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As eleições e o que sentimos

Por Bruno Pavan

O brasileiro e a brasileira que estão minimamente por dentro das eleições presidenciais já está habituado (a) com a palavra “polarização”. Desde o final do pleito de 2014, quando Dilma Rousseff venceu Aécio Neves por uma diferença de 3.459.963. Ou seja: minúscula!

Desde então aconteceram muitas coisas: a radicalização do discurso tucano, que questionou a segurança da urna eletrônica e pediu recontagem de votos. Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados liderando o que ficou conhecido como “centrão” e liderando o golpe contra Dilma Rousseff em 2016.

Dilma e sua direção catastrófica na economia, também é personagem central.

A polarização deu as caras e saiu de vez do buraco.

O historiador israelense Yuval Noah Harari apontou, em seu livro 21 lições para o século 21 (Cia das Letras) que “para o bem ou para o mal, eleições e referendos não tem a ver com o que pensamos. Têm a ver com o que sentimos”.

Pesquisa do Datafolha (aqui) diz que 68% das pessoas entrevistadas dizem que se sentem com raiva ao pensar no Brasil. 78% mais desanimado do que animado. 80% mais triste do que alegre. 88% mais inseguros do que seguros. Foi com esse sentimento que o Brasil foi às urnas no domingo dia 8.

Um eleitorado com raiva, triste, desanimado em inseguro é um eleitorado com medo. Um lado, apavorado há anos por programas de TV sensacionalistas e correntes do WhattsApp tem medo do Brasil virar uma nova Cuba, medo de ter sua famílias destruída por uma suposta cartilha que vai ensinar as crianças a serem gays, dos refugiados roubarem seus empregos, da cantora Pabllo Vitar e muitos outros.

O outro lado também vive com medo. Medo de sair com um boné do MST e ser espancado (aqui); medo de ser espancada em uma discussão de bar (aqui); medo de ser atacada com um estilete e ter uma suástica feita em suas costas (aqui); medo de morrer esfaqueado após uma discussão política em um bar (aqui), etc, etc, etc

O fato do PT ter ficado entre 2003 e 2016 no poder e o país não ter virado comunista, continuar sendo o que mais mata trans mostra que um medo é justificável. O outro, manipulável.

O exemplo que Hariri usa no livro é o do referendo do Brexit. A maioria das pessoas que votaram pela saída da Grã Bretanha da União Europeia tinha pouca ou nenhuma noção do que isso poderia acarretar para a ilha. Mas o sentimento era o de que algo precisava mudar. Não importava como.

Mais de 46 milhões de pessoas votaram em Jair Bolsonaro no último domingo (8). Um candidato abertamente homofóbico (aqui), racista (aqui) e autoritário (aqui ). Mas, como lembrou o filósofo Rafael Azzi, a sua tia, que faz os melhores bolos de fubá, que te dá presentes legais no fim do ano, não é fascista por votar em Bolsonaro.

Sentimentos, que resolvem eleições e plebiscitos, como nos lembra Hariri, são manipuláveis.

O Fora de Foco é parceiro da Cia das Letras em 2018

Donald Trump continua andando

“Você acerta Donald na cabeça e ele segue em frente. Nem percebe que foi atingido”, a frase é de Roger Ailes, ex-presidente da Rede de TV Fox News, ícone conservador estadunidense, sobre Donald Trump.

Fogo e Fúria – Por dentro da Casa Branca de Trump (Ed. Objetiva) , de Michael Wolff, é uma crônica de como, um candidato tratado como piada na maior parte do tempo da campanha eleitoral, conseguiu se eleger contra o status quo da política dos EUA.

(Primeiro, veja aqui como o cineasta Michael Moore, que está longe de ser um trumpista, elencou cinco motivos pelo qual Trump venceria a eleição meses antes dela ocorrer )

Em tempos de fake news e de pós-verdade, “seguir em frente”, como faz Trump, talvez é a principal qualidade que um político conservador deva ter.

O livro de Wolff pode ter exageros: alguém eleito presidente da maior potência mundial não pode ser um completo idiota, como o jornalista deixa claro em praticamente todas as frases do livro. Mas ele nos faz entender como a descrença na política e na “nova ordem mundial” pode produzir figuras como essa.

O ridículo político

Em diversas partes de seu livro, Wolff deixa claro que Trump é uma marca. Sua empresa não é do ramo imobiliário, esportivo, de lazer ou qualquer outro. Sua empresa é ele. E junto com isso vem, por exemplo, uma forma de pensar e resolver as coisas. O problema tem que ser resolvido, então, às favas com a diplomacia, faça-se uma lista países onde seus cidadãos, a partir de hoje, não podem mais viver o “sonho americano”. Abandone-se políticas públicas de imigração e constrói-se um muro na fronteira com o México. (e faça os mexicanos pagarem por ele)

A filósofa Márcia Tiburi lançou, em 2017, seu livro “O ridículo político” (Ed. Record). Nesse vídeo ela recorda do filósofo alemão, integrante da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin onde ele aponta que havia naquele momento uma estetização da política.

“Quando a gente fala de estética política nós estamos colocando em cena justamente o aparecer do poder. O modo como o poder se apresenta e como, ao se apresentar, toca na nossa sensibilidade. Como nos afeta e nos influencia o nível também dos nossos sentidos”, explica.

Trump não é burro! Mas talvez a construção de um presidente que não é nada além do que a sua marca seja uma das coisas mais americanas que existem.

