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Dia sem imposto MESMO

Por Bruno Pavan

Não é de hoje que existe a moda do “Dia sem imposto”.

Começou com os postos de gasolina, que há anos marcam uma data para vender combustível com o preço como se não houvessem tributos a se pagar para andar com o seu carrinho. Filas quilométricas se formam na frente dos que aderem ao “protesto” by classe média.

Esse ano, durante meu entretenimento no youtube, fui “impactado” por mais um desses dias. Dessa vez foi um site de venda de vinhos que prometia te deixar embriagado sem pagar imposto.  

Quem passa pelo centro de São Paulo, em frente à Associação Comercial, já deve conhecer o “impostômetro” que indica o quanto o brasileiro já pagou de imposto no ano.

Uma das pautas certas dos sites de notícias no país é mostrar quando o índice bate algum número redondo (1 bilhão, 1 trilhão), todos sugados pelo estado malvadão…

Aproveitando toda essa movimentação e indignação aos tributos, sugiro um outro tipo de protesto para esse dia.

Que os hospitais públicos e postos de saúde fiquem fechados durante todo o dia. Que as escolas públicas não abram. Que a Polícia Militar deixe de rodar pela rua. Que a Polícia Civil pare as investigações. Que tratores destruam os asfaltos das ruas. Que ônibus e metrôs deixem de circular.

É um só por um diazinho!!!!  

Celso Rocha de Barros: Doria implode o PSDB raiz

João Doria emplacou seu candidato, o ex-ministro de Michel Temer Bruno Araújo como presidente do PSDB neste final de semana.

Isso significa que nada mais separa, dentro do partido, Doria do sonho presidencial.

E com isso ele acaba com o pouco de Social Democrata que ainda havia no partido.

Leia a coluna de Celso Rocha de Barros na Folha de S.Paulo nesta segunda (3)

 

O Pós-PSDB

O divórcio entre o PSDB e suas origens na esquerda foi assinado

A esquerda não tem um nome pra 2022. E nem deveria ter

Por Bruno Pavan

O governo Jair Bolsonaro conseguiu atingir números de reprovação acima de qualquer outro nos primeiros 6 meses de governo.

36,2% considera a sua (indi) gestão ruim ou péssima de acordo com pesquisa do Atlas Político. As ruas já mandaram o recado de que estão a todo vapor , e em maior número, para atacar o seu governo. A economia não dá sinais de melhora. Os projetos do governo não andam no Congresso Nacional.

O candidato que conseguiu chegar ao segundo turno contra Bolsonaro foi o petista Fernando Haddad. Mesmo partido que elegeu a maior bancada da Câmara dos deputados, empatada com a do PSL do presidente. Vendo as coisas por esse lado, a notícia seria a melhor possível para o PT e a oposição a esquerda, não?

NÃO.

Tanto o PT quanto o PDT de Ciro Gomes estão em pé de guerra. Ciro não perde uma oportunidade de se colocar, não como pós PT, mas como anti-PT em entrevistas que dá. O importante encontros dos policiais anti-fascistas terminou em um lamentável bate boca entre Gomes e a deputada petista Maria do Rosário.  

Claro que ainda é muito cedo para 2022. Mas não é cedo para as eleições municipais de 2020, que podem ditar a temperatura e o humor do eleitorado. Mas não há um projeto para as eleições.

Por quê?

A esquerda, sejamos francos, saiu esfacelada dessa eleição. Fora do nordeste, não ganhou um estado brasileiro sequer. Ainda perdeu grandes nomes no Senado. A mágoa de Ciro e Marina Silva com o PT acaba com qualquer possibilidade de uma união “republicana”  para 2022.

O problema não é nem a agenda eleitoral, a esquerda precisa recuperar uma agenda positiva de propostas antes de pensar em subir a rampa novamente.

Os protestos pela educação podem até ter dado um bom pontapé e indicar um caminho para furar a bolha. Mas é só um começo.

Eu entendo a dificuldade de tentar dar o passo à frente quando o centrão e Rodrigo Maia são os principais aliados do “republicanismo tupiniquim”. Fora que se colocar como oposição combativa tão pouco tempo depois de sair do poder e com o principal líder preso também não ajuda.

Ter um nome forte na urna tem que andar junto com uma agenda de mobilizações orgânicas, alinhadas com uma visão de país clara, progressista e igualitária.

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

Bolsonaro se isola no radicalismo

Por Bruno Pavan

Não é fácil analisar o que aconteceu nesse último domingo (26) pelas ruas de mais de 150 cidades do país. Manifestações a favor do governo de Jair Bolsonaro foram convocadas para defender um governo que já começa capenga.

(Os agentes do mercado, ao que parece, já estão pulando fora)

As manifestações não foram um fracasso. Nem um sucesso. O governo conseguiu tirar gente de casa num domingo ensolarado mesmo que em menor número que os estudantes e professores saíram no último dia 15 em defesa da educação pública. Mas não conseguiu agregar ninguém fora dos 30% que consideram o governo ótimo ou bom.

Ele ficou no radicalismo.

Nem todos os eleitores de Bolsonaro fazem parte desse núcleo duro que está com ele desde que ganhou notoriedade nos tempos de CQC. Alguns votaram apenas para tirar o PT. Outros confiando que a economia iria melhorar. Os primeiros, que vêem comunistas debaixo da cama, continuam apoiando o capitão-presidente. Já o outro grupo não.

Nesse aspecto, a manifestação do dia 15 conseguiu furar a bolha. Os verde-e-amarelos, não.

Mas há algo mais para se analisar nesse debate: o apoio, não ao presidente, mas aos ministros Sergio Moro e Paulo Guedes.

A Folha de S.Paulo, malandramente, como diz o funk, omitiu o nome do presidente na principal manchete dessa segunda-feira (27). “Atos apoiam Guedes e Moro e criticam Maia e Centrão”. Omite o presidente, que entre outras barbaridades chama os estudantes e professores nas ruas de “idiotas úteis”, e foca nos “cheirosos”.

O Valor publica uma pesquisa, coordenada pelo professor da USP Pablo Ortellado, em que aponta que 75% dos manifestantes em São Paulo foram às ruas em favor da reforma da previdência. Sem uma pesquisa que diz quem são esses manifestantes, idade, cor da pele e classe social, isso não significa muita coisa.

A tentativa da imprensa é clara: descolar Guedes e Moro de Bolsonaro. O primeiro pois defendê-lo é defender a “necessária”, na visão da maioria da grande imprensa, reforma da previdência. O segundo é defender o “legado da Lava Jato”.

Por último mas não menos importante, as manifestações não ajudaram em nada na melhoria da relação do governo com o Congresso Nacional.   

Obs: aqui dados completos da pesquisa completa de Ortellado em que mostra que 65% dos manifestantes eram homens; 78% acima dos 35 anos; 66% brancos e 54% recebem mais de cinco salários mínimos.

Quem vai pra rua dia 26. E quem vai ficar em casa

Jair Bolsonaro manteve a temperatura social alta nos primeiros cinco meses de governo. Manteve por estratégia eleitoral e política. Ele tem que manter suas bases aquecidas e mobilizadas porque, de fato, pouco fez até agora no poder a não ser lutar contra os moinhos de vento do socialismo, marxismo cultural e a “extrema imprensa”.

A estratégia ficou clara no corte (ou contingenciamento, como quiser) de 30% do orçamento federal na educação. O governo Bolsonaro não foi o primeiro a cortar na educação. Mas foi o primeiro a ter orgulho disso. Tanto na mentira contada pelo ministro Abraham Weintraub, que disse que cortaria somente de universidades que promovessem “balbúrdia”, quanto na declaração do próprio presidente que chamou os milhões de manifestantes nas ruas no último dia 15 de “idiotas úteis”.

Isso tudo está tendo reflexos nos índices de aprovação da (indi) gestão, que nunca foram tão baixas em tão pouco tempo de governo. Some-se a isso a falta de habilidade de Bolsonaro e seu staff em negociar com a Câmara e o Senado e as previsões de crescimento econômico abaixo do que se esperava e temos um capitão nas cordas.

No próximo domingo (26) o governo verá o que esperar de sua base eleitoral. Estão convocadas manifestações em todo o país em defesa do governo e contra o Congresso Nacional e o Supremos Tribunal Federal.

Quem vai, afinal?

O núcleo duro mais a direita (que periga se afogar no oceano atlântico). Os chamados Olavetes. Olavo de Carvalho, “filósofo” e guru ideológico de figuras importantes dentro do governo, inclusive o zero dois Eduardo Bolsonaro,  disse que ficará quietinho a respeito da política nacional. Carvalho trucou. Sabe que ainda tem influência no governo. Se as manifestações de domingo forem um sucesso, ele será o grande vencedor, derrotando os militares que não querem ir pras ruas. Se não forem, ele tentará sair por cima dizendo que não tem nada a ver com isso. Mas tem.

O Círculo Militar também convocou para as manifestações. 

Quem não vai?

O presidente, que disse que ia, não vai mais. O MBL, grande articulador dos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff, também não vai e está em atrito com o governo. O presidente do PSL, partido do presidente, não vai e disse que a ideia não é boa.

Outro setor que ficará em casa no próximo dia 26 é o tal mercado. O Ministro da economia Paulo Guedes sabe que precisa do Congresso Nacional para aprovar sua reforma da previdência. Se a temperatura subir ainda mais, seu trabalho pode se complicar. A Fiesp também não está disposta a colocar seu pato na rua. Seu presidente, Paulo Skaf, surfou no Bolsonarismo, não conseguiu sequer ir ao segundo turno na disputa pelo governo de São Paulo, e zarpou.

Por último e não menos importante, Rodrigo Maia está magoado com o governo. Sabe que a Câmara, casa que ele preside, será um dos principais alvos dos protestos. Bolsonaro e sua equipe os tratam como bandidos. O líder do governo na casa, Major Victor Hugo, compartilhou, via WhattsApp uma imagem mostrando que, para negociar com o Congresso, só com um saco de dinheiro.  O governo pode ter vitórias na casa até domingo, se a tal reforma administrativa for aprovada e o COAF voltar para as mãos do Ministro da Justiça Sergio Moro. Mas o recado está dado.

 

Difícil prever o que vai acontecer. Mas não é um bom sinal um governo que precisa mobilizar a sua base de apoio com menos de seis meses no poder. Quando deveria estar em lua de mel com o país. Fosse um jogo de poker, Bolsonaro está dando um “all-in” cedo demais. Pode ganhar uma pequena sobrevida se tiver um jogo bom. Mas valerá à pena?

A depressão, a zoeira e o “futebol raiz”

Por Bruno Pavan

No último dia 12 de maio o Santos venceu o Vasco pelo campeonato brasileiro de 2019 por 3 a 0. Um dos grandes personagens daquela partida foi o goleiro Sidão. Conhecido das torcidas de São Paulo e Botafogo, ele falhou no gol que abriu a contagem para o time santista.

Seria apenas uma falha de um goleiro se não fosse um agravante. A Rede Globo estabelece uma votação, em todos os jogos que ela transmite, em que o internauta escolhe o melhor jogador da partida. Uma das iniciativas da transmissão de interagir com o (a) espectador (a). A votação foi “invadida” por internautas dispostos a alterar a enquete. O que era pra ser a escolha do melhor do jogo acabou sendo uma ironia com Sidão, que foi mal, e mesmo assim venceu a votação com 90% dos votos. A repórter Júlia Guimarães entregou o irônico troféu ao goleiro.

Um dos principais canais que mobilizaram essa votação foi o “Desimpedidos”. “Zoeira sem limites”, diz seu slogan. Isso obviamente uma bobagem enorme. Claro que a zoeira tem que ter limites e nós já deveríamos saber disso. E quem mais deveria saber disso é a Rede Globo.  

Deixo aqui o texto do jornalista Maurício Stycer sobre o ocorrido.

“A emissora está corretíssima em buscar formas de interação com o público cada vez mais engajado nas redes sociais, mas não pode esquecer que tem uma responsabilidade social expressa, inclusive, na legislação. Além disso, é preciso usar o bom senso. Nem toda “zoeira da internet” é sem consequências. Ao obrigar a repórter Julia Guimarães a entregar o troféu de “craque do jogo” para Sidão, a Globo o humilhou em público. Pareceu um quadro do finado “Pânico”, um programa de humor desabusado (…)

A reflexão vale para toda a mídia tradicional, mas é especialmente dirigida à televisão. Se abraçar esta “zoeira” sem filtrá-la, a TV vai perder a sua identidade”

No segundo episódio do Podcast “Muito mais que futebol”, o jornalista Lúcio de Castro também abordou o tema de uma maneira bastante bacana e original. Para ele, a falta de diversidade nas redações colabora pra que isso aconteça. Ouça o podcast aqui.

Depressão no futebol

Um outro tema que pode ser levantado a partir disso é como jogadores de futebol e esportistas de alto nível não estão livres de problemas psicológicos.

O próprio Sidão, humilhado em rede nacional em pleno dia das mães, já havia confessado problemas que passou por uma depressão por conta de seu relacionamento com sua mãe, que estava sendo homenageada em sua camisa no fatídico jogo. 

“Sentia vontade de morrer mesmo, mas eu não tinha coragem de cometer suicídio. Então o que eu fazia era ir pra rua caçar confusão pra ver se alguém entrava na minha e me matasse”

Outro que passou pelo mesmo problema recentemente foi o atacante Nilmar. O ótimo jogador com passagens por Internacional, Corinthians, Oriente Médio e seleção brasileira rescindiu seu contrato com o Santos por não conseguir atuar por enfrentar uma forte depressão.

Em entrevista ao ex-jogador e hoje comentarista Roger Flores, Nilmar apontou que teve que se medicar para superar o problema. “Eu lembro dos meus filhos chegando do colégio e eu sem forças para brincar com eles. Um dos principais motivos pra querer voltar era para os meus filhos, que já estavam maiores, verem o pai jogar”, desabafou.

 

Mas talvez o caso mais famoso e marcante é o de Adriano Imperador. Quando estava no auge de forma física e técnica na Inter de Milão, o atacante perdeu o pai e nunca mais conseguiu repetir o bom futebol que o levou para a seleção brasileira.  

Em entrevista à Pedro Bial, ele confessa que sua carreira não foi tudo que poderia ter sido.  “Você se sente orgulhoso?, pergunta Bial. “Por inteiro não, porque eu não consegui completar a minha carreira por inteiro. Aconteceram algumas coisas que me fizeram meio que afastar do futebol. Então, posso dizer que ficou na metade”, disse Adriano emocionado.

Na minha opinião o discurso do futebol é jogo para homens atrapalha muito um debate sério sobre diversas questões. A depressão é uma delas. O discurso do “futebol raiz” que exalta figuras folclóricas do futebol que bebem, fogem da concentração, não treinam e pegam todas as mulheres atrapalha pensarmos que o futebol mudou, a sociedade mudou e hoje temos outros pontos a abordar.

Não basta comparar um jogador dessa geração com o de outras para dizer “mas naquela época não tinha isso“, ou “esses caras ganham demais, não podem ficar com frescura”. O caso de Sidão é emblemático. Ele não é um grande goleiro. Joga num time gigante e deve, sim, ser cobrado. Mas acho que o problema pode não ser só técnico, pode ser psicológico também.  

Zé de Abreu: a oposição que Bolsonaro merece

Por Bruno Pavan

Quinta-feira passada (8), já depois da polêmica do Golden Shower, o presidente Jair Bolsonaro fez uma live para falar com a população brasileira via Facebook.

Entre outros trepidantes assuntos, falou sobre as lombadas eletrônicas nas estradas do país, denunciando a indústria da multa, como um bom vereador. Depois, denunciou uma cartilha que ensinava adolescentes a colocarem a camisinha corretamente. Uma indignação digna de sua tia carola, mas não de um presidente que precisa, entre outras coisas, desenvolver políticas públicas de combate a AIDS e esclarecer dúvidas sobre a gravidez na adolescência.  

Se ele não sabe, de acordo com o Ministério da Saúde, entre 2006 e 2015 o número de jovens de 15 a 19 anos com o vírus no país cresceu 187%.

Pra esse presidente, não há opositor maior do que o ator José de Abreu, que se autodenominou presidente do Brasil no último dia 26. Bolsonaro é, antes de tudo, performance com a sua estética do urgente. Nada melhor do que um ator e uma hashtag para o tirar do sério. Bolsonaro, inclusive, já ameaçou processá-lo. Alexandre Frota também.  

A impressão é que Bolsonaro nunca quis ser presidente. Se algum dia quis, já se arrependeu. Nesse pouco mais de dois meses no cargo ele se absteve de comentar qualquer coisa que fosse útil ao país. Não falou nada sobre a patacoada resultante da visita de parlamentares de sua base de apoio à China, sobre a crise na Venezuela, nem sobre a reforma da previdência, a maior de suas tarefas, pois foi colocado onde foi também pelo mercado financeiro.

O que o capitão reformado quer mesmo é ficar destilando seus preconceitos usufruindo do foro privilegiado para não ser processado como um reles mortal. Pra isso, poderia ficar com seu cargo na Câmara dos Deputados. Tarde demais. Agora virou vidraça.

A esquerda que quer fazer oposição ideológica séria precisa se voltar ao vice. Hamiltom Mourão não é só a voz da sensatez do governo. É a única cabeça que pensa algo de Brasil. Quando os adultos sentaram a mesa, era ele que estava no grupo de Lima para discutir a questão na Venezuela. Quando o presidente pediu e conseguiu a cabeça de Ilona Szabó para Sergio Moro, foi ele que lamentou. Quando Ricardo Salles diz que não importava quem era Chico Mendes, o General da reserva que colocou panos quentes.

Outra coisa que é preciso entender, as polêmicas de Bolsonaro nas redes não são pra fazer cortina de fumaça pra nada. Ele é assim. Só foi eleito por ser assim. E vai precisar manter seu eleitorado engajado contra os inimigos imaginários do brasil, da família, etc etc etc.

É aí que a esquerda que tem ideias, e não só memes, tem que agir.

José de Abreu é tudo que Bolsonaro merece.

João Amoedo do Mundo Invertido

Por Bruno Pavan

Os anos se passam eu eu nunca vou me acostumar com a genialidade de Caetano veloso em “Sampa”.

Apesar de ninguém da cidade chamar a cidade assim, a música é uma descrição perfeita do lugar em que, tudo sendo do avesso, na verdade é tudo do lado de fora.

Acho que São Paulo é uma cidade feita para migrantes e imigrantes. Quem sempre esteve aqui, não a vê do jeito certo.

Eu sou um deles. Tenho 31 anos. Todos vividos na capital Paulista.

Um dos personagens principais da cidade são os músicos de rua. Na minha rotina de casa-trabalho trabalho-casa não é raro que eu encontre músicos, principalmente na estação Vila Madalena do metrô.

A maioria deles são muito bons, mas eu, como azedo que sou, geralmente não gosto de nenhum. Não me emociona estar ali ouvindo bons músicos tocarem.

Isso mudou um pouco na última segunda-feira.

Resolvi mudar o meu trajeto. Quando você muda o trajeto, às vezes você economiza 20 minutos, às vezes você perde 20 minutos. E às vezes você tromba com novas histórias.

Um músico entra no busão em que eu estava, ali na altura do prédio da TV Gazeta, na Avenida Paulista.

Ele fala alguma coisa, com um forte sotaque espanhol, e começa a tocar.

Ele era muito ruim. Tocava violão mal. Tocava gaita mal. Cantava mal.

Mas alguma coisa ali me fez parar de ler meu livro e prestar atenção naquele cara.

Ele não pedia perdão por ser ruim. Ele, simplesmente, entrou no ônibus com seus instrumentos e tocou.

E a minha fascinação por aquele personagem também não tinha nada de piedade, era outra coisa.     

Como um João Amoedo do mundo reverso, eu queria premiar aquela incompetência honesta.

Depois da apresentação e de passar o chapéu, ele fez um rápido e confuso discurso sobre “fazer o Brasil dar certo apesar de convicções partidárias”.

“Não pode ficar desanimado assim. O Brasil é um país xófen”

Nada mais paulistano do que um estrangeiro tocando e cantando mal dentro do ônibus que, depois de sua apresentação, dá conselhos políticos em um português amarrado.

O que eu não gosto é do bom gosto, como disse Adriana Calcanhoto.  

Brasil de 2019 e a estética do urgente

Por Bruno Pavan

A estética é sempre capaz de traçar uma espécie de perfil de uma época.

Filmes, músicas, quadros, esculturas, programas de TV são sempre um modo de entender a realidade em que vivemos.

Quando, na Europa, as pessoas deixaram de colocar Deus no centro do universo, a arte mudou.

No Brasil, por exemplo, Getúlio Vargas usava as marchinas de carnaval a seu favor. Um país que saia da República Velha e despontava para o futuro. Tinha uma esperança e uma descontração.

Nos anos JK, um presidente moderno, uma nova capital, não combinava muito com aqueles cantores do rádio, empostadores de voz, como Francisco Alves. Nasce então a Bossa Nova, uma mistura de samba com jazz, feita para ser a cara do novo país e levar o Brasil pra fora.

Na ´peoca da ditadura, ao menos três movimentos surgiram. Um conservador, de uma música bastante influenciada pelo rock americano falando sobre o beijo no cinema, o calhambeque, da namoradinha do amigo. A Jovem Guarda.

Outra contestador da realidade política nacional, que não tem muito nome, mas era liderado por Chico Buarque  e Geraldo Vandré.

O terceiro era moderno, contestador na forma, psicodélico. A Tropicalia. Ao cantar “É proibido proibir”, no festival de 1968, Caetano Veloso berrava, soterrado por vaias: “se vocês em política como são em estética, estamos feitos”

É possível traçar outras dezenas de exemplos, o rock dos anos 1980, em um país sem rumo; o axé nos anos 1990, em um país otimista e de bem com a vida; o funk ostentação nos anos 2010, em um país que consumia cada vez mais.

E hoje, qual a estética de um país deprimido, dividido, autoritário?

A cara do Brasil hoje é a cara de Jair Bolsonaro. Isso é doloroso de se dizer, mas é isso.

A cara do Brasil hoje é o pão com leite condensado que ele come no café da manhã, a caneta bic com que assina a sua posse, o bandeijão em que ele janta sozinho na Davos.

A simplicidade fake em contraste com os “marajás” que só pensam em sugar dinheiro da população.

Mas, mais do que isso, a cara do Brasil hoje são as artes de whattsApp.

Um governo como esse só para em pé se se colocar como a única saída frente todas as outras. Então, a estética dele não pode deixar margem nenhuma.

A imagem que ilustra a postagem é clara. Um recém-nascido bate continência e se declara pronto pra batalha. Quem pensa diferente é inimigo dessa criança que acabou de nascer. Ela não precisa nem aprender a andar, falar e pensar pra “saber” disso.

A estética é a mais “amadora” possível e, claro, isso também não é coincidência. Assim como Bolsonaro, pra essas pessoas, se elegeu contra tudo e contra todos, é necessário fazer a sua própria arte.

Tudo que é bem feito não combina com essa sensação de urgência que o Brasil tem hoje, pra tudo. E além de ter recebido dinheiro da Lei Rouanet.

Basta ver também os títulos de canais conservadores no Youtube: Bolsonaro HUMILHA (sim, sim, em caixa alta) jornalista comunista. Fulano CALA A BOCA de Sicrano. Mostra em quem está o poder e o que deve-se fazer com o “inimigo”.

Tem que mudar. Tem que matar. Tem que prender. Tem que humilhar.

Compartilhe. Agora. Já. Porque a Globo não vai mostrar.

Isso, justiça seja feita, a esquerda também faz.

O Brasil hoje é urgente. Não tem mais espaço pra país do futuro. Não tem mais espaço pra futuro.