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Brasil de 2019 e a estética do urgente

Por Bruno Pavan

A estética é sempre capaz de traçar uma espécie de perfil de uma época.

Filmes, músicas, quadros, esculturas, programas de TV são sempre um modo de entender a realidade em que vivemos.

Quando, na Europa, as pessoas deixaram de colocar Deus no centro do universo, a arte mudou.

No Brasil, por exemplo, Getúlio Vargas usava as marchinas de carnaval a seu favor. Um país que saia da República Velha e despontava para o futuro. Tinha uma esperança e uma descontração.

Nos anos JK, um presidente moderno, uma nova capital, não combinava muito com aqueles cantores do rádio, empostadores de voz, como Francisco Alves. Nasce então a Bossa Nova, uma mistura de samba com jazz, feita para ser a cara do novo país e levar o Brasil pra fora.

Na ´peoca da ditadura, ao menos três movimentos surgiram. Um conservador, de uma música bastante influenciada pelo rock americano falando sobre o beijo no cinema, o calhambeque, da namoradinha do amigo. A Jovem Guarda.

Outra contestador da realidade política nacional, que não tem muito nome, mas era liderado por Chico Buarque  e Geraldo Vandré.

O terceiro era moderno, contestador na forma, psicodélico. A Tropicalia. Ao cantar “É proibido proibir”, no festival de 1968, Caetano Veloso berrava, soterrado por vaias: “se vocês em política como são em estética, estamos feitos”

É possível traçar outras dezenas de exemplos, o rock dos anos 1980, em um país sem rumo; o axé nos anos 1990, em um país otimista e de bem com a vida; o funk ostentação nos anos 2010, em um país que consumia cada vez mais.

E hoje, qual a estética de um país deprimido, dividido, autoritário?

A cara do Brasil hoje é a cara de Jair Bolsonaro. Isso é doloroso de se dizer, mas é isso.

A cara do Brasil hoje é o pão com leite condensado que ele come no café da manhã, a caneta bic com que assina a sua posse, o bandeijão em que ele janta sozinho na Davos.

A simplicidade fake em contraste com os “marajás” que só pensam em sugar dinheiro da população.

Mas, mais do que isso, a cara do Brasil hoje são as artes de whattsApp.

Um governo como esse só para em pé se se colocar como a única saída frente todas as outras. Então, a estética dele não pode deixar margem nenhuma.

A imagem que ilustra a postagem é clara. Um recém-nascido bate continência e se declara pronto pra batalha. Quem pensa diferente é inimigo dessa criança que acabou de nascer. Ela não precisa nem aprender a andar, falar e pensar pra “saber” disso.

A estética é a mais “amadora” possível e, claro, isso também não é coincidência. Assim como Bolsonaro, pra essas pessoas, se elegeu contra tudo e contra todos, é necessário fazer a sua própria arte.

Tudo que é bem feito não combina com essa sensação de urgência que o Brasil tem hoje, pra tudo. E além de ter recebido dinheiro da Lei Rouanet.

Basta ver também os títulos de canais conservadores no Youtube: Bolsonaro HUMILHA (sim, sim, em caixa alta) jornalista comunista. Fulano CALA A BOCA de Sicrano. Mostra em quem está o poder e o que deve-se fazer com o “inimigo”.

Tem que mudar. Tem que matar. Tem que prender. Tem que humilhar.

Compartilhe. Agora. Já. Porque a Globo não vai mostrar.

Isso, justiça seja feita, a esquerda também faz.

O Brasil hoje é urgente. Não tem mais espaço pra país do futuro. Não tem mais espaço pra futuro.

As ruas que falam

Por Bruno Pavan

A cidade sempre foi uma grande fonte de inspiração para cantores, escritores, compositores… É na cidade e seus lugares onde tudo acontece.

A casa no campo, por exemplo, fez Elis sonhar em plantar amigos, discos e livros. Sampa, com sua deselegância discreta, fez Caetano entender que Narciso acha feio o que não é espelho.

