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A favor do futebol moderno

Eu frequento estádios de futebol desde o longínquo Corinthians 3 x 2 União de Araras, no campeonato Paulista de 2001. Fiquei no famoso “chiqueirinho”, a última parte do U do Pacaembu, de frente para a torcida visitante.

De lá pra cá aprendi a ver o futebol como algo muito grande e importante. Um lugar de alegre e nervoso ao mesmo tempo, onde passei por grandes conquistas e derrotas humilhantes.

Desde sempre eu via a importância de quem estava ali, fazendo parte daquelas festa junto comigo. Pessoas diferentes, brancas, pretas, pobres, não tão pobres. Os ricos estavam em outro setor do estádio porque, no Pacaembu, eu quase sempre estava de arquibancada verde ou tobogã.

A Copa do Mundo de 2014 e as novas arenas acenderam um debate bastante importante, e que já vinha acontecendo mesmo antes do evento: os pobres não estavam mais nos estádios. Não como antes.

O Bussiness dos clubes, a necessidade de ganhar mais com o futebol foi ganhando espaço e os mais pobres, perdendo. Isso era visível nos estádios e, com a construção do Itaquerão, isso foi ficando mais visível.

Isso abriu espaço pra uma galera se dizer “contra o futebol moderno”, como uma espécie de resistência popular contra o que estava acontecendo nas arenas. Se protestava, principalmente, contra o preço dos ingressos. Esse movimento era (e é) bastante justo e necessário.

Acontece que a coisa contra o futebol moderno se esvaziou. Virou um slogan, como quase tudo na sociedade capitalista e de consumo. Os publicitários viram que, sexo e poder vendem, mas militância também vende. Ou melhor, como disse Frank Underwood, personagem do Kevin Spacey no House Of Cards, “tudo tem a ver com sexo, menos sexo. Sexo tem a ver com poder”.

Hoje me deparei com uma campanha da Kaiser (quem toma Kaiser, pelo amor de Deus?) em que eles chamaram os ex-jogadores Vampeta, Túlio e Dadá Maravilha pedindo a volta do “futebol raiz”. Quando marca de cerveja começa a abraçar uma causa, parceiro, tem caroço nesse angu. O nome do programa é “Pela volta do futebol com bolas” se o machismo não está gritando na sua frente agora, repense seus posicionamentos.


Apesar de ser justo, eu sempre achei esse discurso de “ódio ao futebol moderno” um pouco enfadonho: na maioria das vezes eu via ele partindo de neo-torcedores que nunca pegaram chuva no Pacaembu em um jogo de Paulista e precisou almoçar espetinho na porta do estádio e que agora veem com um discurso paternalista de “proteção” aos mais pobres. De minha parte, eu vi dois jogos do Corinthians no Pacaembu esse ano e minha saudade já foi muito bem matada, obrigado. (Além de dezenas de jogos por lá, tenho a fachada do Paulo Machado de Carvalho tatuada no braço)

Esse discurso de “futebol raiz” esconde uma outra coisa: um desejo conservador de que a arquibancada do estádio vire, novamente, terra de ninguém onde machismo e homofobia estão liberados. Nunca achei que futebol fosse programa pra família feliz de margarina. Futebol é paixão e um pouquinho de entretenimento. Passeio com a família é em parque, shopping, museu, restaurante etc etc etc. Mas esse debate pra tornar o estádio um lugar sem racismo, machismo, homofobia e xenofobia é muito válido.

O futebol anda cheio de “viadagem” reclamam muitos que recém abraçaram o slogan contra o “futebol moderno”.

De minha parte, escrevi recentemente a conversa que eu tive com um mendigo na estação Sé do Metrô, que prometeu que se o Corinthians fizesse 5 a 0 no SPFC ele iria tomar duas garrafas de Corote. Menos de um mês depois, fui convidado pra assistir, de camarote, o segundo jogo da final do campeonato paulista contra o Palmeiras.

Quero sim os mais pobres de volta aos estádios, quero bandeiras, sinalizadores, instrumentos, cerveja etc etc etc. Mas é uma bobagem tamanha abraçar esse slogan que estão querendo fazer a gente repetir.