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A crise de Singer vai ao chão; a de FHC flutua

Por Bruno Pavan

Sentado no sofá de casa, FHC é imbatível!  

Uma crise, dois pontos de vista. É isso que a editora Companhia das Letras traz, nesse ano eleitoral, com o lançamento de Lulismo em crise, do professor da USP e ex-porta voz do governo Lula, André Singer; e Crise e reinvenção da política no Brasil, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Um petista histórico e um fundador do PSDB, a começar pelo título das duas obras, não negam que há uma crise política no país. Mas as concordâncias entre os dois não vai muito além disso.

A começar que FHC recusa totalmente a narrativa da esquerda brasileira do golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Em sua obra, ele aponta que as instituições seguem funcionando normalmente, frase que seria cômica se não fosse trágica.

Singer, ao contrário, se lembra do famoso áudio de Sérgio Machado, da Transpetro, com o senador Romero Jucá (MDB-RO) em que o parlamentar fala, pela primeira vez, a frase que entrou para os anais da política brasileira: “um grande acordo nacional, com supremo, com tudo” para delimitar a lava jato “onde está”.

O manifesto efeagacista

Em uma matéria publicada no dia 20 de abril, a Folha de S.Paulo resume bem o novo livro do ex-presidente: um “manifesto efeagacista”. A obra fala de si mesmo e para si mesmo. Ela flutua e pisa pouco no chão. Parece mais um “textão” de Facebook.

“A esquerda diz que a questão central é reduzir as desigualdades. A direita diz que é aumentar a produtividade. Eu digo: temos de enfrentar o desafio de realizar uma coisa e outra, simultaneamente.”(PP. 132-133) Desafio você a achar alguma alma viva que discorde do ilustre professor.

O livro de FHC é mesmo uma junção de vários pensamentos que o ex-presidente teve sobre Brasil e mudança político e econômica no mundo.

Se observarmos a prática do PSDB, partido que ele foi eleito presidente por duas vezes, não parece que sua voz encontra eco.

Para FHC, é tudo “culpa do PT”. Desde o alto número de partidos fisiológicos no país (p. 62) até a corrupção, que antes era um “ato individual de conduta ou numa prática isolada de grupos políticos” e, com o PT se tornou prática de Estado (p. 30).

Quando apela para esse discurso ele se afasta da ponderação que tanto preza durante o livro. Há inúmeras críticas a uma direita autoritária ou que acredita que o mercado seja a saída de tudo no Brasil, mas não há, nas 238 páginas, nenhuma responsabilidade de seu partido nessa crise.

Nenhuma mea culpa tucana por ter incendiado a extrema-direita com seu discurso radical e depois ter perdido o controle do monstro que ajudou a criar. Nada sobre o apoio dos deputados do PSDB ao presidente Michel Temer nas duas tentativas de abertura de impeachment que sofreu. Nada sobre as pesadas denúncias contra Aécio Neves, candidato tucano à presidência em 2014.

Dilma e o pacto “Rooseveltiano”

A obra de Singer é a terceira de uma série sobre o fenômeno que ele mesmo batizou de Lulismo. Não me cabe aqui explicar o fenômenos que o professor levou mais de 1000 páginas até agora pra explicar, mas tentando resumir em poucas frases, o lulismo seria a opção feita pelo Partido dos Trabalhadores, com a Carta aos Brasileiros, de acreditar em uma aliança com a política hegemônica e um “reformismo fraco”. Ele resume muito bem o modo de governar da ex-presidenta que, ao contrário de Lula: quebra, mas não enverga.

Nesse terceiro livro, o professor começa a analisar a situação política desde 2011 quando, nas palavras dele, há uma tentativa de dar um passo à frente no reformismo fraco do lulismo com embates mais duros com setores como o elétrico e o bancário. Logo em seu primeiro ano de governo, Dilma tinha um o “sonho rosseveltiano” para o Brasil. O sonho “Roussefiano”, hoje sabemos, não deu certo.

Um dos pontos principais é quando o professor costura toda a relação do PMDB com o PT e o lulismo desde 2002. O então deputados José Dirceu havia costurado um apoio com o PMDB para 2002, que foi recusado por Lula, que preferiu a aliança com vários partidos pequenos e médios como o PP e o PR.

Dilma, no que Singer chamou de “pacto republicano”, começa a bater de frente com o peemedebismo quando nega a Eduardo Cunha a presidência de Furnas, os tira dos ministérios da Ciência e tecnologia e da Saúde e coloca um quadro técnico na presidência da Petrobras, Graça Foster, e exonera os diretores Renato Duque, Paulo Roberto Costa e Jorge Zelada, que vão aparecer anos depois no escândalo da Lava Jato.

