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A depressão, a zoeira e o “futebol raiz”

Por Bruno Pavan

No último dia 12 de maio o Santos venceu o Vasco pelo campeonato brasileiro de 2019 por 3 a 0. Um dos grandes personagens daquela partida foi o goleiro Sidão. Conhecido das torcidas de São Paulo e Botafogo, ele falhou no gol que abriu a contagem para o time santista.

Seria apenas uma falha de um goleiro se não fosse um agravante. A Rede Globo estabelece uma votação, em todos os jogos que ela transmite, em que o internauta escolhe o melhor jogador da partida. Uma das iniciativas da transmissão de interagir com o (a) espectador (a). A votação foi “invadida” por internautas dispostos a alterar a enquete. O que era pra ser a escolha do melhor do jogo acabou sendo uma ironia com Sidão, que foi mal, e mesmo assim venceu a votação com 90% dos votos. A repórter Júlia Guimarães entregou o irônico troféu ao goleiro.

Um dos principais canais que mobilizaram essa votação foi o “Desimpedidos”. “Zoeira sem limites”, diz seu slogan. Isso obviamente uma bobagem enorme. Claro que a zoeira tem que ter limites e nós já deveríamos saber disso. E quem mais deveria saber disso é a Rede Globo.  

Deixo aqui o texto do jornalista Maurício Stycer sobre o ocorrido.

“A emissora está corretíssima em buscar formas de interação com o público cada vez mais engajado nas redes sociais, mas não pode esquecer que tem uma responsabilidade social expressa, inclusive, na legislação. Além disso, é preciso usar o bom senso. Nem toda “zoeira da internet” é sem consequências. Ao obrigar a repórter Julia Guimarães a entregar o troféu de “craque do jogo” para Sidão, a Globo o humilhou em público. Pareceu um quadro do finado “Pânico”, um programa de humor desabusado (…)

A reflexão vale para toda a mídia tradicional, mas é especialmente dirigida à televisão. Se abraçar esta “zoeira” sem filtrá-la, a TV vai perder a sua identidade”

No segundo episódio do Podcast “Muito mais que futebol”, o jornalista Lúcio de Castro também abordou o tema de uma maneira bastante bacana e original. Para ele, a falta de diversidade nas redações colabora pra que isso aconteça. Ouça o podcast aqui.

Depressão no futebol

Um outro tema que pode ser levantado a partir disso é como jogadores de futebol e esportistas de alto nível não estão livres de problemas psicológicos.

O próprio Sidão, humilhado em rede nacional em pleno dia das mães, já havia confessado problemas que passou por uma depressão por conta de seu relacionamento com sua mãe, que estava sendo homenageada em sua camisa no fatídico jogo. 

“Sentia vontade de morrer mesmo, mas eu não tinha coragem de cometer suicídio. Então o que eu fazia era ir pra rua caçar confusão pra ver se alguém entrava na minha e me matasse”

Outro que passou pelo mesmo problema recentemente foi o atacante Nilmar. O ótimo jogador com passagens por Internacional, Corinthians, Oriente Médio e seleção brasileira rescindiu seu contrato com o Santos por não conseguir atuar por enfrentar uma forte depressão.

Em entrevista ao ex-jogador e hoje comentarista Roger Flores, Nilmar apontou que teve que se medicar para superar o problema. “Eu lembro dos meus filhos chegando do colégio e eu sem forças para brincar com eles. Um dos principais motivos pra querer voltar era para os meus filhos, que já estavam maiores, verem o pai jogar”, desabafou.

 

Mas talvez o caso mais famoso e marcante é o de Adriano Imperador. Quando estava no auge de forma física e técnica na Inter de Milão, o atacante perdeu o pai e nunca mais conseguiu repetir o bom futebol que o levou para a seleção brasileira.  

Em entrevista à Pedro Bial, ele confessa que sua carreira não foi tudo que poderia ter sido.  “Você se sente orgulhoso?, pergunta Bial. “Por inteiro não, porque eu não consegui completar a minha carreira por inteiro. Aconteceram algumas coisas que me fizeram meio que afastar do futebol. Então, posso dizer que ficou na metade”, disse Adriano emocionado.

Na minha opinião o discurso do futebol é jogo para homens atrapalha muito um debate sério sobre diversas questões. A depressão é uma delas. O discurso do “futebol raiz” que exalta figuras folclóricas do futebol que bebem, fogem da concentração, não treinam e pegam todas as mulheres atrapalha pensarmos que o futebol mudou, a sociedade mudou e hoje temos outros pontos a abordar.

Não basta comparar um jogador dessa geração com o de outras para dizer “mas naquela época não tinha isso“, ou “esses caras ganham demais, não podem ficar com frescura”. O caso de Sidão é emblemático. Ele não é um grande goleiro. Joga num time gigante e deve, sim, ser cobrado. Mas acho que o problema pode não ser só técnico, pode ser psicológico também.  

A favor do futebol moderno

Eu frequento estádios de futebol desde o longínquo Corinthians 3 x 2 União de Araras, no campeonato Paulista de 2001. Fiquei no famoso “chiqueirinho”, a última parte do U do Pacaembu, de frente para a torcida visitante.

De lá pra cá aprendi a ver o futebol como algo muito grande e importante. Um lugar de alegre e nervoso ao mesmo tempo, onde passei por grandes conquistas e derrotas humilhantes.

Desde sempre eu via a importância de quem estava ali, fazendo parte daquelas festa junto comigo. Pessoas diferentes, brancas, pretas, pobres, não tão pobres. Os ricos estavam em outro setor do estádio porque, no Pacaembu, eu quase sempre estava de arquibancada verde ou tobogã.

A Copa do Mundo de 2014 e as novas arenas acenderam um debate bastante importante, e que já vinha acontecendo mesmo antes do evento: os pobres não estavam mais nos estádios. Não como antes.

O Bussiness dos clubes, a necessidade de ganhar mais com o futebol foi ganhando espaço e os mais pobres, perdendo. Isso era visível nos estádios e, com a construção do Itaquerão, isso foi ficando mais visível.

Isso abriu espaço pra uma galera se dizer “contra o futebol moderno”, como uma espécie de resistência popular contra o que estava acontecendo nas arenas. Se protestava, principalmente, contra o preço dos ingressos. Esse movimento era (e é) bastante justo e necessário.

Acontece que a coisa contra o futebol moderno se esvaziou. Virou um slogan, como quase tudo na sociedade capitalista e de consumo. Os publicitários viram que, sexo e poder vendem, mas militância também vende. Ou melhor, como disse Frank Underwood, personagem do Kevin Spacey no House Of Cards, “tudo tem a ver com sexo, menos sexo. Sexo tem a ver com poder”.

Hoje me deparei com uma campanha da Kaiser (quem toma Kaiser, pelo amor de Deus?) em que eles chamaram os ex-jogadores Vampeta, Túlio e Dadá Maravilha pedindo a volta do “futebol raiz”. Quando marca de cerveja começa a abraçar uma causa, parceiro, tem caroço nesse angu. O nome do programa é “Pela volta do futebol com bolas” se o machismo não está gritando na sua frente agora, repense seus posicionamentos.


Apesar de ser justo, eu sempre achei esse discurso de “ódio ao futebol moderno” um pouco enfadonho: na maioria das vezes eu via ele partindo de neo-torcedores que nunca pegaram chuva no Pacaembu em um jogo de Paulista e precisou almoçar espetinho na porta do estádio e que agora veem com um discurso paternalista de “proteção” aos mais pobres. De minha parte, eu vi dois jogos do Corinthians no Pacaembu esse ano e minha saudade já foi muito bem matada, obrigado. (Além de dezenas de jogos por lá, tenho a fachada do Paulo Machado de Carvalho tatuada no braço)

Esse discurso de “futebol raiz” esconde uma outra coisa: um desejo conservador de que a arquibancada do estádio vire, novamente, terra de ninguém onde machismo e homofobia estão liberados. Nunca achei que futebol fosse programa pra família feliz de margarina. Futebol é paixão e um pouquinho de entretenimento. Passeio com a família é em parque, shopping, museu, restaurante etc etc etc. Mas esse debate pra tornar o estádio um lugar sem racismo, machismo, homofobia e xenofobia é muito válido.

O futebol anda cheio de “viadagem” reclamam muitos que recém abraçaram o slogan contra o “futebol moderno”.

De minha parte, escrevi recentemente a conversa que eu tive com um mendigo na estação Sé do Metrô, que prometeu que se o Corinthians fizesse 5 a 0 no SPFC ele iria tomar duas garrafas de Corote. Menos de um mês depois, fui convidado pra assistir, de camarote, o segundo jogo da final do campeonato paulista contra o Palmeiras.

Quero sim os mais pobres de volta aos estádios, quero bandeiras, sinalizadores, instrumentos, cerveja etc etc etc. Mas é uma bobagem tamanha abraçar esse slogan que estão querendo fazer a gente repetir.

O péssimo contrato da Caixa com o Corinthians

Sugestão do colaborador Lucas Michelan:

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Foi na bola seu juiz

Deu na Folha:

Se um jogador do Corinthians fizer um gol e resolver cobrir o rosto com a camisa durante a comemoração, o cartão amarelo será a menor das preocupações do clube.

O clube poderá ser alvo de uma multa de R$ 3,1 milhões, caso a Caixa Econômica, principal patrocinadora do time, entenda que o ato impediu a exposição de sua marca. E mais: é uma obrigação do Corinthians “garantir” que isso não aconteça.

Esta é uma das regras previstas no contrato de R$ 31 milhões que o banco público firmou com o Corinthians em novembro de 2012 e ao qual a Folha teve acesso após a Caixa tentar por duas vezes manter o documento em segredo.

Veja o contrato aqui.