mesmo sem escravidão, mesmo sem apartheid oficial. Caso ouse sair desse lugar, com méritos próprios, como os liberais adoram dizer, mesmo Marielle Franco (Psol-RJ) conseguindo mais de 40 mil votos e ser eleita vereadora na segunda maior cidade do país, corre o risco de tomar quatro tiros na cabeça e, ainda por cima, ser difamada nas redes sociais.

*O Fora de Foco faz parte do time de leitores da Cia das letras de 2018