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O governo Bolsonaro e a lógica dos “vencedores e vencidos”

A democracia mudou e a esquerda precisa entender isso.  

Por Bruno Pavan 

Na última quinta-feira, na edição 59 do excelente Foro de Teresina, a repórter Consuelo Dieguez levantou o ponto de que, na prática, o governo Bolsonaro abre uma nova era na democracia brasileira: o governo dos vencedores x os vencidos. 

Do ponto de vista marxista, um governo eleito dentro da lógica liberal capitalista sempre será um governo dos vencedores. o Estado é uma forma de poder ligado às elites. 

Na lógica liberal, um governo, depois de eleito, teria que abrir diálogo com o restante do país. O jornal O Estado de S. Paulo, no já famoso editorial em que dizia ser uma dura escolha entre Bolsonaro e Haddad, dizia que eleitores e eleitos teriam que entender que não seria possível governar na base do rancor. Meses depois, Bolsonaro prova que sim, é possível. 

O episódio da escolha do seu filho Eduardo para ser embaixador brasileiro em Washington é a prova de que, por ganhar a eleição, o presidente acha que pode tudo. A lógica não é governar com os brasileiros, mas, sim, atropelar os que não depositaram seu voto no 17. “Se estão falando mal, é porque a escolha é certa”, disse o presidente.  

Para o professor da USP e filósofo Vladimir Safatle em entrevista ao canal da Carta Capital no Youtube, essa polarização não vai voltar ao que era.”A gente vê uma sociedade que se polarizou, e essa polaridade não vai voltar atrás. Isso não vai mudar daqui a um ano, não vai mudar daqui a dois anos. Eu lembro desde a eleição de 2014 eu tinha escrito exatamente isso: depois dessa eleição não tem mais como voltar atrás e isso só aprofundou”, afirmou, reforçando ainda que esse não é um cenário exclusivamente brasileiro. 

O ex-presidente Lula se orgulha em dizer que em seu governo os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro. Em uma época de bonança econômica e em um país tão desigual quanto ainda é o Brasil, colocar milhões de brasileiros no acesso ao crédito era a famosa política do ganha-ganha. 

Esse tempo acabou. Não adianta termos ilusões de que o Bolsonaro vá recuar em sua retórica belicista e intolerante, já que foi exatamente por isso que grande parte de seus eleitores o escolheram. Como não apresenta resultados econômicos e o desemprego segue galopante, precisa manter o fogo do núcleo duro ideológico alto.

A democracia mudou e a esquerda precisa entender isso.     

 

Tabata Amaral quer ocupar um lugar que não existe mais na política brasileira

Tabata depende que figuras como Luciano Huck consigam resgatar uma direita liberal no país

Por Bruno Pavan

Na tarde-noite de ontem (10) a Câmara dos Deputados aprovou, em primeiro turno, o texto base da reforma da Previdência, que deveria ser do presidente Jair Bolsonaro, mas na prática é de Rodrigo Maia, presidente da Câmara. O placar foi acachapante: 379 a 131.

Uma posição chamou a atenção da opinião pública, a de Tabata Amaral. Eleita deputada federal pelo PDT de São Paulo, ganhou notoriedade quando enquadro o ex-ministro da educação Vélez Rodrigues em sabatina na Câmara dos Deputados. Logo, virou uma estrela. A esquerda que não pode ver uma lacração, correu para tecer loas à Tábata. Se descobriu, depois, que a jovem faz parte da seleta bancada Lemann.

A bancada Lemann é uma tentativa do bilionário brasileiro José Paulo Lemann de interferir diretamente na política nacional. Como a doação empresarial não é mais permitida, ele sai distribuindo jovens por partidos Brasil afora. Como uma empresa que compra um cockpit na Fórmula 1. Acontece que essas figuras não tem identidade nenhuma com os partidos que foram colocados. Sua fidelidade é com a agenda de Lemann.

Foi o que aconteceu com Tabata. Logo após a lacração contra Vélez, já mandou a esquerda tirar o cavalinho selado da chuva porque nele ela não montaria.

Com declarações favoráveis a reforma da previdência antes da votação, se alinhou com seus colegas da bancada Lemann, mas não com o seu partido, o PDT, que havia fechado voto contrário ao texto. Nem as ameaças de Carlos Lupi e do presidenciável pelo partido, Ciro Gomes, a fez mudar de opinião.