Elis queria a tranquilidade e um controle sobre tudo ao seu redor. “Plantar amigos”. Caetano caiu na realidade da cidade sem rosto e coração.

“Se a rua beale falasse” (Cia das Letras), de James Baldwin não é só uma história de amor. Nem só um cenário do Harlem dos anos 1970.

O livro conta a história de amor de Clementine (Tish) com Alonzo (Fonny). E a luta dela para libertar o namorado após ser preso por um crime que não cometeu.

Tish, a narradora e protagonista, conta a história com vigor, foco e uma espécie de eletricidades nos detalhes certos. A passagem que mais me chamou a atenção foi quando ela, que trabalha no setor de cosméticos de uma grande loja de departamentos, conta um pouco da sua rotina:

“Não eram só as velhas brancas que vinham cheirar as costas da minha mão. Muito raramente um negro chegava perto daquele balcão, e, quando o fazia, suas intenções eram com frequência mais generosas e sempre mais precisas. Talvez, pra um homem negro, eu realmente lembrasse muito de perto uma irmã mais nova indefesa. Ele não gostaria que eu me tornasse uma puta. E talvez alguns deles se aproximassem simplesmente para olhar nos meus olhos, ouvir minha voz ou apenas verificar o que estava acontecendo. E nunca cheiravam as costas da minha mão: um homem negro estende as costas da mão dele para que você a borrife, e então ele próprio leva até o nariz. E não se dá ao trabalho de fingir que veio comprar algum perfume. Às vezes compra algum; na maioria das vezes, não. Às vezes a mão que desceu do nariz forma secretamente um punho cerrado, e, com uma prece, com tal saudação, ele se afasta. Mas um homem branco leva a mão da gente até o nariz dele e a mantém lá” (pp 117 e 118)

Tão singelo e tão forte quanto os punhos cerrados dos Panteras Negras é a mão negra que, após cheirar um perfume, se transforma em resistência.

A cidade também pode ser representada pela falta de palavras. Que muitas vezes grita mais do que o mais descritivo dos parágrafos. No trecho do livro onde a mão de Tish vai a Porto Rico, o advogado da Família, Hayward (não) tenta descrever uma favela. E por isso a descreve melhor do que ninguém.

“Estive só uma vez em Porto Rico, por isso não vou tentar descrever uma favela. E tenho certeza que, quando voltar, você também não vai tentar descrever o que é”.

Apesar do sofrimento gerado nas famílias, a vilã da história não é Victoria Rogers, a jovem porto riquenha que acusa Fonny de tê-la estuprado. O vilão se chama Estados Unidos da América.

Ernestine, irmã de Tish, em um momento de sororidade feminina, explica para a irmã o quão sofrido será para a Rogers revisitar uma história tão dura pra ela e mudar seu depoimento, inocentando Fonny. “Claro que ela está mentindo. Nós sabemos que ela está mentindo. Mas ela não está mentindo. Pra ela, foi o Fonny, e estamos conversados, ela não precisa mais lidar com isso. Está terminado. Pra ela. Se mudar o depoimento, vai ficar louca. Ou se transformar em outra mulher. E você sabe com que frequência as pessoas enlouquecem e como é raro que se transformem”.

Em outra parte, Sharon, mãe da narradora, bate na porta da Sr. Rogers. Em um momento da conversa, para convencê-la a mudar o seu depoimento, Sharon diz: “ele é negro. Como nós”.

A cidade que te mostra o que você é. Quem você encontra no trabalho, o ônibus que te leva, o quanto tempo você leva pra chegar em casa, onde você encontra seus amigos. E, muitas vezes, é mais do que ser herói ou vilão.

*O Fora de Foco é blog parceiro da Cia das Letras

Podcast Fora de Foco #24 – Bolsa Família e as taxas de suicídio – Flavia Jose Alves

Olá
Hoje a edição do Fora de Foco é com a pesquisadora Flavio Jose Oliveira Alves, uma das autores do artigo “Efeito do Programa Bolsa Família na redução das taxas de suicídio e de hospitalização por tentativa de suicídio nos municípios brasileiros”.

