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A filha da Ralé e a filha do Maneco

Por Bruno Pavan

O sociólogo Jessé Souza cunhou a expressão “Ralé” para chamar, provocativamente, uma classe pobre no Brasil que está afastada de qualquer acesso, não só a bens materiais, saúde, educação e saneamento básico de qualidade; mas também de bens subjetivos, como afeto familiar e amor.

Souza é um dos críticos de uma intelectualidade que forjou o modo de ser do brasileiro, como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Darci Ribeiro. Mas sua pesquisa, presente em diversos livros, mas em especial no ótimo “A ralé brasileira – quem é e como vive” (Ed. Contracorrente), põe abaixo todos os teóricos recentes que encararam que o Brasil teria virado um país de classe média, por conta de expansão da classe c como massa consumidora.

Um dos exemplo citados de como a classe média consolidada não pode ser considerada maioria no país é o fato de, fugindo do economicismo que ele aponta, a chamada Ralé seja prejudicada na “competição social” que dá os melhores empregos, oportunidades e até casamentos por conta das relações sociais que viveram.

No capítulo chamado “A miséria do amor dos pobres”, Emanuelle Silva, Roberto Torres e Tábata Berg contam como o amor romântico idealizado pelas adolescentes Dina e Jane em nada se parece com a ideia de amor romântico da classe média.

Ambas foram criadas em famílias totalmente desestruturadas, com pais e avós violentos que ficavam dias sem aparecer em casa e, quando apareciam, bêbados, batiam nas esposas e não demonstravam nenhum tipo de amor pelas filhas.

O divórcio não era uma opção para as mães e avós porque, como é repetido em muitas passagens do livro, “mulher sozinha é poste pra cachorro mijar”. Algo que parece tão comum na classe média, se separar de alguém que te maltrata ou que simplesmente você não sente mais vontade de estar junto, é uma realidade totalmente distante na numerosa ralé brasileira.

Com isso, o casamento vira algo pragmático, onde se casa para evitar ser estuprada pelo padrasto, tio ou irmão mais velho. Nada tem a ver com o amor que conhecemos, do livros, dos filmes.

O sexo também é outro ponto problemático. Ao invés de algo que elas tenham uma relação tranquila, de se entregar pra quem se tem e quando se tem vontade, ele vira uma espécie de moeda de troca. As meninas sempre tentam manter um corpo escultural pra continuarem “gostosas”, uma virtude ambígua, segundo o artigo, porque a hiperssexualização de seu corpo continua sendo a principal, senão a única, ferramenta da sedução. E o sexo é tratado como moeda de troca: para que elas possam ter certeza de que seus parceiros não estão só interessados no sexo, elas jogam com o desejo dos parceiros evitando transar no início da relação.

O eco de um feminismo que chega cada vez mais forte aos meios de comunicação, não chega até elas por conta dessa questão. Tomo a liberdade de colocar um trecho do artigo abaixo:

“A liberação sexual só favorece uma relação de reciprocidade afetiva entre homem e mulher quando a socialização de classe (familiar) das mulheres trouxer como herança a experiência e a certeza de uma oferta afetiva independente de favores sexuais. Aí sim a fraternidade entre os amantes pode surgir de uma aceitação e de uma entrega mútua de um para o outro, que implica , ao contrário de altruísmo, a possibilidades de desejo terem livre vazão, ainda que de modo assimétrico (…)”

Quando terminei de ler o artigo, lembrei da música “Filha do Maneco” que está no último cd do cantor Criolo “Espiral de ilusões”.

No samba ele conta a história do narrador que vê pela janela “um avião/ do jardim a flor mais bela”, ou seja, uma mulher bonita, e logo se interessou por ela. Quando foi procurar informações na vizinhança, o Jurandir “lá do boteco” respondeu a ele que, rapidamente, que aquela era a “filha do maneco”. Após isso ele diz que o pai da moça “é conhecido” no morro. Além disso ele é “temido/ não é de brincadeira”.

Por esse pequeno trecho o ouvinte já descobre muitas coisas sobre a moça. Ela tem um pai “conhecido”, ao contrário das personagens do livro, que se não foram abandonadas pelos pais, tiveram neles sempre os piores exemplos possíveis. O fato do personagem não ter ido atrás da moça na hora, mas, sim, pedir informações sobre ela, também representa uma diferença entre intenções de alguém que quer “algo sério” de alguém que só quer objetificar o seu corpo.

A criação da musa inspiradora, apesar de ser um pouco melhor do que as das personagens reais do livro, também está longe de ser a ideal. Na música ela é “o avião”, “a flor mais bela” e a filha do Maneco. Apesar de uma voz, no início da música, querer saber seu nome, esse nunca é citado.

Mas em outro ponto fica claro o motivo do tratamento da personagem da música ser tão diferente de Dina e Jane. Maneco “já mandou recado pra comunidade/ Sua menina terminou a faculdade/ E não quer ver gavião sobrevoando o seu terreno/ E quem tentou, provou do seu veneno”

A mulher, por ter tido acesso a uma educação formal, tem mais atrativos e seu pai espera algum parceiro melhor pra ela. Ao contrário das duas adolescentes retratadas no livro. O pai superprotetor, se não é um exemplo ideal, sem dúvida é muito mais positivo do que as figuras masculinas omissas e violentas das vida real.