“A democracia está se tornando um fardo para os mais poderosos”, diz Luis Felipe Miguel

Por Bruno Pavan

O doutor em ciência política e professor da Universidade de Brasília Luis Felipe Miguel estava em São Paula na última quarta-feira (18) para o lançamento de seu novo livro “Dominação e Resistência – Desafios para uma política emancipatória” (Ed. Boitempo). O lançamento foi no debate “Estratégias de resistência política em tempos difíceis” e teve também a participação da também doutora em ciência política e professora da Unifesp, Esther Solano.

O Fora de Foco já entrevistou o professor Luis Felipe em 2017, em sua edição de número 9, por conta do lançamento do seu livro Consenso e Conflito na Democracia Contemporânea (Ed. Unesp). Clique aqui para escutar

O professor explicou no debate que o casamento do capitalismo liberal e a democracia nunca foi “por amor” e sim por conveniência pois, quando o 1% mais rico quer retirar lucros maiores da sociedade, é a democracia que acaba pagando o preço.

“A democracia foi uma concessão feita pelos detentores da riqueza que se dispunham a pagar um preço pela paz social. Hoje a gente vive um momento que essa disposição diminuiu por conta também da crise econômica desde 2008, mas também porque esse 1% se tornaram mais gananciosos. A democracia está se tornando um fardo” apontou Miguel, que lembrou do golpe sofrido pela ex-presidenta Dilma Rousseff e pelo plebiscito na Grécia, em que 61% da população disse não a condições impostas pela União Europeia de ajuda financeira ao país, mas que uma semana depois o governo do Syriza assinou o acordo rejeitado.

Para entender a relação entre Dominação e Resistência, presente no título do livro do professor Luis Felipe, Esther explica que primeiro precisamos entender como se dá o primeiro para entendermos como que a esquerda pode organizar uma resistência que consiga, de fato, resistir.

“A democracia que temos atua como uma força centrípeta, que coloca como possível as formas aceitáveis de participação e coloca como inaceitáveis as que ela considera radicais demais. Ao mesmo tempo, a dominação política também se dá dentro da democracia, ganhando mentes através de subjetividades. O campo cognitivo vai criando e formando as visões de mundo. Estamos inseridos em sistemas que nos impõe preferências. A escola é uma linha de produção que forma pensamento acrítico, a imprensa oligopolizada, que faz a notícia mercadoria, também forma essa dominação”, crítica.

Constituição em risco

Em 1988 foi promulgada a Constituição Federal, chamada de Constituição Cidadã, que prometia dar novas bases para a nova sociedade que estava nascendo depois de 21 anos de ditadura militar. Para Miguel, apesar de suas imperfeições, o processo constituinte ao menos ouviu diferentes setores da sociedade, desde mais progressistas até ruralistas e empresários.

“O que o golpe 2016 afirma é a exclusão de vozes do espaço de uma luta legítima, de um país menos violento e desigual. A gente uma ilusão da construção de uma legalidade e que a democracia estava ai pra ficar. Mas esse conjunto de garantias se foi muito rapidamente porque temos um alinhamento dos interesses dos diferentes poderes em favor de um, projeto de retrocessos”, apontou.

Em fevereiro de 2018, o professor anunciou um curso de extensão universitária sobre o golpe de 2016 na UNB. O ministro da educação Mendonça Filho (DEM) chegou a acionar o Ministério Público Federal para investigar a emenda do curso. O tiro acabou saindo pela culatra e outras diversas universidades pelo país se organizaram para oferecer disciplinas sobre o processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Miguel afirma que, por mais que não haja uma proibição formal do pensamento de esquerda no país, há uma espécie de marcatismo tupiniquim, prática usada nos EUA na época da guerra-fria para acusar alguém de traição ou subversão

“O que temos hoje no Brasil é um marcatismo, em que as posições de esquerda não estão expressamente proibidas, mas há um ambiente social que faz com que as expressões progressistas recebam todo o tipo de violência. Temos um impedimento dessas falas e as instituições, que teriam que garantir as liberdades, são coniventes com isso. Quem está nos ambiente de ensino sabe como é isso, não precisa aprovar o escola sem partido porque esse projeto fomenta uma proibição de debates, e o poder público fecha os olhos pra isso”, disse.