Descontentes com os caminhos que o governo vinha tomando, grande parte do PMDB tentou articular um “volta Lula”, não em 2018, mas em 2014. Inclusive 40% votaram contra a nova aliança com Dilma para as eleições de 14. O fim dessa história, todos sabemos.

FHC desce ao chão

Voltando ao ex-presidente, acredito que Singer o tenha valorizado mais em seu livro do que ele mesmo. E em alguns momentos, quando finca os pés no chão, ele acerta. Na leitura que faz sobre as jornadas de junho de 2013, já na época, ele identifica muito bem que há uma massa da nova classe média em disputa e que a centro direita poderia capturar.

“Muita gente ‘de baixo’ ascendeu pelo esforço, pelo trabalho. Há um novo ethos feito de novos valores: estudo, mérito, competência” (P. 113).

Aí está uma grande chave pra tentar entender como os manifestantes de 2013 viraram uma massa de descontentes em 2015. Políticas públicas como o aumento real do salário mínimo, FIES, ProUni, junto com o período de bonança no cenário internacional permitiu que houvesse uma ascensão social de milhões de pessoas nos anos Lula e na primeira metade do primeiro governo Dilma. O debate se esse grande número de pessoas se tratava de uma nova classe média ou uma nova classe trabalhadora é mais do que simples retórica. Há uma disputa entre as duas teses.

De fato a “nova classe c” era de tudo um pouco. Mas não era nada, ao mesmo tempo. A classe média, como nos ensina Jessé Souza, é uma classe de privilégios. Por isso é um erro enorme apontar que há uma locomoção de classe somente pela renda mensal familiar. Mas também é um erro considerá-la uma classe trabalhadora clássica, pois ela é desorganizada. Logo, ela ganha valores de classe média, como bem explicou FHC no curto trecho acima, mas perde esse status material quando a primeira crise chega.

Como não houve nenhum processo de conscientização política dessa parcela por conta do projeto lulista, ela se vira contra o estado e a política tradicional. Claro que há mérito na ascensão dessas pessoas, mas houve também um forte incentivo estatal, que é negado na primeira oportunidade.

Mais leve que o ar

O que fica da comparação é o pé no chão. Singer tenta entender a realidade com a ajuda de dezenas de pensadores (inclusive FHC) e artigos de jornal. O lulismo talvez não tenha acabado, dada a liderança do ex-presidente em todas as pesquisas eleitorais mesmo preso, mas é um fenômeno que passa por um debate e novos desafios.

Como FHC é um pote até aqui de mágoas, como deixa claro quando se queixa de nenhum candidato tucano à presidência defendeu seu legado em nenhuma campanha (p. 125), ele não vê terreno firme pra fincar o pé. Isso dá a ele (e a seu livro) uma suposta liberdade para criticar todos. Mas acaba lhe faltando a substância.

Sentado no sofá de casa, FHC é imbatível!

*O Fora de Foco é um dos sites parceiros da Cia das Letras  mas as opiniões expressas são de responsabilidade do autor

Podcast Fora de Foco #17 – Bolsonaro e o auditório

Olá,

Está no ar a 17a edição do Podcast Fora de Foco!

Desta vez a entrevista é com os pesquisadores do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) e Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) que escreveram o artigo: Política, entretenimento e polêmica: Bolsonaro nos programas de auditório. Clique aqui para ler.

Eles analisam como as constantes idas do deputado e candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) moldou o seu discurso e seu apoio indo a programas de auditório como o Superpop e não fugindo de polêmicas.

Ouça o programa nas plataformas:

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Ou aqui:

Datena não será candidato de si mesmo

Por Bruno Pavan

O jornalista e apresentador José Luis Datena é pré-candidato ao senado pelo DEM de São Paulo e deve disputar uma vaga das duas que o estado (todos eles) tem em 2018.

Várias montagens já circulam na internet com fotos do filme Tropa de Elite II, quando o personagem Fortunato, carismático apresentador de um programa policialesco, sai como candidato a deputado estadual.

Em 2016, Datena já ensaiou ser candidato pelo Partido Progressista, à prefeitura de São Paulo. Acabou desistindo fazendo críticas ao ex-governador e ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf, deputado eleito pelo mesmo partido.

Talvez a maior qualidade de Datena, em um momento em que a classe política esteja tão desacreditada, seja essa: a falta de papas na língua. Ele é “um de nós” ali. Isso é mostrado muito bem na entrevista que deu, ainda em 202, ao jornalista Maurício Stycer, do UOL. Ele critica o deputado federal Celso Russomanno (PRB-SP) e diz que “é injusto em comunicador entrar na política”. No mesmo trecho da entrevista, porém, a autenticidade pode até pesar a favor dele quando diz que é “uma porcaria como administrador” em um momento que os administradores eleitos estão em descrédito tão alto.