Dê o play ae porque o assunto é sério!!!

Datena não será candidato de si mesmo

Por Bruno Pavan

O jornalista e apresentador José Luis Datena é pré-candidato ao senado pelo DEM de São Paulo e deve disputar uma vaga das duas que o estado (todos eles) tem em 2018.

Várias montagens já circulam na internet com fotos do filme Tropa de Elite II, quando o personagem Fortunato, carismático apresentador de um programa policialesco, sai como candidato a deputado estadual.

Em 2016, Datena já ensaiou ser candidato pelo Partido Progressista, à prefeitura de São Paulo. Acabou desistindo fazendo críticas ao ex-governador e ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf, deputado eleito pelo mesmo partido.

Talvez a maior qualidade de Datena, em um momento em que a classe política esteja tão desacreditada, seja essa: a falta de papas na língua. Ele é “um de nós” ali. Isso é mostrado muito bem na entrevista que deu, ainda em 202, ao jornalista Maurício Stycer, do UOL. Ele critica o deputado federal Celso Russomanno (PRB-SP) e diz que “é injusto em comunicador entrar na política”. No mesmo trecho da entrevista, porém, a autenticidade pode até pesar a favor dele quando diz que é “uma porcaria como administrador” em um momento que os administradores eleitos estão em descrédito tão alto.

Mas a falta das papas também pode ser prejudicial fazendo ele cair em armadilhas. Nesta semana ele gravou um vídeo de apoio ao pré-candidato tucano à presidência da república Geraldo Alckmin, quando o seu partido ainda negocia apoio com o pedetista Ciro Gomes. “Não sabia que era tão importante”, disse o apresentador à coluna de Mônica Bergamo.

Uma manifestação de apoio no principal colégio eleitoral brasileiro e um candidato que o partido ainda não decidiu apoiar é, sim, importante. Para um candidato como Ciro, que terá dificuldades em São Paulo, ter um palanque com Datena é uma boa carta na manga. Para Alckmin, que apesar de ser governador ainda está em maus lençóis no estado, também.

Outro ponto importante é que o apresentador tentará uma vaga no Senado, casa que tende a ser mais conservadora sendo as coisas mais difíceis de andar.

O jornalista, ainda na entrevista à Bergamo, disse que pode “joaquinzar”, ou seja, desistir da pré-candidatura assim como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa desistiu da sua ao Palácio do Planalto e confessa que está sendo pressionado pela família a desistir, discurso que lembra o do também apresentador Luciano Huck, quando não topou a empreitada rumo à presidência.

Datena precisa entender que mesmo com sua postura “antipolítica”, quando for candidato, terá que trabalhar em conjunto com seus pares de partido. Ele não é um “candidato de si mesmo” e terá que enfrentar palanques, posar pra fotos e dar declarações de apoio.

A filha da Ralé e a filha do Maneco

Por Bruno Pavan

O sociólogo Jessé Souza cunhou a expressão “Ralé” para chamar, provocativamente, uma classe pobre no Brasil que está afastada de qualquer acesso, não só a bens materiais, saúde, educação e saneamento básico de qualidade; mas também de bens subjetivos, como afeto familiar e amor.

Souza é um dos críticos de uma intelectualidade que forjou o modo de ser do brasileiro, como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Darci Ribeiro. Mas sua pesquisa, presente em diversos livros, mas em especial no ótimo “A ralé brasileira – quem é e como vive” (Ed. Contracorrente), põe abaixo todos os teóricos recentes que encararam que o Brasil teria virado um país de classe média, por conta de expansão da classe c como massa consumidora.

Um dos exemplo citados de como a classe média consolidada não pode ser considerada maioria no país é o fato de, fugindo do economicismo que ele aponta, a chamada Ralé seja prejudicada na “competição social” que dá os melhores empregos, oportunidades e até casamentos por conta das relações sociais que viveram.

No capítulo chamado “A miséria do amor dos pobres”, Emanuelle Silva, Roberto Torres e Tábata Berg contam como o amor romântico idealizado pelas adolescentes Dina e Jane em nada se parece com a ideia de amor romântico da classe média.

