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Atrás/ além é manifesto sobre a geração que poderia ser tudo. E daí?

O quarto álbum de estúdio da banda O Terno fala sobre as frustrações dos “Jovens anos 10”

Por Bruno Pavan

Outro dia vi um tuíte de Juliana Cunha que me fez pensar bastante. Ele dizia que o Los Hermanos era uma banda que adiantou o entendimento de uma melancolia geracional que só foi colhida anos depois.

Se isso começou com as barbudos do Rio de Janeiro, ela tem agora sua mais acabada definição nos paulistanos da banda O Terno. Tim Bernardes, Guilherme D’Almeida e Biel Basile lançaram em 2019 o álbum Atrás/além. Esse perfil melancólico já estava presente nos trabalhos anteriores da banda, como o “Melhor do que parece”.

“Eu tenho achado tudo chato
Tudo ruim
Será que o chato aqui sou eu?
Será que eu fiquei viciado em novidade
Agora o tédio me enlouqueceu?”

Em atrás/além isso fica mais claro. Talvez por ter sido lançado em 2019 e o tal anos 10, cantados na ótima “Pegando Leve”, esteja chegando ao fim.

“Quero descansar mas também quero sair
Quero trabalhar mas quero me divertir
Quero me cobrar mas saber não me ouvir
Quero começar mas quero chegar no fim”

O jovem anos 10 ouviu muita promessa. De que o Brasil seria melhor, de que ele não precisaria mais trabalhar de segunda á sexta das 8 às 18, de que ele não quer mais carro, não quer mais casa, não quer mais uma carreira. Acontece que ele foi enganado.

Ele foi dormir na faculdade e acordou dirigindo um Uber sem nenhum direito. Hoje ele sabe que quer direitos. Mas é tarde!

A emergência de ser tudo o que a sociedade espera que ele seja descamba pra milhares de jovens de menos de 30 anos frustrados, ansiosos ou em depressão. Descobrindo que legal mesmo era a vida que seus pais tiveram, onde estava tudo meio que planejado e você não tinha como escapar da vida casa própria/ carro/ filhos/ emprego. Agora, quando tem sorte de ter um dinheiro e morar na casa dos pais, atiram suas fichas em start-ups.

Não à toa é a geração dos coachs. Na explicação de não ter chegado onde sempre se acreditou chegar, vem as respostas. “Não se deixe limitar”, “só vence quem quer vencer” que mostra também o grande responsável pelo fracasso de sua própria geração: sua!

Voltando ao disco, o nome das faixas também diz muito sobre essa geração. A maioria delas são duas palavras antônimas. Além da que dá título ao trabalho, tem “Nada/ Tudo”, “Profundo/ Superficial” e “Passado/ Futuro”, está última há uma provocação aos governantes que querem construir muros e dividir países. “O que que tem do outro lado do Muro/ Está cortando essa cidade no meio”. Mas no final, a música que é melancólica, passa a ser mais agitada e dá uma lufada de otimismo:

“Derrubar o muro, bagunçar com tudo
Nostalgia da novidade, saudades do futuro”