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Moro e Guedes perdem força. Bom para Bolsonaro?

A ideia de que os “superministros” seriam um freio ao presidente foi por água abaixo

Por Bruno Pavan

Na semana passada foram publicadas as seis matérias do The Intercept Brasil mostrando como o então juiz Sergio Moro atuava em conluio com a acusação e a força tarefa da Lava Jata do Ministério Público Federal.

Mas do que isso, era o líder da fato da força tarefa. Deltan Dallagnol, como bem dito pelo ministro do STF Gilmar Mendes, não passava de um “bobinho”.

Quem acompanhou a Lava Jato com atenção desde o início já desconfiava da postura “pouco republicana” desde o vazamento, esse sim jogando ao seu favor, do diálogo da então presidenta Dilma Rousseff com o ex-presidente Lula, quando da indicação deste para o ministério da Casa Civil, já aos 46 minutos do governo Dilma.

Leia aqui todas as matérias que saíram no The Intercept até agora.

Já no último sábado o presidente Jair Bolsonaro, sem que fosse perguntado, criticou duramente o presidente do BNDES Joaquim Levy, com quem, em suas palavras, estava “por aqui”.  Falei pra ele demitir esse cara na segunda-feira ou eu demito você sem passar pelo Paulo Guedes”, disse.

Levy, mostrando que ainda há um pingo de dignidade na sua pessoa, entregou uma carta de demissão ao ministro da economia Paulo Guedes, que não moveu uma palha em sua defesa.

O pingo d’água que deixou Bolsonaro “por aqui” foi a nomeação do advogado Marcos Barbosa Pinto para a diretoria de Mercados de Capitais do banco. Pinto trabalhou nos governos petistas e, para os parâmetros do presidente, isso seria inaceitável por si só.

Esses dois acontecimentos causaram o rebaixamento de Moro e Guedes, que se superministros “indemissíveis” passaram a anões na esplanada dos ministérios.

Sobre Moro, Bolsonaro o levou, na última quinta-feira, ao jogo Flamengo e CSA, no Estádio Nacional Mané Garrincha, na capital federal. Apareceram lado a lado, vestiram a camisa do time mais popular do país para, dias depois, Bolsonaro dizer que não confia 100% em seu ministro.

Bolsonaro e Moro no Mané Garrincha. Foto: Reprodução Twitter

Contra o ex-juiz ainda pesa o fato de que, desde que foi picado pela mosquinha do poder, é pré-candidato informal  à presidência da República em 2022. E tem aprovação muito maior que Bolsonaro perante a opinião pública (ao menos antes dos vazamentos).

Guedes e Moro eram ministros que de certa forma estavam acima do governo. Você poderia ser contra Bolsonaro e seu discurso reacionário, mas a classe média dificilmente era contra a luta de Sergio Moro contra a corrupção e a elite financeira não questionava a agenda liberalizante de Guedes. “Não votei em Bolsonaro, votei em Paulo Guedes” é algo que se ouvia por aí.

Hoje no governo não há ninguém maior que Bolsonaro. Guedes se enfraquece cada dia em que a reforma da previdência não anda ou é dilapidada no Congresso Nacional. Moro se tornou refém do que vai vir por aí nos novos vazamentos, já que ninguém dá a menor bola para seu pacote anti-crime.

O presidente ainda precisa focar no que realmente importa: a agenda do emprego e fazer a economia girar. O desafio é enorme, dada a imensa falta de noção dele e de suas lideranças preocupadas com radares nas rodovias e tomadas de três pinos. Mas não ter mais ministros “indemissíveis” é uma boa notícia.

Bolsonaro se isola no radicalismo

Por Bruno Pavan

Não é fácil analisar o que aconteceu nesse último domingo (26) pelas ruas de mais de 150 cidades do país. Manifestações a favor do governo de Jair Bolsonaro foram convocadas para defender um governo que já começa capenga.

(Os agentes do mercado, ao que parece, já estão pulando fora)

As manifestações não foram um fracasso. Nem um sucesso. O governo conseguiu tirar gente de casa num domingo ensolarado mesmo que em menor número que os estudantes e professores saíram no último dia 15 em defesa da educação pública. Mas não conseguiu agregar ninguém fora dos 30% que consideram o governo ótimo ou bom.

Ele ficou no radicalismo.

Nem todos os eleitores de Bolsonaro fazem parte desse núcleo duro que está com ele desde que ganhou notoriedade nos tempos de CQC. Alguns votaram apenas para tirar o PT. Outros confiando que a economia iria melhorar. Os primeiros, que vêem comunistas debaixo da cama, continuam apoiando o capitão-presidente. Já o outro grupo não.

Nesse aspecto, a manifestação do dia 15 conseguiu furar a bolha. Os verde-e-amarelos, não.

Mas há algo mais para se analisar nesse debate: o apoio, não ao presidente, mas aos ministros Sergio Moro e Paulo Guedes.

A Folha de S.Paulo, malandramente, como diz o funk, omitiu o nome do presidente na principal manchete dessa segunda-feira (27). “Atos apoiam Guedes e Moro e criticam Maia e Centrão”. Omite o presidente, que entre outras barbaridades chama os estudantes e professores nas ruas de “idiotas úteis”, e foca nos “cheirosos”.

O Valor publica uma pesquisa, coordenada pelo professor da USP Pablo Ortellado, em que aponta que 75% dos manifestantes em São Paulo foram às ruas em favor da reforma da previdência. Sem uma pesquisa que diz quem são esses manifestantes, idade, cor da pele e classe social, isso não significa muita coisa.

A tentativa da imprensa é clara: descolar Guedes e Moro de Bolsonaro. O primeiro pois defendê-lo é defender a “necessária”, na visão da maioria da grande imprensa, reforma da previdência. O segundo é defender o “legado da Lava Jato”.

Por último mas não menos importante, as manifestações não ajudaram em nada na melhoria da relação do governo com o Congresso Nacional.   

Obs: aqui dados completos da pesquisa completa de Ortellado em que mostra que 65% dos manifestantes eram homens; 78% acima dos 35 anos; 66% brancos e 54% recebem mais de cinco salários mínimos.