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As ruas que falam

Por Bruno Pavan

A cidade sempre foi uma grande fonte de inspiração para cantores, escritores, compositores… É na cidade e seus lugares onde tudo acontece.

A casa no campo, por exemplo, fez Elis sonhar em plantar amigos, discos e livros. Sampa, com sua deselegância discreta, fez Caetano entender que Narciso acha feio o que não é espelho.

Elis queria a tranquilidade e um controle sobre tudo ao seu redor. “Plantar amigos”. Caetano caiu na realidade da cidade sem rosto e coração.

“Se a rua beale falasse” (Cia das Letras), de James Baldwin não é só uma história de amor. Nem só um cenário do Harlem dos anos 1970.

O livro conta a história de amor de Clementine (Tish) com Alonzo (Fonny). E a luta dela para libertar o namorado após ser preso por um crime que não cometeu.

Tish, a narradora e protagonista, conta a história com vigor, foco e uma espécie de eletricidades nos detalhes certos. A passagem que mais me chamou a atenção foi quando ela, que trabalha no setor de cosméticos de uma grande loja de departamentos, conta um pouco da sua rotina:

“Não eram só as velhas brancas que vinham cheirar as costas da minha mão. Muito raramente um negro chegava perto daquele balcão, e, quando o fazia, suas intenções eram com frequência mais generosas e sempre mais precisas. Talvez, pra um homem negro, eu realmente lembrasse muito de perto uma irmã mais nova indefesa. Ele não gostaria que eu me tornasse uma puta. E talvez alguns deles se aproximassem simplesmente para olhar nos meus olhos, ouvir minha voz ou apenas verificar o que estava acontecendo. E nunca cheiravam as costas da minha mão: um homem negro estende as costas da mão dele para que você a borrife, e então ele próprio leva até o nariz. E não se dá ao trabalho de fingir que veio comprar algum perfume. Às vezes compra algum; na maioria das vezes, não. Às vezes a mão que desceu do nariz forma secretamente um punho cerrado, e, com uma prece, com tal saudação, ele se afasta. Mas um homem branco leva a mão da gente até o nariz dele e a mantém lá” (pp 117 e 118)

Tão singelo e tão forte quanto os punhos cerrados dos Panteras Negras é a mão negra que, após cheirar um perfume, se transforma em resistência.

A cidade também pode ser representada pela falta de palavras. Que muitas vezes grita mais do que o mais descritivo dos parágrafos. No trecho do livro onde a mão de Tish vai a Porto Rico, o advogado da Família, Hayward (não) tenta descrever uma favela. E por isso a descreve melhor do que ninguém.

“Estive só uma vez em Porto Rico, por isso não vou tentar descrever uma favela. E tenho certeza que, quando voltar, você também não vai tentar descrever o que é”.

Apesar do sofrimento gerado nas famílias, a vilã da história não é Victoria Rogers, a jovem porto riquenha que acusa Fonny de tê-la estuprado. O vilão se chama Estados Unidos da América.

Ernestine, irmã de Tish, em um momento de sororidade feminina, explica para a irmã o quão sofrido será para a Rogers revisitar uma história tão dura pra ela e mudar seu depoimento, inocentando Fonny. “Claro que ela está mentindo. Nós sabemos que ela está mentindo. Mas ela não está mentindo. Pra ela, foi o Fonny, e estamos conversados, ela não precisa mais lidar com isso. Está terminado. Pra ela. Se mudar o depoimento, vai ficar louca. Ou se transformar em outra mulher. E você sabe com que frequência as pessoas enlouquecem e como é raro que se transformem”.

Em outra parte, Sharon, mãe da narradora, bate na porta da Sr. Rogers. Em um momento da conversa, para convencê-la a mudar o seu depoimento, Sharon diz: “ele é negro. Como nós”.

A cidade que te mostra o que você é. Quem você encontra no trabalho, o ônibus que te leva, o quanto tempo você leva pra chegar em casa, onde você encontra seus amigos. E, muitas vezes, é mais do que ser herói ou vilão.

*O Fora de Foco é blog parceiro da Cia das Letras