Ambas foram criadas em famílias totalmente desestruturadas, com pais e avós violentos que ficavam dias sem aparecer em casa e, quando apareciam, bêbados, batiam nas esposas e não demonstravam nenhum tipo de amor pelas filhas.

O divórcio não era uma opção para as mães e avós porque, como é repetido em muitas passagens do livro, “mulher sozinha é poste pra cachorro mijar”. Algo que parece tão comum na classe média, se separar de alguém que te maltrata ou que simplesmente você não sente mais vontade de estar junto, é uma realidade totalmente distante na numerosa ralé brasileira.

Com isso, o casamento vira algo pragmático, onde se casa para evitar ser estuprada pelo padrasto, tio ou irmão mais velho. Nada tem a ver com o amor que conhecemos, do livros, dos filmes.

O sexo também é outro ponto problemático. Ao invés de algo que elas tenham uma relação tranquila, de se entregar pra quem se tem e quando se tem vontade, ele vira uma espécie de moeda de troca. As meninas sempre tentam manter um corpo escultural pra continuarem “gostosas”, uma virtude ambígua, segundo o artigo, porque a hiperssexualização de seu corpo continua sendo a principal, senão a única, ferramenta da sedução. E o sexo é tratado como moeda de troca: para que elas possam ter certeza de que seus parceiros não estão só interessados no sexo, elas jogam com o desejo dos parceiros evitando transar no início da relação.

O eco de um feminismo que chega cada vez mais forte aos meios de comunicação, não chega até elas por conta dessa questão. Tomo a liberdade de colocar um trecho do artigo abaixo:

“A liberação sexual só favorece uma relação de reciprocidade afetiva entre homem e mulher quando a socialização de classe (familiar) das mulheres trouxer como herança a experiência e a certeza de uma oferta afetiva independente de favores sexuais. Aí sim a fraternidade entre os amantes pode surgir de uma aceitação e de uma entrega mútua de um para o outro, que implica , ao contrário de altruísmo, a possibilidades de desejo terem livre vazão, ainda que de modo assimétrico (…)”

Quando terminei de ler o artigo, lembrei da música “Filha do Maneco” que está no último cd do cantor Criolo “Espiral de ilusões”.

No samba ele conta a história do narrador que vê pela janela “um avião/ do jardim a flor mais bela”, ou seja, uma mulher bonita, e logo se interessou por ela. Quando foi procurar informações na vizinhança, o Jurandir “lá do boteco” respondeu a ele que, rapidamente, que aquela era a “filha do maneco”. Após isso ele diz que o pai da moça “é conhecido” no morro. Além disso ele é “temido/ não é de brincadeira”.

Por esse pequeno trecho o ouvinte já descobre muitas coisas sobre a moça. Ela tem um pai “conhecido”, ao contrário das personagens do livro, que se não foram abandonadas pelos pais, tiveram neles sempre os piores exemplos possíveis. O fato do personagem não ter ido atrás da moça na hora, mas, sim, pedir informações sobre ela, também representa uma diferença entre intenções de alguém que quer “algo sério” de alguém que só quer objetificar o seu corpo.

A criação da musa inspiradora, apesar de ser um pouco melhor do que as das personagens reais do livro, também está longe de ser a ideal. Na música ela é “o avião”, “a flor mais bela” e a filha do Maneco. Apesar de uma voz, no início da música, querer saber seu nome, esse nunca é citado.

Mas em outro ponto fica claro o motivo do tratamento da personagem da música ser tão diferente de Dina e Jane. Maneco “já mandou recado pra comunidade/ Sua menina terminou a faculdade/ E não quer ver gavião sobrevoando o seu terreno/ E quem tentou, provou do seu veneno”

A mulher, por ter tido acesso a uma educação formal, tem mais atrativos e seu pai espera algum parceiro melhor pra ela. Ao contrário das duas adolescentes retratadas no livro. O pai superprotetor, se não é um exemplo ideal, sem dúvida é muito mais positivo do que as figuras masculinas omissas e violentas das vida real.

