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A rebeldia de olhar pra trás


Por Bruno Pavan

No próximo dia 20 de novembro é comemorado o dia da consciência negra. O dia da morte de Zumbis dos Palmares, em 1695, se tornou feriado em algumas cidades brasileiras. Quase sempre ele é ligado ao da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

O que essas duas datas históricas que, nos dias de hoje, apesar de terem sido separadas por mais de 200 anos, tem a ver?

A Cia das Letras lançou, em maio de 2018, o Dicionário da Escravidão e Liberdade. Organizado por Lilia M. Schwarcz e Flávio Gomes, a publicação conta com 50 artigos críticos que, por ordem alfabética, explicam, discutem o período da escravidão no país.

A consciência (ou a falta de)

O significado da palavra consciência é “sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior”.

Notem que o 20 de novembro nada tem de “coitadismo”. Eu já ouvi frases como: “se existe feriado consciência negra, porque não existe consciência branca?” Olha, até digo que a ideia não é ruim, mas ao invés de comemorações, deveria ser uma data de luto. Se você tiver a consciência do que o branco fez com os índios desse país e com os negros africanos, não vai sentir vergonha?

No texto da apresentação do dicionário, Schwarcz e Gomes lembram que “lembrar é, por isso mesmo, exercício de rebeldia; de não deixar passar e de ficar pra contar”. Em uma época em que ouvimos o tempo todo que devemos “parar de olhar pra trás”, lembrar de Zumbi, da ditadura militar, dos navios negreiros, é um ato de rebeldia enorme.

Os movimentos abolicionistas

A caneta da princesa Isabel não se mexeu por conta dela ter acordado de bom humor naquele 13 de Maio de 1888. Movimentos abolicionistas, quilombos e outras formas de resistência sempre existiram. Nunca houve corpos dóceis e domáveis pela escravidão!

Gomes nos conta, no artigo “Quilombos/ Remanescentes de Quilombos” que o primeiro “mocambo” foi formado em 1575 na Bahia. Mais de 300 anos antes da abolição e 75 anos depois da chegada dos portugueses.

Movimentos sociais abolicionistas ganhavam bastante importância no século XIX, anos antes da lei áurea ser aprovada. Wamyra Albuquerque conta muito bem essa história no artigo “Movimentos sociais  abolicionistas”. Ela conta como episódios como a Revolta dos Malês, em 1835 e da Revolta de Manuel Congo em 1838 foi produto de uma grande intensificação da rebeldia escrava.

Luiz Gama foi outro personagem essencial para que o debate sobre o abolicionismo ganhasse importância. Contrariando as estatísticas, Gama conseguiu se alfabetizar, se tornar um grande jornalista e atuar como um defensor de escravizados na justiça. Ficou conhecido como o advogado da liberdade.      

Categorias de trabalhadores como padeiros e tipógrafos também colaboraram na resistência a para dar o caldo necessário para que crescessem as vozes pelo fim do trabalho escravo.

O dia 15 e o dia 20

No artigo “Pós abolição; o dia seguinte” Walter Fraga nos aponta como abolição e proclamação da república, separadas por 1 ano e meio, se relacionaram.

“Ao longos dos anos de 1888 e 1889, representantes dos fazendeiros defenderam no Parlamento indenização pelas perdas financeiras decorrentes do fim do cativeiro. O fato de não verem atendida sua reivindicação explica porque muitos desistiram da monarquia e embarcaram no projeto de República pouco mais de um ano depois do Treze de Maio (…) Nos anos iniciais do Brasil republicano, recrudesceu o controle sobre os candomblés, batuques, sambas, capoeiras e qualquer outra forma de manifestação identificada genericamente como `africanismo`”

Ou seja, a “República”, coisa do povo, em latim, já nasceu de costas para a maioria de seu povo.

Ainda no texto de Fraga, ele narra como o país foi tomado por uma grande festa no episódio da assinatura da lei áurea. Machado de Assis, embranquecido pela História com agá maiúsculo que se repete como farsa, cinco anos depois, escreveu que o 13 de maio foi “o único dia de delírio público que me lembro ter visto”.

Cabe voltar a Machado no seu romance Esáu e Jacó quando, pra mostrar que grande parte da população estava totalmente a parte do processo da proclamação (note para a expressão proclamação e não Guerra de República), conta o episódio de Custódio, dono da “Quitanda do Império”, que, precisando de uma nova placa para o estabelecimento, pede ao pintor que pare depois da letra d por não saber se completaria com “Império” ou “República”.

As festas e o ódio

A elite nacional, já em 1888, apelava para a grande teoria que a classe média abraça hoje no país de que carnaval e qualquer tipo de festa é coisa de vagabundo que não quer trabalhar.

Fraga conta sobre a carta de um senhor de engenho para um senador dizendo como foram as festanças em Salvador. Ele a encerra dizendo: “ainda ontem conversando com o presidente e Chefe de Polícia pedi-lhes que assim que passassem as festas, providenciasse no sentido desses trabalhadores voltarem às fazendas, se não em breve os roubos e mortes se dariam a cada momento”. As festas e os batuques do povo negro sempre foram vistos pelos senhores como prenúncios de revolta.

O povo feliz (e com consciência) ainda hoje incomoda!  

*O Fora de Foco é parceiro da Cia das Letras em 2018  

As eleições e o que sentimos

Por Bruno Pavan

O brasileiro e a brasileira que estão minimamente por dentro das eleições presidenciais já está habituado (a) com a palavra “polarização”. Desde o final do pleito de 2014, quando Dilma Rousseff venceu Aécio Neves por uma diferença de 3.459.963. Ou seja: minúscula!

Desde então aconteceram muitas coisas: a radicalização do discurso tucano, que questionou a segurança da urna eletrônica e pediu recontagem de votos. Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados liderando o que ficou conhecido como “centrão” e liderando o golpe contra Dilma Rousseff em 2016.

Dilma e sua direção catastrófica na economia, também é personagem central.

A polarização deu as caras e saiu de vez do buraco.

O historiador israelense Yuval Noah Harari apontou, em seu livro 21 lições para o século 21 (Cia das Letras) que “para o bem ou para o mal, eleições e referendos não tem a ver com o que pensamos. Têm a ver com o que sentimos”.

Pesquisa do Datafolha (aqui) diz que 68% das pessoas entrevistadas dizem que se sentem com raiva ao pensar no Brasil. 78% mais desanimado do que animado. 80% mais triste do que alegre. 88% mais inseguros do que seguros. Foi com esse sentimento que o Brasil foi às urnas no domingo dia 8.

Um eleitorado com raiva, triste, desanimado em inseguro é um eleitorado com medo. Um lado, apavorado há anos por programas de TV sensacionalistas e correntes do WhattsApp tem medo do Brasil virar uma nova Cuba, medo de ter sua famílias destruída por uma suposta cartilha que vai ensinar as crianças a serem gays, dos refugiados roubarem seus empregos, da cantora Pabllo Vitar e muitos outros.

O outro lado também vive com medo. Medo de sair com um boné do MST e ser espancado (aqui); medo de ser espancada em uma discussão de bar (aqui); medo de ser atacada com um estilete e ter uma suástica feita em suas costas (aqui); medo de morrer esfaqueado após uma discussão política em um bar (aqui), etc, etc, etc

O fato do PT ter ficado entre 2003 e 2016 no poder e o país não ter virado comunista, continuar sendo o que mais mata trans mostra que um medo é justificável. O outro, manipulável.

O exemplo que Hariri usa no livro é o do referendo do Brexit. A maioria das pessoas que votaram pela saída da Grã Bretanha da União Europeia tinha pouca ou nenhuma noção do que isso poderia acarretar para a ilha. Mas o sentimento era o de que algo precisava mudar. Não importava como.

Mais de 46 milhões de pessoas votaram em Jair Bolsonaro no último domingo (8). Um candidato abertamente homofóbico (aqui), racista (aqui) e autoritário (aqui ). Mas, como lembrou o filósofo Rafael Azzi, a sua tia, que faz os melhores bolos de fubá, que te dá presentes legais no fim do ano, não é fascista por votar em Bolsonaro.

Sentimentos, que resolvem eleições e plebiscitos, como nos lembra Hariri, são manipuláveis.

O Fora de Foco é parceiro da Cia das Letras em 2018

2013: igrejas podem ganhar poderes para questionar leis

 

2013? Vai indo que eu vou ficar…

Saiu no Estadão:

 Comissão aprova proposta que dá poder para igrejas questionarem leis no STF

 

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira, 27, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 99/11, do deputado João Campos (PSDB-GO), que inclui as entidades religiosas de âmbito nacional entre aquelas que podem propor ação direta de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade ao Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Entre estas entidades estão, por exemplo, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil e a Convenção Batista Nacional. A PEC será analisada por uma comissão especial e, em seguida, votada em dois turnos pelo plenário.

 

Atualmente, só podem propor esse tipo de ação o presidente da República, a mesa do Senado Federal, a mesa da Câmara dos Deputados, a mesa de Assembleia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal, governadores de Estado ou do Distrito Federal, o procurador-geral da República, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, partidos políticos com representação no Congresso Nacional e confederações sindicais ou entidades de classe de âmbito nacional.

 

Para João Campos, a PEC significa uma “ampliação da cidadania e do acesso à Justiça”. “Alguns temas dizem respeito diretamente às entidades religiosas. A questão da imunidade tributária, por exemplo, assim como a liberdade religiosa e o ensino religioso facultativo, entre outros. Se tivermos em algum momento alguma lei que fere um desses princípios não teríamos como questionar isso no Supremo. Com a proposta, estamos corrigindo uma grave omissão em que o constituinte incorreu ao deixar essa lacuna”, argumentou o autor da PEC 99/11.

 

Saindo do foco

 

Por Bruno Pavan

 

Além de povoar a Câmara dos Deputados, o Senado e até ministérios, as igrejas agora podem ter influência, também, na confecção das leis do Brasil.

 

É um passo para trás inimaginável em pleno século XXI. Ao invés de reforçarmos o Estado laico, vamos minando-o cada vez mais por dentro.

 

Se não temos um debate sério sobre aborto e casamento gay hoje, imaginem com Malafaias, Felicianos, Bispos de Guarulhos e assemelhados por aí questionando leis.

 

Seria o caso de questionar a participação dos movimentos sociais nesse processo.

 

E de olharmos para o calendário para tirar a dúvida se hoje é mesmo 2013.

O parto é da mulher

Por Bruno Pavan

Muitos de nós já ouvimos frases feitas sobre o feminismo: falta de louça na pia, falta de bolo pra bater e falta de outra coisa que não vou dizer por ser imprópria para o horário.

Tá, meu bom reaça, vamos supor, então, que todas as louças já foram lavadas pelas pias dos direitos humanos no mundo, ok?

Fora o fato de mulheres morrerem só pelo fato de serem mulheres, serem estupradas e culpadas por vestirem roupas consideradas curtas pelos animais que não conseguem se controlar por aí, elas também são desrespeitadas por profissionais de medicina no parto.

Por razões biológicas, eu jamais vou engravidar. Mas imagino que um dos momentos mais sensíveis para uma mulher é na hora do nascimento de seu filho ou filha.

Sensível mental, física e psicologicamente falando. Ter uma vida dentro da sua barriga não deve ser tarefa das mais tranquilas.

Como se não bastasse, por inúmeras vezes, serem mães solteiras abandonadas pelos maridos e não ter apoio da família, ver o profissional que você escolheu para tirar seu filho de dentro de você te violentar com palavras e procedimentos errados deve ser uma sensação indescritível.

A agência Pública fez uma matéria contando a experiência pessoal que uma mulher que sofreu desse tipo de violência e trouxe dados assustadores do quanto isso é comum no país.

O conceito de violência obstétrica é: “qualquer ato ou intervenção direcionado à mulher grávida parturiente ou puérpera (que deu à luz recentemente), ou ao seu bebê, praticado sem o consentimento explícito e informado da mulher e/ou em desrespeito à sua autonomia, integridade física e mental, aos seus sentimentos, opções e preferências.”

A matéria completa está aqui, nela também está contida informações da pesquisa “Mulheres brasileiras e Gênero nos espaços público e privado”. A mais alarmante é que 25% das mulheres disseram ter sofrido alguma violência durante o parto.

Fica aqui nosso apoio a todos os movimentos que pregam a humanização do parto. Acima de qualquer coisa, o parto é da mulher.

E, de saber que existe este tipo de violência, ver a hipocrisia de quem diminui o debate sobre o aborto me deixa com mais preguiça ainda

Veja o documentário sobra a violência obstétrica:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=eg0uvonF25M&w=480&h=360]

PEC das domésticas: a classe média e o afeto

Com açúcar com afeto, fiz seu doce predileto, pra você parar em casa...
Com açúcar com afeto, fiz seu doce predileto, pra você parar em casa…

Por Bruno Pavan

Nesta semana foi aprovada a PEC que dá direitos aos (às) empregados (as) domésticas. Agora eles terão direito a FGTS, hora extra, jornada de trabalho semanal, seguro-desemprego, licença maternidade e algumas coisas que Vargas já tinha garantido a outros profissionais mais de 60 anos atrás.

Mas a Casa Grande, com medo de perder seus privilégios na sociedade brasileira, esperneia.

O símbolo mor da aristocracia no principado de Higienópolis, o Entre Aspas da Globo News, reclama: “como a classe média bancará direitos como a creche para o filho pequeno da doméstica?”

O brasileiro, principalmente a classe média, se acostumou com coisas que, como diz o bordão antigo do Zorra Total: não lhe pertencem mais!!!

A especialista presente no programa diz que: “a relação entre empregada e patroa tem um afeto”.

Não questiono que exista mesmo essa relação. Empregadas que trabalham a mais de 20 anos em uma casa, que viram os filhos dos patrões crescerem e tudo mais. Acontece que isso não pode fazer com que a doméstica, o jardineiro, o motorista trabalhe 18 horas por dia, não tenha hora de sair do trabalho.

A grande página virada é que a classe média não vai mais ter empregada sete dias por semana em casa. E vai ter que se acostumar com isso. Não tem dinheiro para bancar creche para os filhos dos empregados? Não banque um empregado. Dirija seu próprio carro, limpe sua própria casa, corte sua própria grama!

Um grande debate está por vir, mas aconselho que se ligue o “hipocrômetro” em tempos de redes sociais e de rios de chorume pela rede. A pobre classe média, tão violentada em anos de “bolsa esmola” continuará reclamando importando revoltas que seriam da elite, e continuarão pautando sua relação com a empregada na base do afeto.

Clique aqui e veja o Entre Aspas