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Queda de braço da direita nas ruas

Protesto marcado para esse domingo, por quento, não conta com o entusiasmo de quem foi pras ruas no último dia 26

Por Bruno Pavan

Você sabia que no próximo domingo (30) terão protestos pelo Brasil? É isso mesmo, o Movimento Brasil Livre (MBL) que foi chamado de “tonto” pelo ex-juiz e atual Ministro Sergio Moro em uma das mensagens vazadas pelo The Intercept, está organizando um ato em favor da operação. 

Se você não viu nada em lugar nenhum, fique tranquilo, você teria mesmo que se esforçar muito pra isso. 

Diferente da manifestação do último dia 26 de maio, de apoio ao governo, o MBL, que foi o maior mobilizador das multidões que foram as ruas contra a ex-presidenta Dilma Rousseff e o PT, tem tido dificuldades para se comunicar dessa vez. O fato deles terem ficado de fora do primeiro protesto, gerando a acusação de serem comunistas por simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro, pode ter prejudicado o sucesso dos atos.

Ao contrário dos protestos do mês passado, quando disse que iria e não foi, mas o fez ficar em voga durante toda a semana na imprensa, Bolsonaro está no Japão uma hora dessas, na cúpula do G20, e, apesar de também ter passado vergonha e querendo vender bijuterias de nióbio, conseguiu fechar o acordo da União Europeia com o Mercosul.

O maior homenageado nem no Brasil está. O Ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro está numa misteriosa viagem (ele não tem nem agenda oficial) aos Estados Unidos bem na semana que iria se explicar na Câmara dos Deputados.

O editor chefe do The Intercept Brasil Gleen Greenwald não fugiu a foi a Câmara nesta semana. Diante de um shoe de homofobia, onde deputados tinham uma dificuldade latente em chamar seu Marido, o também deputado David Miranda de MARIDO, ele disse para o deputada Carla Zambelli que ela iria se arrepender de pedir para ouvir os áudios das conversas de Moro (ainda não publicados). 

Mas o principal fator do futuro fracasso das manifestações aconteceu na última terça-feira (25) quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por deixar o ex-presidente Lula preso até, pelo menos, agosto. 

Como numa reviravolta em um roteiro pacato e modorrento de um filme de herói, seria muito mais saudável à manifestação de domingo se Lula fosse solto. Os pixulecos se encheriam de ar novamente e as pessoas estariam motivadas a retornar às ruas, menos de um mês depois da última manifestação. 

A verdade hoje é que a Lava Jato está nas mãos da direita e extrema-direita do país. Desde que Moro aceitou ser ministro de Bolsonaro, quem a defendia por ser apartidária já ficou com uma pulga atrás da orelha. Ainda assim, Moro é o ministro mais popular do governo Bolsonaro, o que reforça a tese de ter virado um personagem da extrema direita brasileira.

O colunista da Folha de S. Paulo Celso Rocha de Barros, em coluna no último dia 24/06, apontou que “a Vaza Jato torna mais fácil para o Presidente da República fazer o que sempre quis fazer com o ministro da Justiça: reduzi-lo a um tamanho que ainda faça bela figura em seu ministério sem, entretanto, tornar-se um rival na eleição presidencial de 2022.”

(Opinião parecida com a desse blog aqui )

Por fim, o próximo domingo vai mostrar a força de uma direita que quer se afastar do governo Jair Bolsonaro. O MBL preferiu ficar de fora dos protestos do dia 26 de maio, que não foram um estrondoso sucesso, mas também não foram um fracasso. Eles agora estão na linha de frente de uma outra mobilização e querem marcar território na defesa da Lava Jato. Se não conseguir levar milhões às ruas, perdem a musculatura.

A crise de Singer vai ao chão; a de FHC flutua

Por Bruno Pavan

Sentado no sofá de casa, FHC é imbatível!  

Uma crise, dois pontos de vista. É isso que a editora Companhia das Letras traz, nesse ano eleitoral, com o lançamento de Lulismo em crise, do professor da USP e ex-porta voz do governo Lula, André Singer; e Crise e reinvenção da política no Brasil, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Um petista histórico e um fundador do PSDB, a começar pelo título das duas obras, não negam que há uma crise política no país. Mas as concordâncias entre os dois não vai muito além disso.

A começar que FHC recusa totalmente a narrativa da esquerda brasileira do golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Em sua obra, ele aponta que as instituições seguem funcionando normalmente, frase que seria cômica se não fosse trágica.

Singer, ao contrário, se lembra do famoso áudio de Sérgio Machado, da Transpetro, com o senador Romero Jucá (MDB-RO) em que o parlamentar fala, pela primeira vez, a frase que entrou para os anais da política brasileira: “um grande acordo nacional, com supremo, com tudo” para delimitar a lava jato “onde está”.

O manifesto efeagacista

Em uma matéria publicada no dia 20 de abril, a Folha de S.Paulo resume bem o novo livro do ex-presidente: um “manifesto efeagacista”. A obra fala de si mesmo e para si mesmo. Ela flutua e pisa pouco no chão. Parece mais um “textão” de Facebook.

“A esquerda diz que a questão central é reduzir as desigualdades. A direita diz que é aumentar a produtividade. Eu digo: temos de enfrentar o desafio de realizar uma coisa e outra, simultaneamente.”(PP. 132-133) Desafio você a achar alguma alma viva que discorde do ilustre professor.

O livro de FHC é mesmo uma junção de vários pensamentos que o ex-presidente teve sobre Brasil e mudança político e econômica no mundo.

Se observarmos a prática do PSDB, partido que ele foi eleito presidente por duas vezes, não parece que sua voz encontra eco.