Em certo momento, Wolff explica qual era a importância de Steve Bannon, que foi membro do Conselho de Segurança Nacional do governo Trump até abril de 2017.

“Simplesmente fazer tornou-se um princípio de Bannon, o antídoto generalizado para a resistência e para o tédio da burocracia do estabilishment. Foi o caos desses tipo de atitude que realmente levou as coisas a serem feitas”.

Na coletânia de artigos “Ocuppy – Movimentos de protesto que tomaram as ruas” (Ed. Boitempo), o filósofo e psicanalista Vladimir Safatle aponta:

“O pensamento, quando aparece, exige que toda a ação não efetiva pare, com o intuito de que o verdadeiro agir se manifeste. Nessas horas, entendemos como, muitas vezes, agimos para não pensar. Pensar de verdade significa pensar em sua radicalidade, utilizar a força crítica do pensamento. Quando a força crítica do pensamento começa a agir, todas as respostas se tornam possíveis e alternativas novas aparecem na mesa”.

A saída de Trump, mais que o não-pensamento, é o anti-pensamento. É o se manter em pé mesmo com uma bala na cabeça. A urgência do ato em oposição ao pensamento é a mentira de que não há outro modo de fazer as coisas.

Por isso a confiança em instituições e ideias pouco democráticas como a família, a igreja e a polícia. Por isso a oposição à política e a virtude nos gestores. Estados tem que ser gerenciados como empresas privadas.

Ao contrário do que disse Francis Fukuyama depois do fim da URSS: parece que a História vai começar outra vez.

Racismos, Marx e as “coisas de preto” no Brasil

“É preto, é coisa de preto”, diz William Waack

Recebi em meados do mês de março da Companhia das Letras o livro Racismos, do historiador e professor da King`s College, em Londres, Francisco Bethencourt*.

A primeira coisa que me chama a atenção é o “s” de Racismos que tem muito destaque na capa. O livro procura entender as origens dos diversos tipos de racismos pelo mundo no tempo.

“O racismo é relacional e sofre alterações com o tempo, não podendo ser compreendido na sua totalidade através do estudo segmentado de breves períodos temporais, de regiões específicas ou de vítimas recorrentes – negros ou judeus, por exemplo”, explica Bethencourt na introdução do livro.

Outro destaque de seu pensamento durante o livro é que em relação à preconceitos étnicos associados a ações discriminatórias foi motivado por projetos políticos. A extensa obra analisa diversos momentos históricos desde as cruzadas, a exploração oceânica dos europeus, as sociedades coloniais, como foi a criação das teorias de raça e, por fim, o papel do nacionalismo.

O Brasil

“Como é possível que a mesma pessoa seja considerada negra nos Estados Unidos, de cor no Caribe ou na África do Sul e branca no Brasil? (…) nos Estados Unidos, uma gota de sangue africano define um indivíduo como negro, ao passo que, no Brasil, o status de classe média embranquece a tez humana”, explica o autor logo na página 22.

Aqui entra o ALERTA LEIA MARX do texto. É um erro pensar na questão de raça descolada da questão de classe no Brasil. Bethencourt acusa a interpretação marxista para o problema do racismo limita a explicação às relações econômicas. Talvez realmente tenhamos que ir além de Marx para entender, por exemplo, a questão das desigualdades de acesso à escola, saúde pública ou bens culturais da população negra no Brasil. Mas tirar o sistema capitalista dessa conta não é o caminho.

A tal da Nova Classe Média, propagandeada pelos governos petistas e limitada a nível de renda mensal, foi um erro grave. Do mesmo jeito que, alguém que ganha R$ 2.000,00 por mês tem a sua tez embranquecida, se isso não vier com reformas profundas no Estado, daqui a alguns anos essa mesma pessoa pode ter seus direitos trabalhistas extingui….. er, quer dizer, flexibilizados, ter que virar profissional autônomo ou voltar pra subempregos. E tem a sua tez escurecida novamente.

Foi só a crise econômica chegar ao Brasil que a renda dos negros e pardos, entre 2015 e 2017, caiu 1,6% e 2,8% respectivamente. A dos brancos subiu 0,8%. Entre 2012 e 2014 a situação era inversa: os rendimentos dos autodeclarados pretos cresceu 8,6%; de pardos 6,5% e o de brancos 5,6%. Um trabalhador negro ganha, em média, 56% do que um branco. Clique aqui ler mais. Quando fazemos o recorte por gênero, os números são ainda piores. 63% das trabalhadoras domésticas do país são mulheres negras, uma categoria que sempre teve condições trabalhistas muito precarizadas. Clique aqui para ler mais.

Por fim, mas não menos importante, cabe lembrarmos que, com menos direitos sociais a balança sempre acaba pendendo mais para a questão penal e carcerária. Com a terceira maior população atrás das grades do planeta, 726 mil pessoas se encontram presas hoje no Brasil. 64% delas são negras. Os estados do Acre (95%), Amapá (91%) e Bahia (89%) são os com maiores percentuais de negros nas penitenciárias. Clique aqui para ler mais.

O lugar do negro na sociedade brasileira está bem delimitado, mesmo sem escravidão, mesmo sem apartheid oficial. Caso ouse sair desse lugar, com méritos próprios, como os liberais adoram dizer, mesmo Marielle Franco (Psol-RJ) conseguindo mais de 40 mil votos e ser eleita vereadora na segunda maior cidade do país, corre o risco de tomar quatro tiros na cabeça e, ainda por cima, ser difamada nas redes sociais.

*O Fora de Foco faz parte do time de leitores da Cia das letras de 2018