O perigo da fragmentação das lutas

“A história de todos os povos é a história da luta de classes”, para o ouvinte mais desatento, essa frase de Karl Marx parece mais empoeirada do que o livro do mesmo que está esquecido no fundo do armário de casa.

Para Esther, essa fragmentação do campo da esquerda em lutas identitárias como a feminista, LGBTs e do movimento negro precisa encontrar campos unificadores para aumentar a capacidade de resistência contra os retrocessos democráticos no país.

“O conceito de classe está se esvaziando muito como fator mobilizador. A greve e as estruturas clássicas dos trabalhadores perdem seu sentido, mas temos novas formas de luta como o movimento negro, o movimento feminista e LGBT. Nós temos identidades de resistência, de se entender como subalternos, mas temos que encontrar campos unificadores de luta. Temos que entender a dominação e ver que a resistência ou se faz coletivamente ou não se faz”, encerrou.

Veja o vídeo completo do debate à partir dos 18 minutos:

A culpa é do Sol

“Sol
A culpa deve ser do sol
Que bate na moleira
O sol
Que embaça os olhos e a razão”

Assim cantou Chico Buarque de Holanda em “Caravanas”, grande música que deu título ao novo álbum do cantor.

O Sol na cabeça, que lembra uma outra música, dos mineiros do Clube da Esquina, é o título do primeiro livro de Geovani Martins (Ed. Companhia das Letras*). São 13 crônicas do escritor, nascido em Bangu, no subúrbio do Rio de Janeiro, e que tem o astro rei como personagem central.

A primeira delas, “Rolézim” (Leia aqui e escute aqui), se fosse uma chamada da Sessão da Tarde, seria resumida assim: “as aventuras de um grupo de amigos na praia da Zona Sul do Rio de Janeiro. Eles vão aprontar 1001 confusões”. Mas a realidade é bem diferente da sinopse.

 

A praia, lugar público, sem grades e sem final, aponta para a aurora do planeta redondo. Nada poderia ser mais democrático do que uma tarde na praia. Se quiser comprar, compra. Se não quiser, não compra. Quando quiser ir embora, vai embora. Teria que ser simples. Mas não é.

Tanto Chico, que vê tudo com uma sensibilidade única, mas com olhos da zona sul carioca, quanto Martins concordam que existem os chamados intrusos por ali.

“Um sol de torrar os miolos
Quanto pinta em Copacabana
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba”

Buarque canta a chegada dos visitantes, que desperta o ódios dos banhistas “de bem”. Martins narra a cena desde horas antes.

“Tinha dois conto em cima da mesa, que minha coroa deixou pro pão. Arrumasse mais um e oitenta, já garantia pelo menos uma passagem, só precisava meter o calote na ida, que é mais tranquilo”.

O astro rei, que tira os jovens de casa em busca de diversão na praia, aumenta o ódio na elite carioca.

O comboio dos jovens funciona como se fosse uma colonização portuguesa ao contrário. Onde os nativos tomam conta da terra novamente. Querem retomar o mar onde seus antepassados chegaram, forçados da África.  

“A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné”

A praia acaba virando o campo para o confronto de classes. Que, afinal, é a história de todos os povos (Momento citei Marx!!!!) Na hora de ir embora, o narrador e seus amigos descobrem que aquele não é o lugar que querem que eles estejam.

“…Aí (o policial) veio com um papo de que quem tivesse sem dinheiro de passagem ia pra delegacia, quem tivesse com muito mais que o da passagem ia pra delegacia, quem tivesse sem identidade ia pra delegacia”, conta o autor.

Martins narra cenas em diversos cenários, que mostra que os negros e pobres estão em todos os lugares de um país como o Brasil, de uma cidade como o Rio De Janeiro. Como Marielle Franco estava na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, posta lá por quase 50 mil pessoas. E que, no meio da cidade, foi assassinada com quatro tiros na cabeça. Porque ousou falar alto.  