“A democracia está se tornando um fardo para os mais poderosos”, diz Luis Felipe Miguel

Por Bruno Pavan

O doutor em ciência política e professor da Universidade de Brasília Luis Felipe Miguel estava em São Paula na última quarta-feira (18) para o lançamento de seu novo livro “Dominação e Resistência – Desafios para uma política emancipatória” (Ed. Boitempo). O lançamento foi no debate “Estratégias de resistência política em tempos difíceis” e teve também a participação da também doutora em ciência política e professora da Unifesp, Esther Solano.

O Fora de Foco já entrevistou o professor Luis Felipe em 2017, em sua edição de número 9, por conta do lançamento do seu livro Consenso e Conflito na Democracia Contemporânea (Ed. Unesp). Clique aqui para escutar

O professor explicou no debate que o casamento do capitalismo liberal e a democracia nunca foi “por amor” e sim por conveniência pois, quando o 1% mais rico quer retirar lucros maiores da sociedade, é a democracia que acaba pagando o preço.

“A democracia foi uma concessão feita pelos detentores da riqueza que se dispunham a pagar um preço pela paz social. Hoje a gente vive um momento que essa disposição diminuiu por conta também da crise econômica desde 2008, mas também porque esse 1% se tornaram mais gananciosos. A democracia está se tornando um fardo” apontou Miguel, que lembrou do golpe sofrido pela ex-presidenta Dilma Rousseff e pelo plebiscito na Grécia, em que 61% da população disse não a condições impostas pela União Europeia de ajuda financeira ao país, mas que uma semana depois o governo do Syriza assinou o acordo rejeitado.

Para entender a relação entre Dominação e Resistência, presente no título do livro do professor Luis Felipe, Esther explica que primeiro precisamos entender como se dá o primeiro para entendermos como que a esquerda pode organizar uma resistência que consiga, de fato, resistir.

“A democracia que temos atua como uma força centrípeta, que coloca como possível as formas aceitáveis de participação e coloca como inaceitáveis as que ela considera radicais demais. Ao mesmo tempo, a dominação política também se dá dentro da democracia, ganhando mentes através de subjetividades. O campo cognitivo vai criando e formando as visões de mundo. Estamos inseridos em sistemas que nos impõe preferências. A escola é uma linha de produção que forma pensamento acrítico, a imprensa oligopolizada, que faz a notícia mercadoria, também forma essa dominação”, crítica.

Constituição em risco

Em 1988 foi promulgada a Constituição Federal, chamada de Constituição Cidadã, que prometia dar novas bases para a nova sociedade que estava nascendo depois de 21 anos de ditadura militar. Para Miguel, apesar de suas imperfeições, o processo constituinte ao menos ouviu diferentes setores da sociedade, desde mais progressistas até ruralistas e empresários.

“O que o golpe 2016 afirma é a exclusão de vozes do espaço de uma luta legítima, de um país menos violento e desigual. A gente uma ilusão da construção de uma legalidade e que a democracia estava ai pra ficar. Mas esse conjunto de garantias se foi muito rapidamente porque temos um alinhamento dos interesses dos diferentes poderes em favor de um, projeto de retrocessos”, apontou.

Em fevereiro de 2018, o professor anunciou um curso de extensão universitária sobre o golpe de 2016 na UNB. O ministro da educação Mendonça Filho (DEM) chegou a acionar o Ministério Público Federal para investigar a emenda do curso. O tiro acabou saindo pela culatra e outras diversas universidades pelo país se organizaram para oferecer disciplinas sobre o processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Miguel afirma que, por mais que não haja uma proibição formal do pensamento de esquerda no país, há uma espécie de marcatismo tupiniquim, prática usada nos EUA na época da guerra-fria para acusar alguém de traição ou subversão

“O que temos hoje no Brasil é um marcatismo, em que as posições de esquerda não estão expressamente proibidas, mas há um ambiente social que faz com que as expressões progressistas recebam todo o tipo de violência. Temos um impedimento dessas falas e as instituições, que teriam que garantir as liberdades, são coniventes com isso. Quem está nos ambiente de ensino sabe como é isso, não precisa aprovar o escola sem partido porque esse projeto fomenta uma proibição de debates, e o poder público fecha os olhos pra isso”, disse.