Para FHC, é tudo “culpa do PT”. Desde o alto número de partidos fisiológicos no país (p. 62) até a corrupção, que antes era um “ato individual de conduta ou numa prática isolada de grupos políticos” e, com o PT se tornou prática de Estado (p. 30).

Quando apela para esse discurso ele se afasta da ponderação que tanto preza durante o livro. Há inúmeras críticas a uma direita autoritária ou que acredita que o mercado seja a saída de tudo no Brasil, mas não há, nas 238 páginas, nenhuma responsabilidade de seu partido nessa crise.

Nenhuma mea culpa tucana por ter incendiado a extrema-direita com seu discurso radical e depois ter perdido o controle do monstro que ajudou a criar. Nada sobre o apoio dos deputados do PSDB ao presidente Michel Temer nas duas tentativas de abertura de impeachment que sofreu. Nada sobre as pesadas denúncias contra Aécio Neves, candidato tucano à presidência em 2014.

Dilma e o pacto “Rooseveltiano”

A obra de Singer é a terceira de uma série sobre o fenômeno que ele mesmo batizou de Lulismo. Não me cabe aqui explicar o fenômenos que o professor levou mais de 1000 páginas até agora pra explicar, mas tentando resumir em poucas frases, o lulismo seria a opção feita pelo Partido dos Trabalhadores, com a Carta aos Brasileiros, de acreditar em uma aliança com a política hegemônica e um “reformismo fraco”. Ele resume muito bem o modo de governar da ex-presidenta que, ao contrário de Lula: quebra, mas não enverga.

Nesse terceiro livro, o professor começa a analisar a situação política desde 2011 quando, nas palavras dele, há uma tentativa de dar um passo à frente no reformismo fraco do lulismo com embates mais duros com setores como o elétrico e o bancário. Logo em seu primeiro ano de governo, Dilma tinha um o “sonho rosseveltiano” para o Brasil. O sonho “Roussefiano”, hoje sabemos, não deu certo.

Um dos pontos principais é quando o professor costura toda a relação do PMDB com o PT e o lulismo desde 2002. O então deputados José Dirceu havia costurado um apoio com o PMDB para 2002, que foi recusado por Lula, que preferiu a aliança com vários partidos pequenos e médios como o PP e o PR.

Dilma, no que Singer chamou de “pacto republicano”, começa a bater de frente com o peemedebismo quando nega a Eduardo Cunha a presidência de Furnas, os tira dos ministérios da Ciência e tecnologia e da Saúde e coloca um quadro técnico na presidência da Petrobras, Graça Foster, e exonera os diretores Renato Duque, Paulo Roberto Costa e Jorge Zelada, que vão aparecer anos depois no escândalo da Lava Jato.

Descontentes com os caminhos que o governo vinha tomando, grande parte do PMDB tentou articular um “volta Lula”, não em 2018, mas em 2014. Inclusive 40% votaram contra a nova aliança com Dilma para as eleições de 14. O fim dessa história, todos sabemos.

FHC desce ao chão

Voltando ao ex-presidente, acredito que Singer o tenha valorizado mais em seu livro do que ele mesmo. E em alguns momentos, quando finca os pés no chão, ele acerta. Na leitura que faz sobre as jornadas de junho de 2013, já na época, ele identifica muito bem que há uma massa da nova classe média em disputa e que a centro direita poderia capturar.

“Muita gente ‘de baixo’ ascendeu pelo esforço, pelo trabalho. Há um novo ethos feito de novos valores: estudo, mérito, competência” (P. 113).

Aí está uma grande chave pra tentar entender como os manifestantes de 2013 viraram uma massa de descontentes em 2015. Políticas públicas como o aumento real do salário mínimo, FIES, ProUni, junto com o período de bonança no cenário internacional permitiu que houvesse uma ascensão social de milhões de pessoas nos anos Lula e na primeira metade do primeiro governo Dilma. O debate se esse grande número de pessoas se tratava de uma nova classe média ou uma nova classe trabalhadora é mais do que simples retórica. Há uma disputa entre as duas teses.

De fato a “nova classe c” era de tudo um pouco. Mas não era nada, ao mesmo tempo. A classe média, como nos ensina Jessé Souza, é uma classe de privilégios. Por isso é um erro enorme apontar que há uma locomoção de classe somente pela renda mensal familiar. Mas também é um erro considerá-la uma classe trabalhadora clássica, pois ela é desorganizada. Logo, ela ganha valores de classe média, como bem explicou FHC no curto trecho acima, mas perde esse status material quando a primeira crise chega.

Como não houve nenhum processo de conscientização política dessa parcela por conta do projeto lulista, ela se vira contra o estado e a política tradicional. Claro que há mérito na ascensão dessas pessoas, mas houve também um forte incentivo estatal, que é negado na primeira oportunidade.

Mais leve que o ar

O que fica da comparação é o pé no chão. Singer tenta entender a realidade com a ajuda de dezenas de pensadores (inclusive FHC) e artigos de jornal. O lulismo talvez não tenha acabado, dada a liderança do ex-presidente em todas as pesquisas eleitorais mesmo preso, mas é um fenômeno que passa por um debate e novos desafios.

Como FHC é um pote até aqui de mágoas, como deixa claro quando se queixa de nenhum candidato tucano à presidência defendeu seu legado em nenhuma campanha (p. 125), ele não vê terreno firme pra fincar o pé. Isso dá a ele (e a seu livro) uma suposta liberdade para criticar todos. Mas acaba lhe faltando a substância.

Sentado no sofá de casa, FHC é imbatível!

*O Fora de Foco é um dos sites parceiros da Cia das Letras  mas as opiniões expressas são de responsabilidade do autor