Assista o programa documento especial – “Os pobres vão à praia”

*O Fora de Foco é blog parceiro da Companhia das Letras 

Não se pode dizer que é um governo socialista, diz Raquel Varela sobre a geringonça portuguesa

O chanceler português Antonio da Costa com a ex-presidenta do Chile Michelle Bachelet. Foto: Sebastian Rodriguez / Gobierno do Chile

Por Bruno Pavan

Parece que foi ontem, mas a crise de 2008 completará uma década ainda esse ano. Para muitos a crise foi a pior desde 1929. O que começou com empréstimos de alto risco sendo concedido a torto e a direito nos Estados Unidos devastou e economia de diversos países gerando crises econômicas e políticas sucessivas.

Um dos maiores atingidos por ela foi Portugal. Principalmente depois de 2010 o país foi devastado por altos índices de desemprego, aumento na taxa da pobreza, corte de serviços básicos e a utilização de dinheiro público para salvar empresas privadas.

A suposta saída foi apontada pela chamada Troika, grupo composto por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia, é velha conhecida de quem viveu o Brasil dos anos 90: privatizações de empresas e serviços públicos, superávit na balança comercial e cortes no investimento público em prol do pagamento da dívida pública.

A historiadora portuguesa Raquel Varela explica que o remédio amargo da Troika focou, novamente, nos cortes contra os trabalhadores, que hoje trabalham com direitos cada vez mais precários. Enquanto os capitalistas concentram uma fatia cada vez maior da riqueza do país.

“O que a troika impôs foi uma dramática intensificação do trabalho. As pessoas trabalham mais horas com mais tarefas. Desde 2008 isso tem levado a um aumento enorme do desgaste dos trabalhadores, do absenteísmo no trabalho e dificuldades das pessoas em se concentrarem. Fora que as políticas impostas são péssimas do ponto de vista do desenvolvimento do país sobretudo a longo prazo, já que elas destroem os sistemas de educação e saúde públicos”, disse.

Nasce a geringonça

Nos anos 1990 as experiências neoliberais principalmente na América latina, foram traumáticas. Altíssimas taxas de desemprego e estados totalmente desmontados fizerma com que todo o continente tivesse uma guinada a esquerda nas eleições no final da década e começos dos anos 2000. De moderados como Lula, no Brasil, e Nestor Kirchner, na Argentina; até Hugo Chávez, na Venezuela; Evo Morales, na Bolívia e Rafael Correa, no Equador, que refundaram seus respectivos países com novas constituições.

Portugal vive hoje um momento parecido. Depois de governos de direita desde a crise econômica, hoje o país é governado pela chamada “Geringonça socialista”. O primeiro ministro Antonio da Costa, do Partido Socialista, precisou de uma coalizão tida como frágil da direita portuguesa, com o Bloco de Esquerda, o partido Comunista Português e os Verdes.

O sociólogo português Boaventura Sousa Santos, em entrevista à Folha de S. Paulo, disse que o único governo de esquerda a, de fato, governar à esquerda na Europa é o de Portugal

Varela não é tão otimista assim. Ela aponta que o apoio de certos setores da classe trabalhadora ao governo é por medo de que a direita volte ao poder, mas que o governo o PS não rompeu com as políticas neoliberais da Troika.

“Não se pode dizer que é um governo socialista, apesar do partido se chamar socialista. As privatizações não foram revertidas, manteve-se a degradação dos serviços públicos e o governo se recusou a alterar as leis liberais que a Troika implementou. Não é socialista porque o capital tem todo o espaço de acumulação. A geringonça não só salvou as ações privadas de três bancos como se orgulha de pagar juros antecipadamente ao FMI”, critica Varela.

Para ela, o bom momento econômico do país não permite que haja um avanço dos grupos chamados “eurocéticos”, ao contrário do que acontece em países como França e Itália. Mas que como o governo da geringonça não realizou mudanças econômicas profundas, em uma próxima crise a situação em Portugal pode se agravar ainda mais.

Podcast Fora de Foco #14 – Alysson Mascaro – As limitações da luta por direitos

A décima quarta edição do Podcast Fora de Foco está no ar!

Nesse programa o professor da Faculdade do Largo São Francisco Alysson Mascaro debate a forma do direito em um estado capitalista e critica a visão da esquerda de somente lutar por mais direitos.

Racismos, Marx e as “coisas de preto” no Brasil

“É preto, é coisa de preto”, diz William Waack

Recebi em meados do mês de março da Companhia das Letras o livro Racismos, do historiador e professor da King`s College, em Londres, Francisco Bethencourt*.