O perigo da fragmentação das lutas

“A história de todos os povos é a história da luta de classes”, para o ouvinte mais desatento, essa frase de Karl Marx parece mais empoeirada do que o livro do mesmo que está esquecido no fundo do armário de casa.

Para Esther, essa fragmentação do campo da esquerda em lutas identitárias como a feminista, LGBTs e do movimento negro precisa encontrar campos unificadores para aumentar a capacidade de resistência contra os retrocessos democráticos no país.

“O conceito de classe está se esvaziando muito como fator mobilizador. A greve e as estruturas clássicas dos trabalhadores perdem seu sentido, mas temos novas formas de luta como o movimento negro, o movimento feminista e LGBT. Nós temos identidades de resistência, de se entender como subalternos, mas temos que encontrar campos unificadores de luta. Temos que entender a dominação e ver que a resistência ou se faz coletivamente ou não se faz”, encerrou.

Veja o vídeo completo do debate à partir dos 18 minutos:

A culpa é do Sol

“Sol
A culpa deve ser do sol
Que bate na moleira
O sol
Que embaça os olhos e a razão”

Assim cantou Chico Buarque de Holanda em “Caravanas”, grande música que deu título ao novo álbum do cantor.

O Sol na cabeça, que lembra uma outra música, dos mineiros do Clube da Esquina, é o título do primeiro livro de Geovani Martins (Ed. Companhia das Letras*). São 13 crônicas do escritor, nascido em Bangu, no subúrbio do Rio de Janeiro, e que tem o astro rei como personagem central.

A primeira delas, “Rolézim” (Leia aqui e escute aqui), se fosse uma chamada da Sessão da Tarde, seria resumida assim: “as aventuras de um grupo de amigos na praia da Zona Sul do Rio de Janeiro. Eles vão aprontar 1001 confusões”. Mas a realidade é bem diferente da sinopse.

 

A praia, lugar público, sem grades e sem final, aponta para a aurora do planeta redondo. Nada poderia ser mais democrático do que uma tarde na praia. Se quiser comprar, compra. Se não quiser, não compra. Quando quiser ir embora, vai embora. Teria que ser simples. Mas não é.

Tanto Chico, que vê tudo com uma sensibilidade única, mas com olhos da zona sul carioca, quanto Martins concordam que existem os chamados intrusos por ali.

“Um sol de torrar os miolos
Quanto pinta em Copacabana
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba”

Buarque canta a chegada dos visitantes, que desperta o ódios dos banhistas “de bem”. Martins narra a cena desde horas antes.

“Tinha dois conto em cima da mesa, que minha coroa deixou pro pão. Arrumasse mais um e oitenta, já garantia pelo menos uma passagem, só precisava meter o calote na ida, que é mais tranquilo”.

O astro rei, que tira os jovens de casa em busca de diversão na praia, aumenta o ódio na elite carioca.

O comboio dos jovens funciona como se fosse uma colonização portuguesa ao contrário. Onde os nativos tomam conta da terra novamente. Querem retomar o mar onde seus antepassados chegaram, forçados da África.  

“A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné”

A praia acaba virando o campo para o confronto de classes. Que, afinal, é a história de todos os povos (Momento citei Marx!!!!) Na hora de ir embora, o narrador e seus amigos descobrem que aquele não é o lugar que querem que eles estejam.

“…Aí (o policial) veio com um papo de que quem tivesse sem dinheiro de passagem ia pra delegacia, quem tivesse com muito mais que o da passagem ia pra delegacia, quem tivesse sem identidade ia pra delegacia”, conta o autor.

Martins narra cenas em diversos cenários, que mostra que os negros e pobres estão em todos os lugares de um país como o Brasil, de uma cidade como o Rio De Janeiro. Como Marielle Franco estava na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, posta lá por quase 50 mil pessoas. E que, no meio da cidade, foi assassinada com quatro tiros na cabeça. Porque ousou falar alto.  

