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PHA: o boa sorte é pra quem fica

O jornalista faleceu na madrugada desta quarta (10) por conta de um infarto fulminante

Por Bruno Pavan

Esse blog nasceu do chão da fábrica do Conversa Afiada. 

Nasceu dos bate papos dos editores do site, no já longínquo ano de 2013 no antigo “QG da Santa Cecília”. As conversas entre Murilo Henrique, João de Andrade Neto e eu quase sempre tinham a ver com os textos no blog ou com os assuntos da TV, sempre ligada na Globo News. 

Em 2013, Murilo e eu tiramos a ideia do blog do papel e colocamos no ar. Blog este que também já contou com luxuosa participação também de Alisson Matos, afiadíssimo participante das conversas no QG. 

PHA sempre foi um apaixonado, um fissurado pelo jornalismo. Quando ficava muito tempo sem contato com a gente, logo telefonava, ansioso, querendo saber o que havia de novo no Brasil e no mundo para alimentar o CAf. 

Levou seu texto afiado e direto da TV pra internet. Foi um dos primeiros que descobriu isso. Texto com períodos curtos separados por pontos finais. 

Pular linha. 

E começar outra frase. 

Também percebeu a importância de um título antes mesmo da febre dos chamados “click baits”.

Percebeu que a agilidade da TV era também muito bem vista na internet. Estilo que foi consagrado por diversos jornalistas e espaços na web. Inclusive por este.

PHA sempre tratou jornalismo como coisa séria. Isso nunca quis dizer “carrancuda”. Desde seus tempos no Jornal da Globo, onde convidava o telespectador a conversar com ele sobre os espinhosos temas econômicos, até o convite ao amigo navegante a mergulhar em suas muitas vezes rebuscadas e complicadas navalhadas no Conversa Afiada. O recente sucesso no Youtube já era mais que anunciado.

No fim do mês passado, foi alvo do jornalismo que adora se auto-censurar, quando a Record TV o afastou do Domingo Espetacular depois de 15 anos. A emissora não deixou claro o motivo de seu afastamento, mas tudo indica que tem dedo do governo Bolsonaro aí. Ou o desejo da emissora de se adiantar a ele e afastar qualquer voz dissonante de sua grade. 

No segunda (8) gravou sua última TV Afiada, onde dava seus pitacos sobre a “selecinha” do técnico Tite. Estava presente no Maracanã, onde parecia feliz e saudável até seu coração o trair na madrugada da terça para quarta. 

Há alguns anos, Paulo, que sempre foi muito bom de bordões, se apropriou de um, do jornalista americano Edward Morrow. Perseguido pelo Marcatismo dos anos 1950 nos EUA, sempre encerrava o seu jornal com a frase “Boa noite e boa sorte”. 

Amorim, como bem resumiu a página Testes da Massa, “morreu no campo de batalha”. 

Boa noite, PHA, e boa sorte aos que ficam   

A autocensura na imprensa: quem quer ser mais governo que o governo?

A censura tão “combatida”  nos anos petistas desfila incólume no governo Bolsonaro

Por Bruno Pavan

O PT foi por muitos anos chamado de “bolchevique” ou “bolivariano” por grande parte da imprensa brasileira. Projetos como o da democratização da mídia no Brasil não podia sair da boca do governo que a pecha de “censura” era colada na medida, ignorando que e países desenvolvidos como na Inglaterra, há a tal da lei regulamentando os meios de comunicação. 

Diversos jornalista fizeram a fama como críticos dos governos Lula e Dilma. Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes e, mais recentemente, Marco Antonio Villa. Do outro lado estavam os “sujos” como foram batizados pelo ex-governador e ex-candidato à Presidência da República José Serra. Paulo Henrique Amorim, Luiz Nassif e Renato Rovai eram a tropa de choque pra lá de mambembe (não pela capacidade como jornalistas, mas pela capacidade financeira mesmo) do governo. 

Franklin Martins deixou a secretaria de comunicação social do governo Lula, mas deixou um presente na gaveta: a tal da lei de democratização da mídia. Seu sucessor, Paulo Bernardo, o deixou por lá mesmo, descansando e a presidenta Dilma Rousseff sepultou o projeto dizendo que o controle da mídia era o remoto. 