A primeira coisa que me chama a atenção é o “s” de Racismos que tem muito destaque na capa. O livro procura entender as origens dos diversos tipos de racismos pelo mundo no tempo.

“O racismo é relacional e sofre alterações com o tempo, não podendo ser compreendido na sua totalidade através do estudo segmentado de breves períodos temporais, de regiões específicas ou de vítimas recorrentes – negros ou judeus, por exemplo”, explica Bethencourt na introdução do livro.

Outro destaque de seu pensamento durante o livro é que em relação à preconceitos étnicos associados a ações discriminatórias foi motivado por projetos políticos. A extensa obra analisa diversos momentos históricos desde as cruzadas, a exploração oceânica dos europeus, as sociedades coloniais, como foi a criação das teorias de raça e, por fim, o papel do nacionalismo.

O Brasil

“Como é possível que a mesma pessoa seja considerada negra nos Estados Unidos, de cor no Caribe ou na África do Sul e branca no Brasil? (…) nos Estados Unidos, uma gota de sangue africano define um indivíduo como negro, ao passo que, no Brasil, o status de classe média embranquece a tez humana”, explica o autor logo na página 22.

Aqui entra o ALERTA LEIA MARX do texto. É um erro pensar na questão de raça descolada da questão de classe no Brasil. Bethencourt acusa a interpretação marxista para o problema do racismo limita a explicação às relações econômicas. Talvez realmente tenhamos que ir além de Marx para entender, por exemplo, a questão das desigualdades de acesso à escola, saúde pública ou bens culturais da população negra no Brasil. Mas tirar o sistema capitalista dessa conta não é o caminho.

A tal da Nova Classe Média, propagandeada pelos governos petistas e limitada a nível de renda mensal, foi um erro grave. Do mesmo jeito que, alguém que ganha R$ 2.000,00 por mês tem a sua tez embranquecida, se isso não vier com reformas profundas no Estado, daqui a alguns anos essa mesma pessoa pode ter seus direitos trabalhistas extingui….. er, quer dizer, flexibilizados, ter que virar profissional autônomo ou voltar pra subempregos. E tem a sua tez escurecida novamente.

Foi só a crise econômica chegar ao Brasil que a renda dos negros e pardos, entre 2015 e 2017, caiu 1,6% e 2,8% respectivamente. A dos brancos subiu 0,8%. Entre 2012 e 2014 a situação era inversa: os rendimentos dos autodeclarados pretos cresceu 8,6%; de pardos 6,5% e o de brancos 5,6%. Um trabalhador negro ganha, em média, 56% do que um branco. Clique aqui ler mais. Quando fazemos o recorte por gênero, os números são ainda piores. 63% das trabalhadoras domésticas do país são mulheres negras, uma categoria que sempre teve condições trabalhistas muito precarizadas. Clique aqui para ler mais.

Por fim, mas não menos importante, cabe lembrarmos que, com menos direitos sociais a balança sempre acaba pendendo mais para a questão penal e carcerária. Com a terceira maior população atrás das grades do planeta, 726 mil pessoas se encontram presas hoje no Brasil. 64% delas são negras. Os estados do Acre (95%), Amapá (91%) e Bahia (89%) são os com maiores percentuais de negros nas penitenciárias. Clique aqui para ler mais.

O lugar do negro na sociedade brasileira está bem delimitado, mesmo sem escravidão, mesmo sem apartheid oficial. Caso ouse sair desse lugar, com méritos próprios, como os liberais adoram dizer, mesmo Marielle Franco (Psol-RJ) conseguindo mais de 40 mil votos e ser eleita vereadora na segunda maior cidade do país, corre o risco de tomar quatro tiros na cabeça e, ainda por cima, ser difamada nas redes sociais.

*O Fora de Foco faz parte do time de leitores da Cia das letras de 2018

Tom Zé e a urgência didática

A tropicália morreu em um apê do Leblon, mas vive nas ideias e na inquietação de Tom Zé

Por Bruno Pavan

Tom Zé tem 81 anos.

