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Os juízes e a ascensão da direita pré-Hitler na Alemanha

A chegada do Terceiro Reich, do historiador Richard J. Evans, conta como se formou o caldo social, político e econômico do que foi se tornar o nazismo.

Uma das receitas desse caldeirão eram os juízes e como eles viam a República (e a esquerda) como inimiga.

Leiam o relato de Evans:

“Depois de anos, de fato décadas, tratando os críticos social-democratas e liberais de esquerda do governo do kaiser como criminosos, os juízes ficaram relutantes em reajustar suas atitudes quando a situação política mudou. Sua lealdade estava não com a nova república, mas com o mesmo ideal abstrato do Reich a que seus pares no corpo de oficiais continuavam a servir ; um ideal construído largamente sobre memórias do sistema autoritário do Reich bismarckiano.

Talvez fosse inevitável que, nos numerosos julgamentos políticos surgidos dos profundos conflitos políticos dos tempos de Weimar, eles ficassem esmagadoramente a favor dos infratores de direita que também alegavam estar agindo em nome daquele ideal e se animassem em processar aqueles da esquerda que não o faziam.

Na metade da década de 1920, o estatístico Emil Julius Gumbel publicou números mostrando que 22 assassinatos políticos cometidos por agressores de esquerda do final de 1919 à metade de 1922 levaram a 38 condenações, inclusive dez execuções e sentenças de prisão de 15 anos em média por pessoa. Em contraste, os 354 assassinatos políticos que Gumbel computou como cometidos por agressores de direita no mesmo período levaram a 24 condenações, nenhuma execução e sentenças de prisão apenas quatro meses em média por pessoa; 23 assassinos de direita que confessaram seus crimes foram absolvidos pelos tribunais (…)

(…) Em 1923, quatro homens ganharam em sua apelação à Corte do Reich, a autoridade judicial suprema do país, estabelecida há muito, contra uma sentença de três meses de prisão para cada um por gritarem as seguintes frases em um encontro de Ordem Jovem Alemã, um grupo jovem de direita, em Gotha: ‘Não precisamos de um república de judeus, fora com a república de judeus!’ No julgamento, a Corte do Reich declarou de modo um tanto convincente que o significado daquelas palavras não era tão claro:

‘Eles poderiam referir-se à nova ordem legal e social na Alemanha, em cujo sistema a participação de judeus alemães e estrangeiros era destacada. Poderiam referir-se também ao poder excessivo a é influência excessiva que um grupo de judeus, que é pequeno em relação à população total, na realidade exerce na visão de grandes comadas do povo… Não ficou explicitamente estabelecido que os acusados gritaram insultos à forma de Estado constitucionalmente ancorada no Reich, apenas que gritaram insultos à presente forma do Estado do Reich. Desse modo, a possibilidade de um erro legal não está excluída’.

A distinção entre dois tipos de Estado feita pela Corte do Reich e a insinuação de que a República de Weimar era apenas um tipo de aberração temporária que não estava ‘constitucionalmente ancorada’ mostrou muito claramente com quem estava a verdadeira lealdada dos juízes”