Arquivo da tag: Brasil

Ao contrário da bravata de Bolsonaro, Brasil terá que proteger terras indígenas por acordo com União Européia

Além disso, país terá que ficar no acordo climático de Paris

Por Bruno Pavan

Durante a campanha, Jair Bolsonaro disse que em seu governo não teria “um milímetro” de Terra Indígena demarcada. 

Após eleito, saiu derrotado na Congresso Nacional quando quis mudar o órgão que demarcaria as terras: da Funai para o Ministério da Agricultura. “Quem demarca terra indígena sou eu”, disse.

A União Europeia, no entanto, não vê por esse lado

Pacto com UE obriga Brasil a ficar no Acordo de Paris e proteger índios

 

Para entrar na turma da União Européia, o governo, pra variar, terá que respeitar a Constituição.

Heleno manda França e Alemanha “procurarem a sua turma”. Que o Brasil não faz parte

Angela Merkel e Emmanuel Macron cobram política ambiental do governo

Por Bruno Pavan

O presidente Jair Bolsonaro está em Osaka para a reunião do G20 (encontro das 20 maiores economias do mundo).

A viagem já começou “turbulenta”, com o caso do avião pesidencial reserva que foi pego com 39 kg de cocaína em Sevilha, na Espanha. Essa quantidade de droga vale aproximadamente 2 milhões de euros. 

O sargento da Aeronáutica preso, Manoel Silva Rodrigues, foi chamado de “mula de luxo” pelo vice-presidente Hamiltom Mourão.

A vida de Bolsonaro não ficou mais fácil quando pouco no Japão. De olho em uma vaga na OCDE e fazendo dobradinha com Donald Trump nos Estados Unidos, o governo tomou dois puxões de orelha de Alemanha e França por conta de políticas ambientais adotadas. 

“Vejo com preocupação as ações do presidente brasileiro [sobre o desmatamento], e se a oportunidade surgir no G20 pretendo ter uma conversa clara com ele”, disse a chanceler Alemã Angela Merkel.

Um acordo da União Europeia com o Mercosul está no horizonte já a algum tempo. O grupo europeu chamou o acordo de “prioridade número um” já Bolsonaro declarou que ele pode ser assinado “logo”. 

O presidente francês Emmanuel Macron, porém, declarou que se o Brasil, a exemplo dos Estados Unidos, sair do acordo climático de Paris o grupo não poderá assinar o acordo.

“Se o Brasil deixar o acordo de Paris, até onde nos diz respeito, não poderemos assinar o acordo comercial com eles. Por uma simples razão. Estamos pedindo que nossos produtores parem de usar pesticidas, estamos pedindo que nossas companhias produzam menos carbono, e isso tem um custo de competitividade. Então não vamos dizer de um dia para o outro que deixaremos entrar bens de países que não respeitam nada disso”, disse.

Respondendo os dois principais líderes europeu na atualidade, o Ministro-Chefe de GSI, general Augusto Heleno, sugeriu que Macron e Merkel fossem “procurar a sua turma”. Pra quem quer entrar na turma da UE, não se trata de uma fala muito simpática.

Com crise, mais de 100 mil vivem nas ruas e São Paulo

Na Folha

Em três anos, o total de pessoas abordadas como moradores de rua na cidade de São Paulo quase dobrou.

Ao longo de todo o ano passado, assistentes sociais municipais abordaram cerca de 105,3 mil pessoas nas calçadas da cidade, de acordo com a base de dados disponibilizada no site da prefeitura. Esse número é 66% maior do que a quantidade de pessoas abordadas na mesma situação em 2016, quando foram contabilizados 63,2 mil indivíduos, e 88% acima da de 2015.

Leia mais

Zé de Abreu: a oposição que Bolsonaro merece

Por Bruno Pavan

Quinta-feira passada (8), já depois da polêmica do Golden Shower, o presidente Jair Bolsonaro fez uma live para falar com a população brasileira via Facebook.

Entre outros trepidantes assuntos, falou sobre as lombadas eletrônicas nas estradas do país, denunciando a indústria da multa, como um bom vereador. Depois, denunciou uma cartilha que ensinava adolescentes a colocarem a camisinha corretamente. Uma indignação digna de sua tia carola, mas não de um presidente que precisa, entre outras coisas, desenvolver políticas públicas de combate a AIDS e esclarecer dúvidas sobre a gravidez na adolescência.  

Se ele não sabe, de acordo com o Ministério da Saúde, entre 2006 e 2015 o número de jovens de 15 a 19 anos com o vírus no país cresceu 187%.