Contou no show que fez no último sábado (6) no Sesc Belenzinho, Zona Leste de São Paulo, que depois que compôs “Tô”, um de seus maiores sucessos no disco “Estudando o Samba”, em 1976, ficou 20 anos fazendo shows em diretórios acadêmicos de universidades pelo Brasil e pensou em ir trabalhar em um posto de gasolina de seu sobrinho, em Salvador.

“Eu to te explicando pra te confundir/ Eu tô te confundindo pra te esclarecer”, disse ele na canção.

Somente no final da década de 1990 o músico britânico David Byrne, da banda Talking Heads, recuperou Tom Zé do ostracismo e fez o Brasil redescobrir o músico.

(Aqui para ler a entrevista que o baiano deu para Pedro Alexandre Sanchez, na Folha de S. Paulo, no ano 2000.)  

Viajando direto para 2016, já com 80 anos, lançou seu mais recente álbum “Canções eróticas de ninar” onde prova que o sexo e prazer são construções sociais acima de tudo. 

O caminho começa em “descaração familiar”  e nas sutilezas de como os filhos da Casagrande eram introduzidos a educação sexual. “Puras figuras de linguagem/ Na libidinagem”.

Depois vem a “urgência didática” das muitas vezes violentas formas de colocar meninos e meninas em seus quadrados de acordo com o que tem “debaixo do umbigo”.

(Nesse momento Tom interrompeu a música, ao vivo, pra explicar a importância de se desatar, não só o primeiro nó da mulher, o debaixo do umbigo, mas todos eles, inclusive aquele que está na cabeça e que é imposto pela sociedade e igreja.)

“Tinha que ser libidinática a urgência didática/ Bem discarática, sem-vergonhática Lascivolática/ LBGTS, a luta permanece, nosso coração merece”.

 

Em tempos de Escola sem partido, uma porrada muito mais bem dada do que os papas da Música Brasileira estão dispostos a dar.

O show segue, falando sobre a sexualidade da “moça feia” e chegando perto do orgasmo com um pedido: “sobe ni min”.

Até que chega em “orgasmo terceirizado”, que é a melhor história do álbum.

Tom conta que ele estava com muita dificuldade em compor o repertório do novo trabalho. Tudo que mostrava as amigas não gostavam, achavam vulgar etc.

Até que chegou em sua casa a revista JP, da colunista social Joyce Pascowitch.

Uma matéria na edição de outubro de 2015 o chamou atenção: “orgasmo terceirizado”, conta a experiência de uma repórter da revista havia ido a um local de massagem tântrica.

A educação sexual que lá atrás os filhos da burguesia teriam que ir até a Copa e a cozinha receber de forma sutil, agora estava em uma publicação da classe AAA. Entre iates, jatinhos e BMWs, o orgasmo.

(Aqui para ler a matéria na íntegra)

“É de outubro ano 15, memorize/ Uma vitória da imprensa, musa que pensa/ Numa edição histórica, a revista categórica/ Expõe pela primeira vez/ O que o homem prometeu e nunca deu”

O show, por mais que trate de um assunto ainda tão delicado, é uma brincadeira de Tom em cima do palco. Uma espécie de cientista do som, mistura sussurros, respiros e jogos de palavras.

Há uma chama transgressora ali, uma transgressão naturlíssima. Sem ativismo de butique, sem os “Fora Temers” classemedianos

A tropicália vive, e não é nos petit comitês do Leblon, uma espécie de redoma à prova de balas. Vive na energia, no atrevimento e na urgência didática de Tom Zé.

“Eu tô aqui comendo para vomitar…”

Para o “Novo”, Brasil deve combater a pobreza e não a desigualdade de renda. Por que isso não faz sentido?

Na manhã desta segunda-feira (11) o economista, engenheiro, palestrante e pré-candidato do Partido Novo à Presidência da República João Amoêdo, tuitou que o grande problema brasileiro não é a desigualdade de renda mas, sim, a pobreza.

O que queremos: combater a pobreza e não necessariamente a desigualdade. Somos, felizmente, diferentes por natureza.
O combate à pobreza de faz com o crescimento e com a criação de riqueza, e não com a sua distribuição.

Abaixo, um vídeo do professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Vladimir Safatle, no evento da Revista Cult “o que foi feito?” que explica a incoerência desse discurso em um país como o Brasil.