Mas a falta das papas também pode ser prejudicial fazendo ele cair em armadilhas. Nesta semana ele gravou um vídeo de apoio ao pré-candidato tucano à presidência da república Geraldo Alckmin, quando o seu partido ainda negocia apoio com o pedetista Ciro Gomes. “Não sabia que era tão importante”, disse o apresentador à coluna de Mônica Bergamo.

Uma manifestação de apoio no principal colégio eleitoral brasileiro e um candidato que o partido ainda não decidiu apoiar é, sim, importante. Para um candidato como Ciro, que terá dificuldades em São Paulo, ter um palanque com Datena é uma boa carta na manga. Para Alckmin, que apesar de ser governador ainda está em maus lençóis no estado, também.

Outro ponto importante é que o apresentador tentará uma vaga no Senado, casa que tende a ser mais conservadora sendo as coisas mais difíceis de andar.

O jornalista, ainda na entrevista à Bergamo, disse que pode “joaquinzar”, ou seja, desistir da pré-candidatura assim como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa desistiu da sua ao Palácio do Planalto e confessa que está sendo pressionado pela família a desistir, discurso que lembra o do também apresentador Luciano Huck, quando não topou a empreitada rumo à presidência.

Datena precisa entender que mesmo com sua postura “antipolítica”, quando for candidato, terá que trabalhar em conjunto com seus pares de partido. Ele não é um “candidato de si mesmo” e terá que enfrentar palanques, posar pra fotos e dar declarações de apoio.

Podcast Fora de Foco #16 – Alberto Carlos Almeida

A décima sexta edição do Podcast Fora de Foco é com o sociólogo e professor Alberto Carlos Almeida que lançou, pela Editora Record, o livro “O Voto do brasileiro”.

 

Apesar da simplicidade do título, o livro não é tão simples quanto parece. Almeida destaca que o voto do brasileiro é resolvido por motivações econômicas. Por isso o nordeste, mais pobre, é pintado de vermelho e é a principal fatia do país que dá voto ao PT. Já São Paulo, mais desenvolvida, sempre dá a vitória ao PSDB.

 

Isso não se trata de uma jabuticaba brasileira, nos mapas riquíssimos que dão apoio ao livro, países mais desenvolvidos como Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália e Estados Unidos também se dividem de forma muito parecida. “É a economia, estúpido”, gritam os eleitores desses países.

 

O professor ainda acredita que a chamada “terceira via” ainda não tem força para ameaçar a hegemonia de PSDB e de PT em um segundo turno em 2018. Para sair da pasmaceira dos 7% (no cenário mais otimista), diz que o tucano precisa atacar Bolsonaro para fazê-lo “sangrar” em São Paulo. Já Marina Silva e Ciro Gomes, que aparecem na liderança na região nordeste sem Lula no páreo, aponta que assim que o PT se decidir pelo candidato, o Bolsa Família irá “liquidar” ambos na disputa.

 

Quer saber mais? Ouça o programa na íntegra…..   

A filha da Ralé e a filha do Maneco

Por Bruno Pavan

O sociólogo Jessé Souza cunhou a expressão “Ralé” para chamar, provocativamente, uma classe pobre no Brasil que está afastada de qualquer acesso, não só a bens materiais, saúde, educação e saneamento básico de qualidade; mas também de bens subjetivos, como afeto familiar e amor.

Souza é um dos críticos de uma intelectualidade que forjou o modo de ser do brasileiro, como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Darci Ribeiro. Mas sua pesquisa, presente em diversos livros, mas em especial no ótimo “A ralé brasileira – quem é e como vive” (Ed. Contracorrente), põe abaixo todos os teóricos recentes que encararam que o Brasil teria virado um país de classe média, por conta de expansão da classe c como massa consumidora.

Um dos exemplo citados de como a classe média consolidada não pode ser considerada maioria no país é o fato de, fugindo do economicismo que ele aponta, a chamada Ralé seja prejudicada na “competição social” que dá os melhores empregos, oportunidades e até casamentos por conta das relações sociais que viveram.

No capítulo chamado “A miséria do amor dos pobres”, Emanuelle Silva, Roberto Torres e Tábata Berg contam como o amor romântico idealizado pelas adolescentes Dina e Jane em nada se parece com a ideia de amor romântico da classe média.

Ambas foram criadas em famílias totalmente desestruturadas, com pais e avós violentos que ficavam dias sem aparecer em casa e, quando apareciam, bêbados, batiam nas esposas e não demonstravam nenhum tipo de amor pelas filhas.