“Hoje a previdência tira dinheiro de quem menos tem e transfere para os mais ricos. Ela aumenta a desigualdade no Brasil em um quinto”, apontou a deputada em um vídeo publicado nas suas redes, fazendo coro com a mídia e o mercado.

O PDT agora tem um problema para resolver. Tabata e outros sete parlamentares da sigla votaram a favor da reforma e contra a determinação do partido. Lupi disse, nesta quinta (11), que pensaram ser maiores que o partido.

Tabata hoje está numa posição bastante confortável, se o partido não expulsar, ganha grande liberdade dentro da sigla. Se for, sai como a heroína que pensou no país acima de tudo. Acontece que a deputada quer ocupar um lugar que não existe hoje no espectro político no país. Claro que será a mais queridinha de imprensa, jovem, de origem humilde e com uma história de superação. Por esse lado, se for expulsa do partido de Brizola, vira ainda mais símbolo.

A postura camarada da imprensa também ajuda muito. O PSOL tem deputadas com o mesmo perfil. Sâmia Bomfim (SP) e Talíria Petrone (RJ) também são jovens e batem duro no governo. Mas um partido que tem Socialismo no nome não tem o menor futuro se precisarem de cobertura camarada da imprensa.

Acontece que Amaral quer ocupar um lugar que não existe mais no espectro político brasileiro. O da direita liberal de fato. Cabe lembrar que Bolsonaro não era o plano original da burguesia nacional. Mas que o projeto original, Geraldo Alckmin ficou com pífios 4% nas eleições presidenciais mesmo com um tsunami de tempo de TV. Se formos pegar as eleições de 2002 pra cá, perdeu todas.

Essa posição dependerá muito de movimentos como o de Luciano Huck. Se conseguir se abrigar em um partido e fazer colar na população a necessidade de uma direita “liberal”, dá guarida aos descontentes com o rumo que a direita tomou no Brasil. Caso não, pode perder eleitorado que a elegeu em 2018 e não necessariamente substituí-lo por outro.

Nem um dia depois da aprovação da reforma da Previdência na Câmara, agência de risco diz que só ela não basta para o Brasil

Do G1:

Mesmo assim, a reforma do sistema de aposentadorias sozinha não será suficiente para recolocar a economia do país de imediato na trilha da recuperação, disse analista líder da Moody’s para o Brasil.

PHA: o boa sorte é pra quem fica

O jornalista faleceu na madrugada desta quarta (10) por conta de um infarto fulminante

Por Bruno Pavan

Esse blog nasceu do chão da fábrica do Conversa Afiada. 

Nasceu dos bate papos dos editores do site, no já longínquo ano de 2013 no antigo “QG da Santa Cecília”. As conversas entre Murilo Henrique, João de Andrade Neto e eu quase sempre tinham a ver com os textos no blog ou com os assuntos da TV, sempre ligada na Globo News. 

Em 2013, Murilo e eu tiramos a ideia do blog do papel e colocamos no ar. Blog este que também já contou com luxuosa participação também de Alisson Matos, afiadíssimo participante das conversas no QG. 

PHA sempre foi um apaixonado, um fissurado pelo jornalismo. Quando ficava muito tempo sem contato com a gente, logo telefonava, ansioso, querendo saber o que havia de novo no Brasil e no mundo para alimentar o CAf. 

Levou seu texto afiado e direto da TV pra internet. Foi um dos primeiros que descobriu isso. Texto com períodos curtos separados por pontos finais. 

Pular linha. 

E começar outra frase. 

Também percebeu a importância de um título antes mesmo da febre dos chamados “click baits”.

Percebeu que a agilidade da TV era também muito bem vista na internet. Estilo que foi consagrado por diversos jornalistas e espaços na web. Inclusive por este.

PHA sempre tratou jornalismo como coisa séria. Isso nunca quis dizer “carrancuda”. Desde seus tempos no Jornal da Globo, onde convidava o telespectador a conversar com ele sobre os espinhosos temas econômicos, até o convite ao amigo navegante a mergulhar em suas muitas vezes rebuscadas e complicadas navalhadas no Conversa Afiada. O recente sucesso no Youtube já era mais que anunciado.

No fim do mês passado, foi alvo do jornalismo que adora se auto-censurar, quando a Record TV o afastou do Domingo Espetacular depois de 15 anos. A emissora não deixou claro o motivo de seu afastamento, mas tudo indica que tem dedo do governo Bolsonaro aí. Ou o desejo da emissora de se adiantar a ele e afastar qualquer voz dissonante de sua grade. 