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Vladimir Safatle: “A política hoje está nos extremos. E no Brasil nós só temos um extremo”

Em debate no espaço da Revista Cult, em São Paulo, Vladimir Safatle e Ruy Braga participaram do debate “o que foi feito”, para debater os caminhos e desafios da esquerda no Brasil

Por Bruno Pavan

Quatro eleições vencidas e um impeachment no final. A esquerda, capitaneada pelo Partido dos Trabalhadores, parecia que havia conquistado um espaço definitivo no debate público brasileiro. De 2003 até 2014, milhões entraram no mercado consumidor, a crise de 2008 não passou de uma marolinha, o país recebeu Copa do Mundo e Olimpíadas em menos de dois anos e chegamos a ser a sexta maior economia do mundo.

Porém, o Brasil hoje vive uma crises políticas e econômicas sem precedentes e a classe baixa que ascendeu nos governos PT vê seus ganhos desmoronarem e são forçados a aceitarem trabalhos com condições precárias. Mas o que aconteceu?

O evento “O que foi feito?” aconteceu na última quinta-feira (30) no Espaço Cult, em São Paulo, convidou o filósofo Vladimir Safatle e o sociólogo Ruy Braga, ambos da USP, para debater os caminhos, os erros e como a esquerda pode voltar a ser propositiva no debate político nacional.

Capa do mais recente livro de Vladimir Safatle

Safatle, que lançou recentemente o livro “Só mais um esforço” (Ed. Três Estrelas) aponta que a esquerda hoje só apresenta um pensamento reativo diante dos desmontes trabalhista e do investimento público com a PEC do congelamento de gastos, mas não consegue propor nada novo.

“A esquerda nacional vende um pouco o cenário de uma situação de desespero. Então eles dizem ‘não dá pra parar, não dá pra pensar, não dá pra fazer nada, eles estão vindo daqui e dali, vão destruir tudo, depois a gente vê’. Isso nada mais é que uma estratégia quando você não tem estratégia”, criticou.

“Lulodependência é a tragédia da esquerda brasileira”

Capa do livro “A rebeldia do precariado”

Já Ruy Braga, que também lançou recentemente o livro “A rebeldia do precariado” (Ed. Boitempo), e que deu uma entrevista ao Podcast Fora de Foco aqui, critica muito a falta de rumos da esquerda brasileira, que pra ele não consegue mais propor nada ao país. Um dos principais motivos é uma espécie de “Sebastianismo do século XXI” no Braisl, o que ele chamou de “lulodependência”.

“Nós estamos perdendo a partida sem entrar em campo. A gente já entregou o ouro pro bandido, que é apostar em Lula 2018. Lula, ainda que concorra, concorrendo, ainda que vença, vencendo, ainda que seja capaz de governar, ele vai entregar mais do mesmo frustrando de maneira ainda mais radical as expectativas que foram criadas nesse período e que convergiu para sua eventual vitória. O modelo de desenvolvimento que o Lula vai esboçar é o PAC 3, é onde ele consegue chegar. Ele não é capaz de identificar no horizonte possível um modelo de desenvolvimento que rompa com isso, e mesmo se fosse capaz, os seus vistos políticos e as suas alianças espúrias bloqueariam”, apontou.

A frustração relativa dos Brasileiros

Mas por que, mesmo diante de um cenário de crise profunda, onde o presidente da República Michel Temer conta com 3% de aprovação dos brasileiros, não estamos vendo grandes massas nas ruas?

Para Safatle o que ocorre hoje no Brasil é uma espécie de “frustração relativa” onde a parte da população que ascendeu de classe social recentemente, vê seu poder de compra cair, a economia estagnar e  os empregos voltarem a ficar precarizados.

“Os piores momentos pra um governante é que aquele em que o país começa a se transformar, porque você produz um sistema de expectativas. Se esse sistema não se realiza, você pode ter certeza que vai ter que lidar com uma frustração três vezes maior, e nesses momentos os governos caem. Quem faz as revoluções nunca são as classes mais baixas, são as classes que começam a subir e depois percebem que não podem mais. Isso é uma reversão de expectativas em um prazo curtíssimo de tempo e é óbvio que isso geraria uma debacle geral e que mostra claramente a fragilidade institucional brasileira”, apontou.