Assista o programa documento especial – “Os pobres vão à praia”

*O Fora de Foco é blog parceiro da Companhia das Letras 

Racismos, Marx e as “coisas de preto” no Brasil

“É preto, é coisa de preto”, diz William Waack

Recebi em meados do mês de março da Companhia das Letras o livro Racismos, do historiador e professor da King`s College, em Londres, Francisco Bethencourt*.

A primeira coisa que me chama a atenção é o “s” de Racismos que tem muito destaque na capa. O livro procura entender as origens dos diversos tipos de racismos pelo mundo no tempo.

“O racismo é relacional e sofre alterações com o tempo, não podendo ser compreendido na sua totalidade através do estudo segmentado de breves períodos temporais, de regiões específicas ou de vítimas recorrentes – negros ou judeus, por exemplo”, explica Bethencourt na introdução do livro.

Outro destaque de seu pensamento durante o livro é que em relação à preconceitos étnicos associados a ações discriminatórias foi motivado por projetos políticos. A extensa obra analisa diversos momentos históricos desde as cruzadas, a exploração oceânica dos europeus, as sociedades coloniais, como foi a criação das teorias de raça e, por fim, o papel do nacionalismo.

O Brasil

“Como é possível que a mesma pessoa seja considerada negra nos Estados Unidos, de cor no Caribe ou na África do Sul e branca no Brasil? (…) nos Estados Unidos, uma gota de sangue africano define um indivíduo como negro, ao passo que, no Brasil, o status de classe média embranquece a tez humana”, explica o autor logo na página 22.

Aqui entra o ALERTA LEIA MARX do texto. É um erro pensar na questão de raça descolada da questão de classe no Brasil. Bethencourt acusa a interpretação marxista para o problema do racismo limita a explicação às relações econômicas. Talvez realmente tenhamos que ir além de Marx para entender, por exemplo, a questão das desigualdades de acesso à escola, saúde pública ou bens culturais da população negra no Brasil. Mas tirar o sistema capitalista dessa conta não é o caminho.

A tal da Nova Classe Média, propagandeada pelos governos petistas e limitada a nível de renda mensal, foi um erro grave. Do mesmo jeito que, alguém que ganha R$ 2.000,00 por mês tem a sua tez embranquecida, se isso não vier com reformas profundas no Estado, daqui a alguns anos essa mesma pessoa pode ter seus direitos trabalhistas extingui….. er, quer dizer, flexibilizados, ter que virar profissional autônomo ou voltar pra subempregos. E tem a sua tez escurecida novamente.

Foi só a crise econômica chegar ao Brasil que a renda dos negros e pardos, entre 2015 e 2017, caiu 1,6% e 2,8% respectivamente. A dos brancos subiu 0,8%. Entre 2012 e 2014 a situação era inversa: os rendimentos dos autodeclarados pretos cresceu 8,6%; de pardos 6,5% e o de brancos 5,6%. Um trabalhador negro ganha, em média, 56% do que um branco. Clique aqui ler mais. Quando fazemos o recorte por gênero, os números são ainda piores. 63% das trabalhadoras domésticas do país são mulheres negras, uma categoria que sempre teve condições trabalhistas muito precarizadas. Clique aqui para ler mais.

Por fim, mas não menos importante, cabe lembrarmos que, com menos direitos sociais a balança sempre acaba pendendo mais para a questão penal e carcerária. Com a terceira maior população atrás das grades do planeta, 726 mil pessoas se encontram presas hoje no Brasil. 64% delas são negras. Os estados do Acre (95%), Amapá (91%) e Bahia (89%) são os com maiores percentuais de negros nas penitenciárias. Clique aqui para ler mais.

O lugar do negro na sociedade brasileira está bem delimitado, mesmo sem escravidão, mesmo sem apartheid oficial. Caso ouse sair desse lugar, com méritos próprios, como os liberais adoram dizer, mesmo Marielle Franco (Psol-RJ) conseguindo mais de 40 mil votos e ser eleita vereadora na segunda maior cidade do país, corre o risco de tomar quatro tiros na cabeça e, ainda por cima, ser difamada nas redes sociais.