Anos se passaram e a tal da censura nunca foi nada mais do que um monstro debaixo da cama. Até que veio a eleição de 2018. Jair Bolsonaro venceu, impondo a quinta derrota consecutiva do candidato natural da elite financeira do país. Em um segundo turno entre Bolsonaro e Fernando haddad, o Estado de S. Paulo, em editorial, apontou que o brasileiro estava diante de uma “difícil escolha”. 

 Bolsonaro tomou posse e travou guerra contra a Rede Globo e a Folha e S. Paulo. Em uma campanha baseada em mentiras circuladas pelo WhatsApp (alô, alô TSE), levou seus primeiros seis meses de governo apostando no acirramento da polarização do país. E os jornalistas foram os primeiros a estrarem na mira do capitão. 

Ontem (24) a Record TV anunciou o afastamento do jornalista Paulo Henrique Amorim da revista eletrônica “Domingo Espetacular”. Amorim mantém seu blog, Conversa Afiada, com o posicionamento claramente à esquerda. Na Record, porém, sempre se manteve neutro. O afastamento súbito levantou suspeitas de que a TV cedeu a pressão do governo Jair Bolsonaro pela sua cabeça. Não entregou a cabeça, mas o colocou na geladeira.  

Já do lado direito do ringue, o estrago foi ainda maior. Só na Rádio Jovem Pan, notória emissora conservadora de São Paulo, já aconteceram dois cortes repentinos. O primeiro foi o do humorista e jornalista Marcelo Madureira, ainda durante o segundo turno das eleições do ano passado. Madureira não cravou em nenhum momento que sua demissões tivesse sido política mas, na época, declarou que ficou com a “pulga atrás da orelha”. A Pan não parou por aí. O historiador e ruidoso Marco Antonio Villa também foi afastado no final do mês de maio sem nenhuma justificativa pela direção da emissora. também nesta segunda-feira (24) anunciou a sua saída definitiva da emissora.

O ponto em comum das duas demissões foram críticas feitas ao presidente Jair Bolsonaro. Madureira, ainda durante o segundo turno presidencial, assinou um manifesto chamado “Democracia, sim”, que se colocava contra a candidatura do então deputado. Já Villa criticava a postura de Bolsonaro seguidamente desde a posse. Chegou a chamá-lo de “embusteiro” e que incentivava “atos neonazistas”, como os protestos a favor do governo do último dia 26 de maio.

O jornalismo da Pan é comandado por Felipe Moura Brasil desde o início de 2019. Notório direitista, ajudou a organizar o livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, do guru do governo Olavo de Carvalho. A deputada Joice Hasselmann, umas da líderes do governo na Câmara dos Deputados, também brilhou por muito tempo na emissora antes de pular para o outro lado do balcão. É clara a estratégia da emissora de ser uma porta voz do atual governo. Tanto que uma de suas estrelas é o Youtuber Caio Copolla que convocou pessoalmente os protestos a favor do governo. 

A mais nova vilã do governo é Rachel Sheherazade. A Jornalista que já disse publicamente concordar com justiceiros que amarraram uma criança acusada de roubo no poste para ser agredida, também passou a ser crítica de Bolsonaro. Foi que o que bastou para Luciano Hang (A.K.A Véio da Havan) pedir a cabeça da jornalista. Ela já não é tão a direita assim. Sheherazade postou no Instagram “não vou me censurar para confortar a sua ignorância”. Hang respondeu citando Cuba (eles só pensam naquilo). Ela fica. Por enquanto. 

A estratégia de comunicação do governo também não passa nem perto do jornalismo sério. Basta analisar as “entrevistas” que Bolsonaro deu para Programa do Ratinho e para o Superpop defendendo a reforma da previdência. As aspas são porque de entrevista não tem nada. Ratinho e Luciana Gimenez foram contratados para defender a reforma, incluindo a conversa de comadres, com perguntas combinadas anteriormente. Ratinho, inclusive, acabou de comprar uma rádio em São Paulo. A Jovem Pan terá concorrência na bajulação.    

Por outro lado, parece que o desejo do Estadão em seu editorial de “pacificação” de país está tomando corpo. Mônica Bergamo (Folha de S. Paulo) e Fábio Pannunzio (Bandeirantes) se solidarizaram com Paulo Henrique Amorim, Sheherazade e Villa. Direita e esquerda unidas cantando “we are the world”. 

Nos seis meses de governo Bolsonaro ficou claro que ninguém melhor censura a imprensa brasileira do que a própria imprensa brasileira.