“Hoje a política está nos extremos”

Uma análise mais superficial da realidade política internacional pode nos fazer acreditar que há uma forte onda conservadora no mundo todo. Podemos, facilmente, recuperar os exemplo da saída da Grã-Bretanha da União Europeia e a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, ambas cercadas por um mote nacionalista conservador. Braga e Safatle, porém, apontam um outro tipo de explicação para esses fenômenos: as receitas políticas hoje se encontram cada vez mais nos dois extremos do espectro político.

Para Safatle, isso aconteceu desde a crise de 2008, onde governos tanto de centro-esquerda quanto de centro-direita repetiam as mesmas receitas que deram no colapso econômico mundial.

“Eu não diria que você vive uma onda conservadora no resto do mundo. Você vê a política indo para os extremos, que é outra coisa. Um exemplo era na Holanda. Durante todo o tempo a imprensa falava da “ascensão irresistível” do protofascismo holandês. Quando chegou nas eleições, a esquerda radical quase toma o poder. Porque pra imprensa é muito melhor você criar essa ilusão de que “olha, está vendo, eles estão vindo” então você inventa uma espécie de figura de centro liberal pra dizer: não dá pra  gente ficar discutindo muito, tem que ser esse aqui mesmo. É o modelo francês que vê o fascismo chegando e diz que o povo tem que aceitar uma figura de centro totalmente insípida, inodora e incolor mas que vence pelo medo. Mas lá o candidato da extrema esquerda (Jean-Luc Mélenchon) ficou com cerca de 20% (A candidata da direita Marine Le Pen teve 21,7% contra 19,5% de Mélenchon). O que aconteceu na Inglaterra, o partido trabalhista (sob liderança do radical Jeremy Corbyn) moribundo que por muito pouco não formou governo. Então, por tudo isso, hoje a política só existe nos extremos. O problema brasileiro é que hoje só existe um extremo”, conjecturou.

Braga usou o tempo em que viveu nos EUA, entre 2015 e 2016, para lembrar da pré-candidatura do democrata Bernie Sanders. Socialista e com base no sindicalismo, nos jovens universitários e no movimento negro, Sanders, para Braga, poderia ter vencido Trump nas eleições.

“Se você olhar hoje no mundo, as experiência de esquerda que são bem sucedidas são as apostaram em uma radicalização do projeto político. Eu estava nos EUA e acompanhei um pouco o fenômeno do Bernie Sanders. Eu arriscaria que hoje nós somos ameaçados por um louco na Presidência dos EUA porque o Partido Democrata sistematicamente bombardeou o Sanders em favor da Hillary Clinton. Existem muitos estudos mostrando que a vitória do Trump não foi assegurada por uma onda conservadora que o inundou de votos, mas, sim, pelos democratas que não se dignaram a ir votar na Hillary Clinton. Se houvesse o Sanders como um anti-Trump, hoje nós estaríamos vivendo uma realidade política internacional na qual, pela primeira vez na história americana, um candidato autenticamente de esquerda estaria hoje no poder”, encerrou. 

O jovem Karl Marx: “A crítica da crítica da crítica”

Por Bruno Pavan

Contrariando o título do texto e talvez 100% dos guias de boas práticas jornalísticas, isso não é uma crítica ao filme “O Jovem Karl Marx”, dirigido por Raoul Peck, que foi indicado ao Oscar em 2017 pelo documentário “Eu não sou seu negro”.

Não se trata de uma crítica porque não tenho ambição de comentar um filme esteticamente. Não tenho nenhuma noção disso.

No começo da semana eu recebi um email da Boitempo Editorial me convidando para a pré-estréia do filme que havia visto, por meio de alguns comentários nas redes sociais, que tinha sido boicotado pela grande indústria do audiovisual. A informação, no entanto, é falsa. O filme estreará no dia 28 de dezembro, quando o outro velhinho barbudo que veste vermelho ainda estiver na sua viagem de volta a sua fábrica de brinquedos no Polo Norte, em salas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

A exibição desta sexta-feira (24) foi em um shopping na Avenida Paulista, às 10 da manhã. Eu, como morador de Interlagos, teria que sair bem cedo. E assim fiz. E em absurdas 1 hora e 30 minutos eu estava na frente do cinema. O Cinemark, que em dia de #RedFriday, virou Cinemarx (sobe a música da Praça é Nossa!).