Pra esse presidente, não há opositor maior do que o ator José de Abreu, que se autodenominou presidente do Brasil no último dia 26. Bolsonaro é, antes de tudo, performance com a sua estética do urgente. Nada melhor do que um ator e uma hashtag para o tirar do sério. Bolsonaro, inclusive, já ameaçou processá-lo. Alexandre Frota também.  

A impressão é que Bolsonaro nunca quis ser presidente. Se algum dia quis, já se arrependeu. Nesse pouco mais de dois meses no cargo ele se absteve de comentar qualquer coisa que fosse útil ao país. Não falou nada sobre a patacoada resultante da visita de parlamentares de sua base de apoio à China, sobre a crise na Venezuela, nem sobre a reforma da previdência, a maior de suas tarefas, pois foi colocado onde foi também pelo mercado financeiro.

O que o capitão reformado quer mesmo é ficar destilando seus preconceitos usufruindo do foro privilegiado para não ser processado como um reles mortal. Pra isso, poderia ficar com seu cargo na Câmara dos Deputados. Tarde demais. Agora virou vidraça.

A esquerda que quer fazer oposição ideológica séria precisa se voltar ao vice. Hamiltom Mourão não é só a voz da sensatez do governo. É a única cabeça que pensa algo de Brasil. Quando os adultos sentaram a mesa, era ele que estava no grupo de Lima para discutir a questão na Venezuela. Quando o presidente pediu e conseguiu a cabeça de Ilona Szabó para Sergio Moro, foi ele que lamentou. Quando Ricardo Salles diz que não importava quem era Chico Mendes, o General da reserva que colocou panos quentes.

Outra coisa que é preciso entender, as polêmicas de Bolsonaro nas redes não são pra fazer cortina de fumaça pra nada. Ele é assim. Só foi eleito por ser assim. E vai precisar manter seu eleitorado engajado contra os inimigos imaginários do brasil, da família, etc etc etc.

É aí que a esquerda que tem ideias, e não só memes, tem que agir.

José de Abreu é tudo que Bolsonaro merece.

Brasil de 2019 e a estética do urgente

Por Bruno Pavan

A estética é sempre capaz de traçar uma espécie de perfil de uma época.

Filmes, músicas, quadros, esculturas, programas de TV são sempre um modo de entender a realidade em que vivemos.

Quando, na Europa, as pessoas deixaram de colocar Deus no centro do universo, a arte mudou.

No Brasil, por exemplo, Getúlio Vargas usava as marchinas de carnaval a seu favor. Um país que saia da República Velha e despontava para o futuro. Tinha uma esperança e uma descontração.

Nos anos JK, um presidente moderno, uma nova capital, não combinava muito com aqueles cantores do rádio, empostadores de voz, como Francisco Alves. Nasce então a Bossa Nova, uma mistura de samba com jazz, feita para ser a cara do novo país e levar o Brasil pra fora.

Na ´peoca da ditadura, ao menos três movimentos surgiram. Um conservador, de uma música bastante influenciada pelo rock americano falando sobre o beijo no cinema, o calhambeque, da namoradinha do amigo. A Jovem Guarda.

Outra contestador da realidade política nacional, que não tem muito nome, mas era liderado por Chico Buarque  e Geraldo Vandré.

O terceiro era moderno, contestador na forma, psicodélico. A Tropicalia. Ao cantar “É proibido proibir”, no festival de 1968, Caetano Veloso berrava, soterrado por vaias: “se vocês em política como são em estética, estamos feitos”

É possível traçar outras dezenas de exemplos, o rock dos anos 1980, em um país sem rumo; o axé nos anos 1990, em um país otimista e de bem com a vida; o funk ostentação nos anos 2010, em um país que consumia cada vez mais.

E hoje, qual a estética de um país deprimido, dividido, autoritário?

A cara do Brasil hoje é a cara de Jair Bolsonaro. Isso é doloroso de se dizer, mas é isso.

A cara do Brasil hoje é o pão com leite condensado que ele come no café da manhã, a caneta bic com que assina a sua posse, o bandeijão em que ele janta sozinho na Davos.

A simplicidade fake em contraste com os “marajás” que só pensam em sugar dinheiro da população.

Mas, mais do que isso, a cara do Brasil hoje são as artes de whattsApp.

Um governo como esse só para em pé se se colocar como a única saída frente todas as outras. Então, a estética dele não pode deixar margem nenhuma.

A imagem que ilustra a postagem é clara. Um recém-nascido bate continência e se declara pronto pra batalha. Quem pensa diferente é inimigo dessa criança que acabou de nascer. Ela não precisa nem aprender a andar, falar e pensar pra “saber” disso.