*O Fora de Foco faz parte do time de leitores da Cia das letras de 2018

Tom Zé e a urgência didática

A tropicália morreu em um apê do Leblon, mas vive nas ideias e na inquietação de Tom Zé

Por Bruno Pavan

Tom Zé tem 81 anos.

Contou no show que fez no último sábado (6) no Sesc Belenzinho, Zona Leste de São Paulo, que depois que compôs “Tô”, um de seus maiores sucessos no disco “Estudando o Samba”, em 1976, ficou 20 anos fazendo shows em diretórios acadêmicos de universidades pelo Brasil e pensou em ir trabalhar em um posto de gasolina de seu sobrinho, em Salvador.

“Eu to te explicando pra te confundir/ Eu tô te confundindo pra te esclarecer”, disse ele na canção.

Somente no final da década de 1990 o músico britânico David Byrne, da banda Talking Heads, recuperou Tom Zé do ostracismo e fez o Brasil redescobrir o músico.

(Aqui para ler a entrevista que o baiano deu para Pedro Alexandre Sanchez, na Folha de S. Paulo, no ano 2000.)  

Viajando direto para 2016, já com 80 anos, lançou seu mais recente álbum “Canções eróticas de ninar” onde prova que o sexo e prazer são construções sociais acima de tudo. 

O caminho começa em “descaração familiar”  e nas sutilezas de como os filhos da Casagrande eram introduzidos a educação sexual. “Puras figuras de linguagem/ Na libidinagem”.

Depois vem a “urgência didática” das muitas vezes violentas formas de colocar meninos e meninas em seus quadrados de acordo com o que tem “debaixo do umbigo”.

(Nesse momento Tom interrompeu a música, ao vivo, pra explicar a importância de se desatar, não só o primeiro nó da mulher, o debaixo do umbigo, mas todos eles, inclusive aquele que está na cabeça e que é imposto pela sociedade e igreja.)

“Tinha que ser libidinática a urgência didática/ Bem discarática, sem-vergonhática Lascivolática/ LBGTS, a luta permanece, nosso coração merece”.

 

Em tempos de Escola sem partido, uma porrada muito mais bem dada do que os papas da Música Brasileira estão dispostos a dar.

O show segue, falando sobre a sexualidade da “moça feia” e chegando perto do orgasmo com um pedido: “sobe ni min”.

Até que chega em “orgasmo terceirizado”, que é a melhor história do álbum.

Tom conta que ele estava com muita dificuldade em compor o repertório do novo trabalho. Tudo que mostrava as amigas não gostavam, achavam vulgar etc.

Até que chegou em sua casa a revista JP, da colunista social Joyce Pascowitch.

Uma matéria na edição de outubro de 2015 o chamou atenção: “orgasmo terceirizado”, conta a experiência de uma repórter da revista havia ido a um local de massagem tântrica.

A educação sexual que lá atrás os filhos da burguesia teriam que ir até a Copa e a cozinha receber de forma sutil, agora estava em uma publicação da classe AAA. Entre iates, jatinhos e BMWs, o orgasmo.

(Aqui para ler a matéria na íntegra)

“É de outubro ano 15, memorize/ Uma vitória da imprensa, musa que pensa/ Numa edição histórica, a revista categórica/ Expõe pela primeira vez/ O que o homem prometeu e nunca deu”

O show, por mais que trate de um assunto ainda tão delicado, é uma brincadeira de Tom em cima do palco. Uma espécie de cientista do som, mistura sussurros, respiros e jogos de palavras.

Há uma chama transgressora ali, uma transgressão naturlíssima. Sem ativismo de butique, sem os “Fora Temers” classemedianos

A tropicália vive, e não é nos petit comitês do Leblon, uma espécie de redoma à prova de balas. Vive na energia, no atrevimento e na urgência didática de Tom Zé.

“Eu tô aqui comendo para vomitar…”