No segunda (8) gravou sua última TV Afiada, onde dava seus pitacos sobre a “selecinha” do técnico Tite. Estava presente no Maracanã, onde parecia feliz e saudável até seu coração o trair na madrugada da terça para quarta. 

Há alguns anos, Paulo, que sempre foi muito bom de bordões, se apropriou de um, do jornalista americano Edward Morrow. Perseguido pelo Marcatismo dos anos 1950 nos EUA, sempre encerrava o seu jornal com a frase “Boa noite e boa sorte”. 

Amorim, como bem resumiu a página Testes da Massa, “morreu no campo de batalha”. 

Boa noite, PHA, e boa sorte aos que ficam   

A pedido da bancada evangélica, Bolsonaro libera geral para os dízimos em meio à crise

Medida elevará de R$ 1,2 milhões para R$ 4,8 milhões o piso para que uma igreja seja obrigada a informar suas movimentações financeiras diárias.

Leia no Globo

A pedido de evangélicos, Bolsonaro afrouxará obrigações fiscais de igrejas

Em reunião em maio, com Paulo Guedes, Bolsonaro estabeleceu prazo de dois meses para o secretário especial da Receita Federal atender a solicitações de parlamentares

Em entrevista, Renato Gaúcho elogia Bolsonaro e se coloca como o anti-Tite na seleção

O técnico do Grêmio esbanjou opiniões conservadoras sobre gays no esporte e futebol feminino 

Por Bruno Pavan

O técnico do Grêmio Renato Gaúcho deu uma entrevista nesta domingo (7) para a jornalista Monica Bergamo da Folha de S.Paulo onde temas espinhosos como homofobia e racismo no futebol, além de temas relacionados a opinião do treinador sobre o presidente Jair Bolsonaro. 

Ao contrário do atual técnico da Seleção Brasileira, Renato nunca foi de ser vaselina com a imprensa. Desde a época de jogador sempre falou o que quis. Sobre a homofobia no futebol, disse que se ele trabalhar com um jogador gay “iria zuar com ele todos os dias” e que não entende porque gays no futebol é “notícia mundial”.

 “Se eu tenho um jogador gay, vou sacanear ele de manhã, de tarde e de noite. Eu quero é que ele jogue. O que não pode é misturar as coisas: entrar no vestiário de sacanagem por ser gay e levar mais para o lado gay dele do que para o trabalho. Aí ele tá fora comigo”

O que seria levar mais para o lado gay dele do que para o trabalho? Renato acha que uma pessoa homossexual dá em cima de outras pessoas durante o expediente? Acha que um jogador gay vai, necessariamente, assediar um companheiro no vestiário? Renato acha que o jogador teria que, obrigatoriamente, levar as “sacanagens” dele na boa? Se o treinador “quer que ele jogue”, qual o motivo das sacanagens por conta de sua orientação sexual? 

Sem fugir de polêmica, respondeu também sobre seu voto no presidente Jair Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais e que o governador fluminense Wilson Witzel está melhorando a vida no Estado onde sua filha e esposa moram.   

Por fim, disse não ver sentido no protesto da seis vezes melhor do mundo Marta, que não usou chuteira de nenhuma marca na Copa do Mundo Feminina e ainda encampou protestos pelo pagamento igualitário entre homens e mulheres no esporte. 

Muita gente pode justificar sua postura por conta do meio do futebol, sempre muito machista e homofóbico. Estranho seria se ele fosse progressista. Concordo em parte com esse argumento.

Renato sempre foi muito midiático e nessa entrevista me passou a impressão de que ele só respondeu o que queria responder. No próprio texto Bergamo aponta que o assessor de Renato estava presente. Quem é jornalista sabe que em entrevista com o assessor presente, o entrevistado não fala nada que não quiser.

A publicação da entrevista veio no domingo, dia da final da Copa América onde o Brasil bateu o Peru por 3 a 1. Na mesma semana em que o jornalista Juca Kfouri apontou em seu blog que Tite poderia deixar o comando da seleção após o torneio. 

Apesar de não dizer com todas as letras, Bergamo dá a entender que a entrevista foi dada após essa informação vazar. Renato, um dos favoritos a assumir o posto, resolveu falar. O que faz sentido pra mim é que ele quis ser o Anti-Tite. Ao dar suas polêmicas opiniões “sem mimimi”, passa a ser uma caricatura do homem branco ressentido que ganha cada vez mais espaço no país.   

Em uma sociedade tão polarizada, isso pode pesar a favor dela diante de uma futura mudança de comando na seleção da CBF. Vejamos!