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“A democracia está se tornando um fardo para os mais poderosos”, diz Luis Felipe Miguel

Por Bruno Pavan

O doutor em ciência política e professor da Universidade de Brasília Luis Felipe Miguel estava em São Paula na última quarta-feira (18) para o lançamento de seu novo livro “Dominação e Resistência – Desafios para uma política emancipatória” (Ed. Boitempo). O lançamento foi no debate “Estratégias de resistência política em tempos difíceis” e teve também a participação da também doutora em ciência política e professora da Unifesp, Esther Solano.

O Fora de Foco já entrevistou o professor Luis Felipe em 2017, em sua edição de número 9, por conta do lançamento do seu livro Consenso e Conflito na Democracia Contemporânea (Ed. Unesp). Clique aqui para escutar

O professor explicou no debate que o casamento do capitalismo liberal e a democracia nunca foi “por amor” e sim por conveniência pois, quando o 1% mais rico quer retirar lucros maiores da sociedade, é a democracia que acaba pagando o preço.

“A democracia foi uma concessão feita pelos detentores da riqueza que se dispunham a pagar um preço pela paz social. Hoje a gente vive um momento que essa disposição diminuiu por conta também da crise econômica desde 2008, mas também porque esse 1% se tornaram mais gananciosos. A democracia está se tornando um fardo” apontou Miguel, que lembrou do golpe sofrido pela ex-presidenta Dilma Rousseff e pelo plebiscito na Grécia, em que 61% da população disse não a condições impostas pela União Europeia de ajuda financeira ao país, mas que uma semana depois o governo do Syriza assinou o acordo rejeitado.

Para entender a relação entre Dominação e Resistência, presente no título do livro do professor Luis Felipe, Esther explica que primeiro precisamos entender como se dá o primeiro para entendermos como que a esquerda pode organizar uma resistência que consiga, de fato, resistir.

“A democracia que temos atua como uma força centrípeta, que coloca como possível as formas aceitáveis de participação e coloca como inaceitáveis as que ela considera radicais demais. Ao mesmo tempo, a dominação política também se dá dentro da democracia, ganhando mentes através de subjetividades. O campo cognitivo vai criando e formando as visões de mundo. Estamos inseridos em sistemas que nos impõe preferências. A escola é uma linha de produção que forma pensamento acrítico, a imprensa oligopolizada, que faz a notícia mercadoria, também forma essa dominação”, crítica.

Constituição em risco

Em 1988 foi promulgada a Constituição Federal, chamada de Constituição Cidadã, que prometia dar novas bases para a nova sociedade que estava nascendo depois de 21 anos de ditadura militar. Para Miguel, apesar de suas imperfeições, o processo constituinte ao menos ouviu diferentes setores da sociedade, desde mais progressistas até ruralistas e empresários.

“O que o golpe 2016 afirma é a exclusão de vozes do espaço de uma luta legítima, de um país menos violento e desigual. A gente uma ilusão da construção de uma legalidade e que a democracia estava ai pra ficar. Mas esse conjunto de garantias se foi muito rapidamente porque temos um alinhamento dos interesses dos diferentes poderes em favor de um, projeto de retrocessos”, apontou.

Em fevereiro de 2018, o professor anunciou um curso de extensão universitária sobre o golpe de 2016 na UNB. O ministro da educação Mendonça Filho (DEM) chegou a acionar o Ministério Público Federal para investigar a emenda do curso. O tiro acabou saindo pela culatra e outras diversas universidades pelo país se organizaram para oferecer disciplinas sobre o processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Miguel afirma que, por mais que não haja uma proibição formal do pensamento de esquerda no país, há uma espécie de marcatismo tupiniquim, prática usada nos EUA na época da guerra-fria para acusar alguém de traição ou subversão

“O que temos hoje no Brasil é um marcatismo, em que as posições de esquerda não estão expressamente proibidas, mas há um ambiente social que faz com que as expressões progressistas recebam todo o tipo de violência. Temos um impedimento dessas falas e as instituições, que teriam que garantir as liberdades, são coniventes com isso. Quem está nos ambiente de ensino sabe como é isso, não precisa aprovar o escola sem partido porque esse projeto fomenta uma proibição de debates, e o poder público fecha os olhos pra isso”, disse.

O perigo da fragmentação das lutas

“A história de todos os povos é a história da luta de classes”, para o ouvinte mais desatento, essa frase de Karl Marx parece mais empoeirada do que o livro do mesmo que está esquecido no fundo do armário de casa.

Para Esther, essa fragmentação do campo da esquerda em lutas identitárias como a feminista, LGBTs e do movimento negro precisa encontrar campos unificadores para aumentar a capacidade de resistência contra os retrocessos democráticos no país.

“O conceito de classe está se esvaziando muito como fator mobilizador. A greve e as estruturas clássicas dos trabalhadores perdem seu sentido, mas temos novas formas de luta como o movimento negro, o movimento feminista e LGBT. Nós temos identidades de resistência, de se entender como subalternos, mas temos que encontrar campos unificadores de luta. Temos que entender a dominação e ver que a resistência ou se faz coletivamente ou não se faz”, encerrou.

Veja o vídeo completo do debate à partir dos 18 minutos:

A culpa é do Sol

“Sol
A culpa deve ser do sol
Que bate na moleira
O sol
Que embaça os olhos e a razão”

Assim cantou Chico Buarque de Holanda em “Caravanas”, grande música que deu título ao novo álbum do cantor.

O Sol na cabeça, que lembra uma outra música, dos mineiros do Clube da Esquina, é o título do primeiro livro de Geovani Martins (Ed. Companhia das Letras*). São 13 crônicas do escritor, nascido em Bangu, no subúrbio do Rio de Janeiro, e que tem o astro rei como personagem central.

A primeira delas, “Rolézim” (Leia aqui e escute aqui), se fosse uma chamada da Sessão da Tarde, seria resumida assim: “as aventuras de um grupo de amigos na praia da Zona Sul do Rio de Janeiro. Eles vão aprontar 1001 confusões”. Mas a realidade é bem diferente da sinopse.

 

A praia, lugar público, sem grades e sem final, aponta para a aurora do planeta redondo. Nada poderia ser mais democrático do que uma tarde na praia. Se quiser comprar, compra. Se não quiser, não compra. Quando quiser ir embora, vai embora. Teria que ser simples. Mas não é.

Tanto Chico, que vê tudo com uma sensibilidade única, mas com olhos da zona sul carioca, quanto Martins concordam que existem os chamados intrusos por ali.

“Um sol de torrar os miolos
Quanto pinta em Copacabana
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba”

Buarque canta a chegada dos visitantes, que desperta o ódios dos banhistas “de bem”. Martins narra a cena desde horas antes.

“Tinha dois conto em cima da mesa, que minha coroa deixou pro pão. Arrumasse mais um e oitenta, já garantia pelo menos uma passagem, só precisava meter o calote na ida, que é mais tranquilo”.

O astro rei, que tira os jovens de casa em busca de diversão na praia, aumenta o ódio na elite carioca.

O comboio dos jovens funciona como se fosse uma colonização portuguesa ao contrário. Onde os nativos tomam conta da terra novamente. Querem retomar o mar onde seus antepassados chegaram, forçados da África.  

“A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné”

A praia acaba virando o campo para o confronto de classes. Que, afinal, é a história de todos os povos (Momento citei Marx!!!!) Na hora de ir embora, o narrador e seus amigos descobrem que aquele não é o lugar que querem que eles estejam.

“…Aí (o policial) veio com um papo de que quem tivesse sem dinheiro de passagem ia pra delegacia, quem tivesse com muito mais que o da passagem ia pra delegacia, quem tivesse sem identidade ia pra delegacia”, conta o autor.

Martins narra cenas em diversos cenários, que mostra que os negros e pobres estão em todos os lugares de um país como o Brasil, de uma cidade como o Rio De Janeiro. Como Marielle Franco estava na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, posta lá por quase 50 mil pessoas. E que, no meio da cidade, foi assassinada com quatro tiros na cabeça. Porque ousou falar alto.  

Assista o programa documento especial – “Os pobres vão à praia”

*O Fora de Foco é blog parceiro da Companhia das Letras 

Racismos, Marx e as “coisas de preto” no Brasil

“É preto, é coisa de preto”, diz William Waack

Recebi em meados do mês de março da Companhia das Letras o livro Racismos, do historiador e professor da King`s College, em Londres, Francisco Bethencourt*.

A primeira coisa que me chama a atenção é o “s” de Racismos que tem muito destaque na capa. O livro procura entender as origens dos diversos tipos de racismos pelo mundo no tempo.

“O racismo é relacional e sofre alterações com o tempo, não podendo ser compreendido na sua totalidade através do estudo segmentado de breves períodos temporais, de regiões específicas ou de vítimas recorrentes – negros ou judeus, por exemplo”, explica Bethencourt na introdução do livro.

Outro destaque de seu pensamento durante o livro é que em relação à preconceitos étnicos associados a ações discriminatórias foi motivado por projetos políticos. A extensa obra analisa diversos momentos históricos desde as cruzadas, a exploração oceânica dos europeus, as sociedades coloniais, como foi a criação das teorias de raça e, por fim, o papel do nacionalismo.

O Brasil

“Como é possível que a mesma pessoa seja considerada negra nos Estados Unidos, de cor no Caribe ou na África do Sul e branca no Brasil? (…) nos Estados Unidos, uma gota de sangue africano define um indivíduo como negro, ao passo que, no Brasil, o status de classe média embranquece a tez humana”, explica o autor logo na página 22.

Aqui entra o ALERTA LEIA MARX do texto. É um erro pensar na questão de raça descolada da questão de classe no Brasil. Bethencourt acusa a interpretação marxista para o problema do racismo limita a explicação às relações econômicas. Talvez realmente tenhamos que ir além de Marx para entender, por exemplo, a questão das desigualdades de acesso à escola, saúde pública ou bens culturais da população negra no Brasil. Mas tirar o sistema capitalista dessa conta não é o caminho.

A tal da Nova Classe Média, propagandeada pelos governos petistas e limitada a nível de renda mensal, foi um erro grave. Do mesmo jeito que, alguém que ganha R$ 2.000,00 por mês tem a sua tez embranquecida, se isso não vier com reformas profundas no Estado, daqui a alguns anos essa mesma pessoa pode ter seus direitos trabalhistas extingui….. er, quer dizer, flexibilizados, ter que virar profissional autônomo ou voltar pra subempregos. E tem a sua tez escurecida novamente.

Foi só a crise econômica chegar ao Brasil que a renda dos negros e pardos, entre 2015 e 2017, caiu 1,6% e 2,8% respectivamente. A dos brancos subiu 0,8%. Entre 2012 e 2014 a situação era inversa: os rendimentos dos autodeclarados pretos cresceu 8,6%; de pardos 6,5% e o de brancos 5,6%. Um trabalhador negro ganha, em média, 56% do que um branco. Clique aqui ler mais. Quando fazemos o recorte por gênero, os números são ainda piores. 63% das trabalhadoras domésticas do país são mulheres negras, uma categoria que sempre teve condições trabalhistas muito precarizadas. Clique aqui para ler mais.

Por fim, mas não menos importante, cabe lembrarmos que, com menos direitos sociais a balança sempre acaba pendendo mais para a questão penal e carcerária. Com a terceira maior população atrás das grades do planeta, 726 mil pessoas se encontram presas hoje no Brasil. 64% delas são negras. Os estados do Acre (95%), Amapá (91%) e Bahia (89%) são os com maiores percentuais de negros nas penitenciárias. Clique aqui para ler mais.

O lugar do negro na sociedade brasileira está bem delimitado, mesmo sem escravidão, mesmo sem apartheid oficial. Caso ouse sair desse lugar, com méritos próprios, como os liberais adoram dizer, mesmo Marielle Franco (Psol-RJ) conseguindo mais de 40 mil votos e ser eleita vereadora na segunda maior cidade do país, corre o risco de tomar quatro tiros na cabeça e, ainda por cima, ser difamada nas redes sociais.

*O Fora de Foco faz parte do time de leitores da Cia das letras de 2018

Tom Zé e a urgência didática

A tropicália morreu em um apê do Leblon, mas vive nas ideias e na inquietação de Tom Zé

Por Bruno Pavan

Tom Zé tem 81 anos.

Contou no show que fez no último sábado (6) no Sesc Belenzinho, Zona Leste de São Paulo, que depois que compôs “Tô”, um de seus maiores sucessos no disco “Estudando o Samba”, em 1976, ficou 20 anos fazendo shows em diretórios acadêmicos de universidades pelo Brasil e pensou em ir trabalhar em um posto de gasolina de seu sobrinho, em Salvador.

“Eu to te explicando pra te confundir/ Eu tô te confundindo pra te esclarecer”, disse ele na canção.

Somente no final da década de 1990 o músico britânico David Byrne, da banda Talking Heads, recuperou Tom Zé do ostracismo e fez o Brasil redescobrir o músico.

(Aqui para ler a entrevista que o baiano deu para Pedro Alexandre Sanchez, na Folha de S. Paulo, no ano 2000.)  

Viajando direto para 2016, já com 80 anos, lançou seu mais recente álbum “Canções eróticas de ninar” onde prova que o sexo e prazer são construções sociais acima de tudo. 

O caminho começa em “descaração familiar”  e nas sutilezas de como os filhos da Casagrande eram introduzidos a educação sexual. “Puras figuras de linguagem/ Na libidinagem”.

Depois vem a “urgência didática” das muitas vezes violentas formas de colocar meninos e meninas em seus quadrados de acordo com o que tem “debaixo do umbigo”.

(Nesse momento Tom interrompeu a música, ao vivo, pra explicar a importância de se desatar, não só o primeiro nó da mulher, o debaixo do umbigo, mas todos eles, inclusive aquele que está na cabeça e que é imposto pela sociedade e igreja.)

“Tinha que ser libidinática a urgência didática/ Bem discarática, sem-vergonhática Lascivolática/ LBGTS, a luta permanece, nosso coração merece”.

 

Em tempos de Escola sem partido, uma porrada muito mais bem dada do que os papas da Música Brasileira estão dispostos a dar.

O show segue, falando sobre a sexualidade da “moça feia” e chegando perto do orgasmo com um pedido: “sobe ni min”.

Até que chega em “orgasmo terceirizado”, que é a melhor história do álbum.

Tom conta que ele estava com muita dificuldade em compor o repertório do novo trabalho. Tudo que mostrava as amigas não gostavam, achavam vulgar etc.

Até que chegou em sua casa a revista JP, da colunista social Joyce Pascowitch.

Uma matéria na edição de outubro de 2015 o chamou atenção: “orgasmo terceirizado”, conta a experiência de uma repórter da revista havia ido a um local de massagem tântrica.

A educação sexual que lá atrás os filhos da burguesia teriam que ir até a Copa e a cozinha receber de forma sutil, agora estava em uma publicação da classe AAA. Entre iates, jatinhos e BMWs, o orgasmo.

(Aqui para ler a matéria na íntegra)

“É de outubro ano 15, memorize/ Uma vitória da imprensa, musa que pensa/ Numa edição histórica, a revista categórica/ Expõe pela primeira vez/ O que o homem prometeu e nunca deu”

O show, por mais que trate de um assunto ainda tão delicado, é uma brincadeira de Tom em cima do palco. Uma espécie de cientista do som, mistura sussurros, respiros e jogos de palavras.

Há uma chama transgressora ali, uma transgressão naturlíssima. Sem ativismo de butique, sem os “Fora Temers” classemedianos

A tropicália vive, e não é nos petit comitês do Leblon, uma espécie de redoma à prova de balas. Vive na energia, no atrevimento e na urgência didática de Tom Zé.

“Eu tô aqui comendo para vomitar…”

Para o “Novo”, Brasil deve combater a pobreza e não a desigualdade de renda. Por que isso não faz sentido?

Na manhã desta segunda-feira (11) o economista, engenheiro, palestrante e pré-candidato do Partido Novo à Presidência da República João Amoêdo, tuitou que o grande problema brasileiro não é a desigualdade de renda mas, sim, a pobreza.

O que queremos: combater a pobreza e não necessariamente a desigualdade. Somos, felizmente, diferentes por natureza.
O combate à pobreza de faz com o crescimento e com a criação de riqueza, e não com a sua distribuição.

Abaixo, um vídeo do professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Vladimir Safatle, no evento da Revista Cult “o que foi feito?” que explica a incoerência desse discurso em um país como o Brasil.

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Jessé Souza e a “esquerda Oslo” brasileira

O sociólogo e professor da UFABC Jessé Souza lançou seu novo livro “A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato” na última terça-feira (31) na livraria Tapera Taperá em São Paulo.

Em certa parte de sua fala ele explica o que é a “esquerda Oslo” brasileira. Trata-se da parcela da classe média progressista e liberal, mas que encara os problemas sociais como se fossem escandinávos.

Assista o vídeo abaixo:

Esquerda precisa lutar contra o neototalitarismo, o populismo e o adesismo, diz Ruy Fausto

Ocorreu na última terça-feira (9) no livraria Martins Fontes em São Paulo o debate sobre o livro “Caminhos da esquerda”, do professor emérito da USP Ruy Fausto, lançado pela Companhia das Letras. O evento também contou com a presença do deputado federal Alessandro Molon (Rede-RJ).

Foram discutidos muitos pontos como quando aconteceu a crise da esquerda no Brasil e no mundo e o que será preciso fazer para a reorganização do campo progressista após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Ou seja, como diz o próprio título do livro de Fausto, os caminhos da esquerda.

Para Fausto há três “doenças” principais da esquerda. O neo-totalitarismo, o populismo ou o patrimonialismo e o adesismo.

O neo totalitarismo, para Fausto, mora em manifestações de apoio a pensadores ortodoxos como o filósofo italiano Domênico Losurdo, que esteve no Brasil recentemente para as comemorações dos 100 anos de revolução russa. “Dizem que a revolução russa acabou com isso e com aquilo, sim, acabou mas colocou algo pior no lugar. A gente vê o (Antonio) Negri querendo fundar um novo leninismo, isso acabou, está morto e enterrado, não tem nenhum futuro”, criticou.

Já no campo do adesismo, ou seja, de abrir mão de seus ideiais para “seguir na onda” da política tradicional, Fausto dá os exemplos do ex-presidente Fernando henrique Cardoso, que na visão dele migrou da centro-esquerda para a centro-direita, e o PPS, que era o antigo PCB, e que saiu da extrema-esquerda e vai para a política dominante.

A terceira doença, o populismo, o professor identifica nas discursos a favor do governo venezuelano de Nicolas Maduro, que identifica tanto na esquerda brasileira, nas vozes de Gleisi Hoffman e em alguns quadros do PSOL, quanto na esquersa mundial, principalmente na figura de Jean-Luc Melenchon que ficou em quarto lugar nas eleições presidenciais francesas em 2017 com 19% dos votos.

A saída é uma esquerda mais moderna

O deputado Alessandro Molon também estava presente no evento e apontou a necessidade de se formar no Brasil um esquerda com pautas mais modernas, preocupada, sobretudo, com a desigualdade social mas sem esquecer da defesa da democracia.

“Dentro desse espector de uma esquerda democrática, há um vácuo no Brasil que ninguém conseguiu ocupar. Nem a Rede, partido da qual eu faço parte, conseguiu ocupar esse espaço. O PT deveria estar preocupado em fazer uma autocrítica honesta mas não está fazendo e os que se preocupam em fazer dizem que o partido errou porque não foi esquerda o suficiente. Eu não acho que esse seja o diagnóstico correto”, afirmou.

Ter um discurso contundente contra a corrupção também foi apontado tanto por Fausto quanto por Molon como algo essencial para que a esquerda brasileira possa ressurgir com força. O deputado fez menção a um artigo publicado no site justificando intitulado “Esquerda fashion punitivista” que fazia críticas e ele e ao senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) por defender publicamente o ex-procurador geral da república Rodrigo Janot e o Procurador da República Deltran Dellagnol e suas atuações na operação Lava Jato.

“Quanto à ideologia, a esquerda ‘fashion’ punitivista acaba sendo mais daninha ao avanço das liberdades democráticas do que os deletérios personagens da direita, justamente porque confundem a população e, com isso, contribuem para consolidar personagens que extrapolam suas funções institucionais, em clara afronta ao papel constitucional que deveriam exercer. A contradição que não percebem é que ao incentivar a exaltação política de autoridades do MP e do Judiciário, contribuem para a completa ausência de controle do poder punitivo”‘, apontou o advogado Patrick Mariano (Clique aqui para ler o artigo na íntegra)

“É claro que o combate à corrupção não pode ser um fim em si mesmo, mas eu não consigo entender, honestamente, quem diz que agora estão tentando usar o discurso garantista contra a seletividade penal pra dizer que quem é de esquerda não pode achar bom que as pessoas estão sendo descobertas e respondendo aos crimes que praticaram. É um negócio inacreditável isso! Durante anos a esquerda que estuda seletividade penal disse que o sistema penal foi feito pra prender pobre e negro, o que é corretíssimo. Mas quando começa a pegar o andar de cima você diz ‘não, nós somos contra cadeia’. Então a gente é contra o quê? Me parece que temos aqui um problema de igualdade também, mas não só social como republicana, de que maneira o estado trata cada um”, respondeu o deputado.

Sobre a polêmica com Marilena Chauí: “alguém precisava ter feito a crítica”

Na revista Piauí de número 121, de outubro de 2016, o professor  Ruy Fausto assinou o artigo “reconstruir a esquerda”, uma espécie de pontapé inicial para o livro lançado menos de um ano depois. Como é de praxe da revista, os artigo são ilustrado por uma ilustração e, no caso desse, era uma desenho da professora da FFLCH-USP Marilena Chauí feliz representada como uma sereia tocando uma harpa. A imagem contrastava com um navio com uma bandeira do PT passando por uma tormenta e pessoas se afogando. Há também uma menção ao ex-presidente Lula no desenho.

A ilustração não era gratuita e vinha com uma passagem do texto de Fausto abaixo: “é preciso dizer: o discurso político de Marilena Chauí tem representado uma verdadeira catástrofe para a esquerda. Infelizmente, ela se mostra seduzida demais pelo aplauso dos auditórios”   

Um mês depois, a revista Cult traz um artigo de seis professores da USP intitulado “Um frágil diagnóstico sobre Marilena Chauí e esquerdas”, que respondia ao professor Ruy Fausto.  

Perguntado sobre a crítica feita, Fausto apontou que as intervenções políticas de Chauí são insuficientes e demagógicas e que se ele não fizesse as críticas. alguém teria que fazê-la.

“Eu fiz uma crítica bastante forte à Marilena porque primeiro o estilo de intervenção política dela é muito insuficiente e um pouco demagógico. A saída dela em torno da classe média foi extremamente infeliz, tanto que agora ela já se corrigiu. Ela também não fez a autocrítica que tinha que fazer ao PT. Eu escrevi aqueles artigos depois de um colóquio fez e que ela termina com um elogio do PT. Numa outra reunião que tivemos, quando se falou em autocrítica ele disse que era coisa de stalinista, isso é uma bobagem, a autocrítica que a gente está pensando não é a autocrítica dos processos de Moscou. Esse tipo de linguagem tinha que ser criticada. Com isso eu não quero desprezar os méritos dela como professora, e espero que ela continue participando dos debates, não sei, não a vi depois dessa discussão, mas acho que um dia teriam que fazer isso e eu fico contente em ter feito. Se eu pensasse um pouco mais talvez eu não fizesse porque enfrentar a Marilena na universidade é uma coisa de maluco. Se passou um pouquinho da medida eu não sei, mas eu tive que fazer”, encerrou.    

Podcast Fora de Foco #9 – Consenso e conflito na democracia contemporânea

A nona edição do Podcast Fora de Foco entrevistou o professor da Universidade de Brasília Luis Felipe Miguel, que falou sobre seu novo livro “Consenso e conflito na democracia contemporânea”

Podcast Fora de Foco #8 – Por que o brasileiro não protesta contra o governo Michel Temer?

Saiu a oitava edição do Podcast Fora de Foco.

Jessé Souza, Leonardo Isaac Yarochewsky, Leda Paulani e Marcia Tiburi discutem os motivos que a população não está nas ruas contra a corrupção do governo Michel Temer.