A estética é a mais “amadora” possível e, claro, isso também não é coincidência. Assim como Bolsonaro, pra essas pessoas, se elegeu contra tudo e contra todos, é necessário fazer a sua própria arte.

Tudo que é bem feito não combina com essa sensação de urgência que o Brasil tem hoje, pra tudo. E além de ter recebido dinheiro da Lei Rouanet.

Basta ver também os títulos de canais conservadores no Youtube: Bolsonaro HUMILHA (sim, sim, em caixa alta) jornalista comunista. Fulano CALA A BOCA de Sicrano. Mostra em quem está o poder e o que deve-se fazer com o “inimigo”.

Tem que mudar. Tem que matar. Tem que prender. Tem que humilhar.

Compartilhe. Agora. Já. Porque a Globo não vai mostrar.

Isso, justiça seja feita, a esquerda também faz.

O Brasil hoje é urgente. Não tem mais espaço pra país do futuro. Não tem mais espaço pra futuro.

Podcast Fora de Foco #22 – Fascismo e crise de hegemonia com Tatiana Poggi

A nova edição do Podcast traz uma entrevista com a professora de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) Tatiana Poggi que falou sobre o novo fascismo que vem crescendo pelo mundo e crise de hegemonia.

Ela participa também do web curso sobre fascismo realizado pelo Esquerda Online. Clique aqui para ver

 

Ouça o programa

Aqui

Ou aqui

As eleições e o que sentimos

Por Bruno Pavan

O brasileiro e a brasileira que estão minimamente por dentro das eleições presidenciais já está habituado (a) com a palavra “polarização”. Desde o final do pleito de 2014, quando Dilma Rousseff venceu Aécio Neves por uma diferença de 3.459.963. Ou seja: minúscula!

Desde então aconteceram muitas coisas: a radicalização do discurso tucano, que questionou a segurança da urna eletrônica e pediu recontagem de votos. Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados liderando o que ficou conhecido como “centrão” e liderando o golpe contra Dilma Rousseff em 2016.

Dilma e sua direção catastrófica na economia, também é personagem central.

A polarização deu as caras e saiu de vez do buraco.

O historiador israelense Yuval Noah Harari apontou, em seu livro 21 lições para o século 21 (Cia das Letras) que “para o bem ou para o mal, eleições e referendos não tem a ver com o que pensamos. Têm a ver com o que sentimos”.

Pesquisa do Datafolha (aqui) diz que 68% das pessoas entrevistadas dizem que se sentem com raiva ao pensar no Brasil. 78% mais desanimado do que animado. 80% mais triste do que alegre. 88% mais inseguros do que seguros. Foi com esse sentimento que o Brasil foi às urnas no domingo dia 8.

Um eleitorado com raiva, triste, desanimado em inseguro é um eleitorado com medo. Um lado, apavorado há anos por programas de TV sensacionalistas e correntes do WhattsApp tem medo do Brasil virar uma nova Cuba, medo de ter sua famílias destruída por uma suposta cartilha que vai ensinar as crianças a serem gays, dos refugiados roubarem seus empregos, da cantora Pabllo Vitar e muitos outros.

O outro lado também vive com medo. Medo de sair com um boné do MST e ser espancado (aqui); medo de ser espancada em uma discussão de bar (aqui); medo de ser atacada com um estilete e ter uma suástica feita em suas costas (aqui); medo de morrer esfaqueado após uma discussão política em um bar (aqui), etc, etc, etc

O fato do PT ter ficado entre 2003 e 2016 no poder e o país não ter virado comunista, continuar sendo o que mais mata trans mostra que um medo é justificável. O outro, manipulável.

O exemplo que Hariri usa no livro é o do referendo do Brexit. A maioria das pessoas que votaram pela saída da Grã Bretanha da União Europeia tinha pouca ou nenhuma noção do que isso poderia acarretar para a ilha. Mas o sentimento era o de que algo precisava mudar. Não importava como.

Mais de 46 milhões de pessoas votaram em Jair Bolsonaro no último domingo (8). Um candidato abertamente homofóbico (aqui), racista (aqui) e autoritário (aqui ). Mas, como lembrou o filósofo Rafael Azzi, a sua tia, que faz os melhores bolos de fubá, que te dá presentes legais no fim do ano, não é fascista por votar em Bolsonaro.

Sentimentos, que resolvem eleições e plebiscitos, como nos lembra Hariri, são manipuláveis.

O Fora de Foco é parceiro da Cia das Letras em 2018