No início do filme, duas cenas mostram os desvios pequenos-burgueses de Marx e Engels. A esposa do alemão, Jenny von Westphalen, acusa a funcionária que cuida de sua filha pequena de estar roubando a casa da família. Ao que Marx responde: “deixa ela roubar, estamos devendo dois meses de salário pra ela”.

A história de Engels é mais conhecida. Seu pai era dono de uma fiação em Manchester. Depois que uma das funcionárias perdeu o dedo por dormir em cima de uma máquina de tear e as funcionárias realizaram um motim, Engels se interessou por aquela situação e escreveu, em 1845, “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”.

Avançando até São Paulo de 2017, depois de ficar em pé em um ônibus lotado por 1h30, me permiti também a um desvio pequeno-burguês. Como cheguei antes da sessão começar, fui tomar um café. Na Starbucks. R$ 5,50 a xicrinha. Com direito a um mini-cookie. Do outro lado do corredor havia um outro lugar. Onde talvez eu devesse tomar o meu café com menos culpa: o Havana.

O filme também cumpre o objetivo de ser entretenimento. Como uma espécie de “informações de bastidores”, soubemos que Marx proferiu a sua célebre frase “os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo” depois de uma noitada de xadrez regada a muito goró com Engels. “Amigos nunca fiz bebendo chá”, reforçou, décadas depois, o filho de Jessé Gomes da Silva, o Zeca Pagodinho.

Zeca Pagodinho cachorro

Em outro momento, no início da aproximação de ambos com o anarquista francês Pierre Proudhon, fase em que Marx era crítico ferrenhos dos hegelianos, a dupla estava em dúvida sob qual seria o título do livro que estavam escrevendo. A esposa de Marx (que, como a de Engels, tem papel central na trama), os provocou dizendo que o livro deveria se chamar: “A crítica da crítica da crítica”. Na cena do rompimento deles com Wilhelm Wetling, o alemão aos alerta, não com essas palavras, mas que a crítica acaba dando a volta e comendo o próprio argumento. No fim, a sugestão da Sra Marx não foi aceita e a obra ficou conhecida como “A sagrada família”.   

O filme encerra a sua viagem em 1848, com o lançamento do Manifesto do Partido Comunista. Marx não queria escrevê-lo, estava cheio de escrever panfletos e já tinha, ao que tudo indica, ideia e pesquisa da sua obra definitiva: O Capital. Além do mais, estava querendo descansar. Ele foi convencido por Engels a deixar o descanso pra lá e embarcar no desafio de dizer a ao mundo pra que os comunistas vieram. “Depois descansaremos, como dois bons burgueses”, provocou.

Voltando um ano, em 1847, é contado como os comunistas deram um passo essencial para lançar no ar o “espectro que ronda a Europa”. Engels, sob protesto de parte dos participantes, sobe ao palanque para discursar no congresso da então Liga dos Justos, em Londres. O grupo atuava sob o lema, que hoje chamaríamos de desconstruidão “Todos os homens são irmãos”. Engels substitui esse lema pelo famoso “Proletários de todo o mundo, uni-vos”. Os Justos se tornam, então, comunistas.

Ao final da sessão, a Black Friday nos aguardava do lado de fora. Tudo convidava ao consumo, já que tudo parecia estar em promoção. Eu, faminto, quase fui seduzido por um anúncio do Monarca do Hambúrguer, chamado por aqui de Burguer King, que me prometia um lanche, um refrigerante e um balde de batatas fritas (com DOIS SACHÊS de maionese) por R$ 19,90. Declinei do convite. Acabei pagando R$ 2,50 no brasileiríssimo (mas não muito) Torcida sabor cebola. Nunca é tarde para a auto-crítica.

Jessé Souza e a “esquerda Oslo” brasileira

O sociólogo e professor da UFABC Jessé Souza lançou seu novo livro “A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato” na última terça-feira (31) na livraria Tapera Taperá em São Paulo.

Em certa parte de sua fala ele explica o que é a “esquerda Oslo” brasileira. Trata-se da parcela da classe média progressista e liberal, mas que encara os problemas sociais como se fossem escandinávos.

Assista o vídeo abaixo: