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A autocensura na imprensa: quem quer ser mais governo que o governo?

A censura tão “combatida”  nos anos petistas desfila incólume no governo Bolsonaro

Por Bruno Pavan

O PT foi por muitos anos chamado de “bolchevique” ou “bolivariano” por grande parte da imprensa brasileira. Projetos como o da democratização da mídia no Brasil não podia sair da boca do governo que a pecha de “censura” era colada na medida, ignorando que e países desenvolvidos como na Inglaterra, há a tal da lei regulamentando os meios de comunicação. 

Diversos jornalista fizeram a fama como críticos dos governos Lula e Dilma. Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes e, mais recentemente, Marco Antonio Villa. Do outro lado estavam os “sujos” como foram batizados pelo ex-governador e ex-candidato à Presidência da República José Serra. Paulo Henrique Amorim, Luiz Nassif e Renato Rovai eram a tropa de choque pra lá de mambembe (não pela capacidade como jornalistas, mas pela capacidade financeira mesmo) do governo. 

Franklin Martins deixou a secretaria de comunicação social do governo Lula, mas deixou um presente na gaveta: a tal da lei de democratização da mídia. Seu sucessor, Paulo Bernardo, o deixou por lá mesmo, descansando e a presidenta Dilma Rousseff sepultou o projeto dizendo que o controle da mídia era o remoto. 

Anos se passaram e a tal da censura nunca foi nada mais do que um monstro debaixo da cama. Até que veio a eleição de 2018. Jair Bolsonaro venceu, impondo a quinta derrota consecutiva do candidato natural da elite financeira do país. Em um segundo turno entre Bolsonaro e Fernando haddad, o Estado de S. Paulo, em editorial, apontou que o brasileiro estava diante de uma “difícil escolha”. 

 Bolsonaro tomou posse e travou guerra contra a Rede Globo e a Folha e S. Paulo. Em uma campanha baseada em mentiras circuladas pelo WhatsApp (alô, alô TSE), levou seus primeiros seis meses de governo apostando no acirramento da polarização do país. E os jornalistas foram os primeiros a estrarem na mira do capitão. 

Ontem (24) a Record TV anunciou o afastamento do jornalista Paulo Henrique Amorim da revista eletrônica “Domingo Espetacular”. Amorim mantém seu blog, Conversa Afiada, com o posicionamento claramente à esquerda. Na Record, porém, sempre se manteve neutro. O afastamento súbito levantou suspeitas de que a TV cedeu a pressão do governo Jair Bolsonaro pela sua cabeça. Não entregou a cabeça, mas o colocou na geladeira.  

Já do lado direito do ringue, o estrago foi ainda maior. Só na Rádio Jovem Pan, notória emissora conservadora de São Paulo, já aconteceram dois cortes repentinos. O primeiro foi o do humorista e jornalista Marcelo Madureira, ainda durante o segundo turno das eleições do ano passado. Madureira não cravou em nenhum momento que sua demissões tivesse sido política mas, na época, declarou que ficou com a “pulga atrás da orelha”. A Pan não parou por aí. O historiador e ruidoso Marco Antonio Villa também foi afastado no final do mês de maio sem nenhuma justificativa pela direção da emissora. também nesta segunda-feira (24) anunciou a sua saída definitiva da emissora.

O ponto em comum das duas demissões foram críticas feitas ao presidente Jair Bolsonaro. Madureira, ainda durante o segundo turno presidencial, assinou um manifesto chamado “Democracia, sim”, que se colocava contra a candidatura do então deputado. Já Villa criticava a postura de Bolsonaro seguidamente desde a posse. Chegou a chamá-lo de “embusteiro” e que incentivava “atos neonazistas”, como os protestos a favor do governo do último dia 26 de maio.

O jornalismo da Pan é comandado por Felipe Moura Brasil desde o início de 2019. Notório direitista, ajudou a organizar o livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, do guru do governo Olavo de Carvalho. A deputada Joice Hasselmann, umas da líderes do governo na Câmara dos Deputados, também brilhou por muito tempo na emissora antes de pular para o outro lado do balcão. É clara a estratégia da emissora de ser uma porta voz do atual governo. Tanto que uma de suas estrelas é o Youtuber Caio Copolla que convocou pessoalmente os protestos a favor do governo. 

A mais nova vilã do governo é Rachel Sheherazade. A Jornalista que já disse publicamente concordar com justiceiros que amarraram uma criança acusada de roubo no poste para ser agredida, também passou a ser crítica de Bolsonaro. Foi que o que bastou para Luciano Hang (A.K.A Véio da Havan) pedir a cabeça da jornalista. Ela já não é tão a direita assim. Sheherazade postou no Instagram “não vou me censurar para confortar a sua ignorância”. Hang respondeu citando Cuba (eles só pensam naquilo). Ela fica. Por enquanto. 

A estratégia de comunicação do governo também não passa nem perto do jornalismo sério. Basta analisar as “entrevistas” que Bolsonaro deu para Programa do Ratinho e para o Superpop defendendo a reforma da previdência. As aspas são porque de entrevista não tem nada. Ratinho e Luciana Gimenez foram contratados para defender a reforma, incluindo a conversa de comadres, com perguntas combinadas anteriormente. Ratinho, inclusive, acabou de comprar uma rádio em São Paulo. A Jovem Pan terá concorrência na bajulação.    

Por outro lado, parece que o desejo do Estadão em seu editorial de “pacificação” de país está tomando corpo. Mônica Bergamo (Folha de S. Paulo) e Fábio Pannunzio (Bandeirantes) se solidarizaram com Paulo Henrique Amorim, Sheherazade e Villa. Direita e esquerda unidas cantando “we are the world”. 

Nos seis meses de governo Bolsonaro ficou claro que ninguém melhor censura a imprensa brasileira do que a própria imprensa brasileira.   

O nazismo e a masculinidade

Por Bruno Pavan

Por mais que a gente veja mulheres ganhando cada vez mais espaço em governos, ganhando eleições, ocupando cargos em ministérios e no setor privado, óbvio que a sociedade ainda precisa melhorar, e muito, para uma equiparação de ato de gênero.

No Brasil as mulheres ganham 77,5% dos homens em média. R$ 2410 para eles contra R$ 1868 para elas, de acordo com o IBGE. Fora o fato de que mulheres morrem somente por serem mulheres.  

Apesar disso tudo, elas vem ganhando cada vez mais espaço. E isso nos deixa (homens brancos) raivosos. Eleições de Donald Trump e Jair Bolsonaro, notórios machistas e misóginos, são grandes exemplos disso.

Assista o vídeo dos Galãs Feios sobre a masculinidade tóxica

Essa saída autoritária não acontece só por isso claro. A piora nas condições econômicas e sociais tem muito peso. Mas o machismo e a misoginia e a vontade de retorno a uma sociedade em que homens eram os provedores de suas famílias  sempre aparece.

Na ascensão do pensamento conservador que levou ao nazismo isso estava presente. Sempre ligado ao discurso de degeneração dos valores do estado.

(Se quiser saber como os juízes também colaboraram com isso, clique aqui)

Em seu livro A chegada do Terceiro Reich (Ed. Crítica), Richard J Evans deixa claro como esse discurso estava presente no caldo social, surgido no pós primeira guerra, que levou ao nazismo alemão anos mais tarde.

Primeiro, a frustração da derrota da guerra deixou os alemães frustrados e humilhados. O discurso de que as tropas haviam levado uma “punhalada nas costas” foi muito bem difundido na época. O fracasso da República de Weimar (tratarei disso em outra oportunidade), que não conseguiu garantir estado de bem estar que prometeu, junto com as pioras econômicas, também foi um ingrediente.

Mas os homens que voltaram humilhados pela derrota na guerra e não tinham mais dinheiro nem condições de prover sua família foram os grandes incentivadores da guinada autoritária. E os discursos vocês devem conhecer muito bem!

Economicamente a Alemanha pós guerra era muito diferente e diversa. Em 1918, 36% da população ativa era formada por mulheres. Evans aponta que “havia uma crise de masculinidade discernível na Alemanha antes de guerra”.

“O aumento da competição feminina por empregos masculinos, e um medo mais geral entre nacionalistas de que o vigor na Alemanha estivesse se exaurindo pela queda no índice de natalidade que se havia estabelecido por volta da virada do século, fundiram-se com ansiedades culturais mais abrangentes para produzir um repuxo que já estava se tornando evidente antes de 1914. Havia uma crise de masculinidade discernível na Alemanha antes de guerra, quando nacionalistas e pan-germânicos começaram a clamar para que as mulheres voltassem para casa e para a família a fim de cumprir seu destino de produzir e educar mais crianças para a nação”, conta na página 177.

Com essa maior independência financeira, movimentos feministas nasceram questionando outros pontos como sufrágio, liberdade sexual e informação sobre prevenção de gravidez. “A liberdade sexual desfrutada de modo evidente pelos jovens nas grandes cidades era um alvo particular de desaprovação da geração mais velha (…) os críticos ligavam essas tendências com aquilo que viam como iminente declínio da família”. Se as mulheres não estavam em casa, a balbúrdia reinava!

No âmbito cultural, a chegada do jazz norte-americano ao país era uma ameaça aos conservadores. Nessa questão se juntava o racismo contra o negro e sua arte popular e “menor” com o ambiente que se formava em volta dele, de crítica a uma velha forma de se viver.

“As turnês de big bands e dançarinas, como as Tiller Girls, animavam a cena de Berlim, enquanto os mais audaciosos podiam passar a noite em um clube como o Eldorado, ‘um supermercado do erotismo’, conforme o chamou o compositor popular Friedrich Hollaender, e ver Anita Berber executar danças pornográficas com nomes como cocaína e morfina para uma audiência liberalmente salpicada de travestis e homossexuais, até sua morte prematura em 1928 por abuso de drogas. Os shows de cabaré acrescentavam a tudo isso um elemento de sátira política mordaz contra o autoritarismo, e enfureciam os pomposos conservadores com piadas sobre os ‘sentimentos nacionalistas e religiosos de cristãos e alemães’, conforme um deles reclamou encolerizado”.

Todo esse cenário de ódio, ressentimento e desesperança, muito estruturado em cima do machismo, da misoginia e da homofobia de grande parte da população enfraqueceu a democracia.

“Os alemães esqueceram como odiar. A queixa feminina tomou o lugar do ódio masculino”, apontou Ernst Röhm, um dos primeiros seguidores de Adolf Hitler.   

A rebeldia de olhar pra trás


Por Bruno Pavan

No próximo dia 20 de novembro é comemorado o dia da consciência negra. O dia da morte de Zumbis dos Palmares, em 1695, se tornou feriado em algumas cidades brasileiras. Quase sempre ele é ligado ao da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

O que essas duas datas históricas que, nos dias de hoje, apesar de terem sido separadas por mais de 200 anos, tem a ver?

A Cia das Letras lançou, em maio de 2018, o Dicionário da Escravidão e Liberdade. Organizado por Lilia M. Schwarcz e Flávio Gomes, a publicação conta com 50 artigos críticos que, por ordem alfabética, explicam, discutem o período da escravidão no país.

A consciência (ou a falta de)

O significado da palavra consciência é “sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior”.

Notem que o 20 de novembro nada tem de “coitadismo”. Eu já ouvi frases como: “se existe feriado consciência negra, porque não existe consciência branca?” Olha, até digo que a ideia não é ruim, mas ao invés de comemorações, deveria ser uma data de luto. Se você tiver a consciência do que o branco fez com os índios desse país e com os negros africanos, não vai sentir vergonha?

No texto da apresentação do dicionário, Schwarcz e Gomes lembram que “lembrar é, por isso mesmo, exercício de rebeldia; de não deixar passar e de ficar pra contar”. Em uma época em que ouvimos o tempo todo que devemos “parar de olhar pra trás”, lembrar de Zumbi, da ditadura militar, dos navios negreiros, é um ato de rebeldia enorme.

Os movimentos abolicionistas

A caneta da princesa Isabel não se mexeu por conta dela ter acordado de bom humor naquele 13 de Maio de 1888. Movimentos abolicionistas, quilombos e outras formas de resistência sempre existiram. Nunca houve corpos dóceis e domáveis pela escravidão!

Gomes nos conta, no artigo “Quilombos/ Remanescentes de Quilombos” que o primeiro “mocambo” foi formado em 1575 na Bahia. Mais de 300 anos antes da abolição e 75 anos depois da chegada dos portugueses.

Movimentos sociais abolicionistas ganhavam bastante importância no século XIX, anos antes da lei áurea ser aprovada. Wamyra Albuquerque conta muito bem essa história no artigo “Movimentos sociais  abolicionistas”. Ela conta como episódios como a Revolta dos Malês, em 1835 e da Revolta de Manuel Congo em 1838 foi produto de uma grande intensificação da rebeldia escrava.

Luiz Gama foi outro personagem essencial para que o debate sobre o abolicionismo ganhasse importância. Contrariando as estatísticas, Gama conseguiu se alfabetizar, se tornar um grande jornalista e atuar como um defensor de escravizados na justiça. Ficou conhecido como o advogado da liberdade.      

Categorias de trabalhadores como padeiros e tipógrafos também colaboraram na resistência a para dar o caldo necessário para que crescessem as vozes pelo fim do trabalho escravo.

O dia 15 e o dia 20

No artigo “Pós abolição; o dia seguinte” Walter Fraga nos aponta como abolição e proclamação da república, separadas por 1 ano e meio, se relacionaram.

“Ao longos dos anos de 1888 e 1889, representantes dos fazendeiros defenderam no Parlamento indenização pelas perdas financeiras decorrentes do fim do cativeiro. O fato de não verem atendida sua reivindicação explica porque muitos desistiram da monarquia e embarcaram no projeto de República pouco mais de um ano depois do Treze de Maio (…) Nos anos iniciais do Brasil republicano, recrudesceu o controle sobre os candomblés, batuques, sambas, capoeiras e qualquer outra forma de manifestação identificada genericamente como `africanismo`”

Ou seja, a “República”, coisa do povo, em latim, já nasceu de costas para a maioria de seu povo.

Ainda no texto de Fraga, ele narra como o país foi tomado por uma grande festa no episódio da assinatura da lei áurea. Machado de Assis, embranquecido pela História com agá maiúsculo que se repete como farsa, cinco anos depois, escreveu que o 13 de maio foi “o único dia de delírio público que me lembro ter visto”.

Cabe voltar a Machado no seu romance Esáu e Jacó quando, pra mostrar que grande parte da população estava totalmente a parte do processo da proclamação (note para a expressão proclamação e não Guerra de República), conta o episódio de Custódio, dono da “Quitanda do Império”, que, precisando de uma nova placa para o estabelecimento, pede ao pintor que pare depois da letra d por não saber se completaria com “Império” ou “República”.

As festas e o ódio

A elite nacional, já em 1888, apelava para a grande teoria que a classe média abraça hoje no país de que carnaval e qualquer tipo de festa é coisa de vagabundo que não quer trabalhar.

Fraga conta sobre a carta de um senhor de engenho para um senador dizendo como foram as festanças em Salvador. Ele a encerra dizendo: “ainda ontem conversando com o presidente e Chefe de Polícia pedi-lhes que assim que passassem as festas, providenciasse no sentido desses trabalhadores voltarem às fazendas, se não em breve os roubos e mortes se dariam a cada momento”. As festas e os batuques do povo negro sempre foram vistos pelos senhores como prenúncios de revolta.

O povo feliz (e com consciência) ainda hoje incomoda!  

*O Fora de Foco é parceiro da Cia das Letras em 2018  

As eleições e o que sentimos

Por Bruno Pavan

O brasileiro e a brasileira que estão minimamente por dentro das eleições presidenciais já está habituado (a) com a palavra “polarização”. Desde o final do pleito de 2014, quando Dilma Rousseff venceu Aécio Neves por uma diferença de 3.459.963. Ou seja: minúscula!

Desde então aconteceram muitas coisas: a radicalização do discurso tucano, que questionou a segurança da urna eletrônica e pediu recontagem de votos. Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados liderando o que ficou conhecido como “centrão” e liderando o golpe contra Dilma Rousseff em 2016.

Dilma e sua direção catastrófica na economia, também é personagem central.

A polarização deu as caras e saiu de vez do buraco.

O historiador israelense Yuval Noah Harari apontou, em seu livro 21 lições para o século 21 (Cia das Letras) que “para o bem ou para o mal, eleições e referendos não tem a ver com o que pensamos. Têm a ver com o que sentimos”.

Pesquisa do Datafolha (aqui) diz que 68% das pessoas entrevistadas dizem que se sentem com raiva ao pensar no Brasil. 78% mais desanimado do que animado. 80% mais triste do que alegre. 88% mais inseguros do que seguros. Foi com esse sentimento que o Brasil foi às urnas no domingo dia 8.

Um eleitorado com raiva, triste, desanimado em inseguro é um eleitorado com medo. Um lado, apavorado há anos por programas de TV sensacionalistas e correntes do WhattsApp tem medo do Brasil virar uma nova Cuba, medo de ter sua famílias destruída por uma suposta cartilha que vai ensinar as crianças a serem gays, dos refugiados roubarem seus empregos, da cantora Pabllo Vitar e muitos outros.

O outro lado também vive com medo. Medo de sair com um boné do MST e ser espancado (aqui); medo de ser espancada em uma discussão de bar (aqui); medo de ser atacada com um estilete e ter uma suástica feita em suas costas (aqui); medo de morrer esfaqueado após uma discussão política em um bar (aqui), etc, etc, etc

O fato do PT ter ficado entre 2003 e 2016 no poder e o país não ter virado comunista, continuar sendo o que mais mata trans mostra que um medo é justificável. O outro, manipulável.

O exemplo que Hariri usa no livro é o do referendo do Brexit. A maioria das pessoas que votaram pela saída da Grã Bretanha da União Europeia tinha pouca ou nenhuma noção do que isso poderia acarretar para a ilha. Mas o sentimento era o de que algo precisava mudar. Não importava como.

Mais de 46 milhões de pessoas votaram em Jair Bolsonaro no último domingo (8). Um candidato abertamente homofóbico (aqui), racista (aqui) e autoritário (aqui ). Mas, como lembrou o filósofo Rafael Azzi, a sua tia, que faz os melhores bolos de fubá, que te dá presentes legais no fim do ano, não é fascista por votar em Bolsonaro.

Sentimentos, que resolvem eleições e plebiscitos, como nos lembra Hariri, são manipuláveis.

O Fora de Foco é parceiro da Cia das Letras em 2018

2013: igrejas podem ganhar poderes para questionar leis

 

2013? Vai indo que eu vou ficar…

Saiu no Estadão:

 Comissão aprova proposta que dá poder para igrejas questionarem leis no STF

 

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira, 27, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 99/11, do deputado João Campos (PSDB-GO), que inclui as entidades religiosas de âmbito nacional entre aquelas que podem propor ação direta de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade ao Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Entre estas entidades estão, por exemplo, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil e a Convenção Batista Nacional. A PEC será analisada por uma comissão especial e, em seguida, votada em dois turnos pelo plenário.

 

Atualmente, só podem propor esse tipo de ação o presidente da República, a mesa do Senado Federal, a mesa da Câmara dos Deputados, a mesa de Assembleia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal, governadores de Estado ou do Distrito Federal, o procurador-geral da República, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, partidos políticos com representação no Congresso Nacional e confederações sindicais ou entidades de classe de âmbito nacional.

 

Para João Campos, a PEC significa uma “ampliação da cidadania e do acesso à Justiça”. “Alguns temas dizem respeito diretamente às entidades religiosas. A questão da imunidade tributária, por exemplo, assim como a liberdade religiosa e o ensino religioso facultativo, entre outros. Se tivermos em algum momento alguma lei que fere um desses princípios não teríamos como questionar isso no Supremo. Com a proposta, estamos corrigindo uma grave omissão em que o constituinte incorreu ao deixar essa lacuna”, argumentou o autor da PEC 99/11.

 

Saindo do foco

 

Por Bruno Pavan

 

Além de povoar a Câmara dos Deputados, o Senado e até ministérios, as igrejas agora podem ter influência, também, na confecção das leis do Brasil.

 

É um passo para trás inimaginável em pleno século XXI. Ao invés de reforçarmos o Estado laico, vamos minando-o cada vez mais por dentro.

 

Se não temos um debate sério sobre aborto e casamento gay hoje, imaginem com Malafaias, Felicianos, Bispos de Guarulhos e assemelhados por aí questionando leis.

 

Seria o caso de questionar a participação dos movimentos sociais nesse processo.

 

E de olharmos para o calendário para tirar a dúvida se hoje é mesmo 2013.

O parto é da mulher

Por Bruno Pavan

Muitos de nós já ouvimos frases feitas sobre o feminismo: falta de louça na pia, falta de bolo pra bater e falta de outra coisa que não vou dizer por ser imprópria para o horário.

Tá, meu bom reaça, vamos supor, então, que todas as louças já foram lavadas pelas pias dos direitos humanos no mundo, ok?

Fora o fato de mulheres morrerem só pelo fato de serem mulheres, serem estupradas e culpadas por vestirem roupas consideradas curtas pelos animais que não conseguem se controlar por aí, elas também são desrespeitadas por profissionais de medicina no parto.

Por razões biológicas, eu jamais vou engravidar. Mas imagino que um dos momentos mais sensíveis para uma mulher é na hora do nascimento de seu filho ou filha.

Sensível mental, física e psicologicamente falando. Ter uma vida dentro da sua barriga não deve ser tarefa das mais tranquilas.

Como se não bastasse, por inúmeras vezes, serem mães solteiras abandonadas pelos maridos e não ter apoio da família, ver o profissional que você escolheu para tirar seu filho de dentro de você te violentar com palavras e procedimentos errados deve ser uma sensação indescritível.

A agência Pública fez uma matéria contando a experiência pessoal que uma mulher que sofreu desse tipo de violência e trouxe dados assustadores do quanto isso é comum no país.

O conceito de violência obstétrica é: “qualquer ato ou intervenção direcionado à mulher grávida parturiente ou puérpera (que deu à luz recentemente), ou ao seu bebê, praticado sem o consentimento explícito e informado da mulher e/ou em desrespeito à sua autonomia, integridade física e mental, aos seus sentimentos, opções e preferências.”

A matéria completa está aqui, nela também está contida informações da pesquisa “Mulheres brasileiras e Gênero nos espaços público e privado”. A mais alarmante é que 25% das mulheres disseram ter sofrido alguma violência durante o parto.

Fica aqui nosso apoio a todos os movimentos que pregam a humanização do parto. Acima de qualquer coisa, o parto é da mulher.

E, de saber que existe este tipo de violência, ver a hipocrisia de quem diminui o debate sobre o aborto me deixa com mais preguiça ainda

Veja o documentário sobra a violência obstétrica:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=eg0uvonF25M&w=480&h=360]

PEC das domésticas: a classe média e o afeto

Com açúcar com afeto, fiz seu doce predileto, pra você parar em casa...
Com açúcar com afeto, fiz seu doce predileto, pra você parar em casa…

Por Bruno Pavan

Nesta semana foi aprovada a PEC que dá direitos aos (às) empregados (as) domésticas. Agora eles terão direito a FGTS, hora extra, jornada de trabalho semanal, seguro-desemprego, licença maternidade e algumas coisas que Vargas já tinha garantido a outros profissionais mais de 60 anos atrás.

Mas a Casa Grande, com medo de perder seus privilégios na sociedade brasileira, esperneia.

O símbolo mor da aristocracia no principado de Higienópolis, o Entre Aspas da Globo News, reclama: “como a classe média bancará direitos como a creche para o filho pequeno da doméstica?”

O brasileiro, principalmente a classe média, se acostumou com coisas que, como diz o bordão antigo do Zorra Total: não lhe pertencem mais!!!

A especialista presente no programa diz que: “a relação entre empregada e patroa tem um afeto”.

Não questiono que exista mesmo essa relação. Empregadas que trabalham a mais de 20 anos em uma casa, que viram os filhos dos patrões crescerem e tudo mais. Acontece que isso não pode fazer com que a doméstica, o jardineiro, o motorista trabalhe 18 horas por dia, não tenha hora de sair do trabalho.

A grande página virada é que a classe média não vai mais ter empregada sete dias por semana em casa. E vai ter que se acostumar com isso. Não tem dinheiro para bancar creche para os filhos dos empregados? Não banque um empregado. Dirija seu próprio carro, limpe sua própria casa, corte sua própria grama!

Um grande debate está por vir, mas aconselho que se ligue o “hipocrômetro” em tempos de redes sociais e de rios de chorume pela rede. A pobre classe média, tão violentada em anos de “bolsa esmola” continuará reclamando importando revoltas que seriam da elite, e continuarão pautando sua relação com a empregada na base do afeto.

Clique aqui e veja o Entre Aspas