O divórcio não era uma opção para as mães e avós porque, como é repetido em muitas passagens do livro, “mulher sozinha é poste pra cachorro mijar”. Algo que parece tão comum na classe média, se separar de alguém que te maltrata ou que simplesmente você não sente mais vontade de estar junto, é uma realidade totalmente distante na numerosa ralé brasileira.

Com isso, o casamento vira algo pragmático, onde se casa para evitar ser estuprada pelo padrasto, tio ou irmão mais velho. Nada tem a ver com o amor que conhecemos, do livros, dos filmes.

O sexo também é outro ponto problemático. Ao invés de algo que elas tenham uma relação tranquila, de se entregar pra quem se tem e quando se tem vontade, ele vira uma espécie de moeda de troca. As meninas sempre tentam manter um corpo escultural pra continuarem “gostosas”, uma virtude ambígua, segundo o artigo, porque a hiperssexualização de seu corpo continua sendo a principal, senão a única, ferramenta da sedução. E o sexo é tratado como moeda de troca: para que elas possam ter certeza de que seus parceiros não estão só interessados no sexo, elas jogam com o desejo dos parceiros evitando transar no início da relação.

O eco de um feminismo que chega cada vez mais forte aos meios de comunicação, não chega até elas por conta dessa questão. Tomo a liberdade de colocar um trecho do artigo abaixo:

“A liberação sexual só favorece uma relação de reciprocidade afetiva entre homem e mulher quando a socialização de classe (familiar) das mulheres trouxer como herança a experiência e a certeza de uma oferta afetiva independente de favores sexuais. Aí sim a fraternidade entre os amantes pode surgir de uma aceitação e de uma entrega mútua de um para o outro, que implica , ao contrário de altruísmo, a possibilidades de desejo terem livre vazão, ainda que de modo assimétrico (…)”

Quando terminei de ler o artigo, lembrei da música “Filha do Maneco” que está no último cd do cantor Criolo “Espiral de ilusões”.

No samba ele conta a história do narrador que vê pela janela “um avião/ do jardim a flor mais bela”, ou seja, uma mulher bonita, e logo se interessou por ela. Quando foi procurar informações na vizinhança, o Jurandir “lá do boteco” respondeu a ele que, rapidamente, que aquela era a “filha do maneco”. Após isso ele diz que o pai da moça “é conhecido” no morro. Além disso ele é “temido/ não é de brincadeira”.

Por esse pequeno trecho o ouvinte já descobre muitas coisas sobre a moça. Ela tem um pai “conhecido”, ao contrário das personagens do livro, que se não foram abandonadas pelos pais, tiveram neles sempre os piores exemplos possíveis. O fato do personagem não ter ido atrás da moça na hora, mas, sim, pedir informações sobre ela, também representa uma diferença entre intenções de alguém que quer “algo sério” de alguém que só quer objetificar o seu corpo.

A criação da musa inspiradora, apesar de ser um pouco melhor do que as das personagens reais do livro, também está longe de ser a ideal. Na música ela é “o avião”, “a flor mais bela” e a filha do Maneco. Apesar de uma voz, no início da música, querer saber seu nome, esse nunca é citado.

Mas em outro ponto fica claro o motivo do tratamento da personagem da música ser tão diferente de Dina e Jane. Maneco “já mandou recado pra comunidade/ Sua menina terminou a faculdade/ E não quer ver gavião sobrevoando o seu terreno/ E quem tentou, provou do seu veneno”

A mulher, por ter tido acesso a uma educação formal, tem mais atrativos e seu pai espera algum parceiro melhor pra ela. Ao contrário das duas adolescentes retratadas no livro. O pai superprotetor, se não é um exemplo ideal, sem dúvida é muito mais positivo do que as figuras masculinas omissas e violentas das vida real.

Podcast Fora de Foco #15 – Laura Carvalho e a Valsa Brasileira

Está no ar a 15a edição do Podcast Fora de Foco!
A entrevistada dessa vez é a economista e professora da FEA-USP Laura Carvalho.

Ela está lançando o seu primeiro livro “A Valsa brasileira – Do boom ao caos econômico” (Ed. Todavia)  – Clique aqui para comprar.

Na entrevista ela explica também que até mesmo um presidente de direita terá que reverter a PEC do congelamento de gastos aprovada durante o governo Michel Temer

Clica aí e ouça o programa na íntegra:

 

Donald Trump continua andando

“Você acerta Donald na cabeça e ele segue em frente. Nem percebe que foi atingido”, a frase é de Roger Ailes, ex-presidente da Rede de TV Fox News, ícone conservador estadunidense, sobre Donald Trump.

Fogo e Fúria – Por dentro da Casa Branca de Trump (Ed. Objetiva) , de Michael Wolff, é uma crônica de como, um candidato tratado como piada na maior parte do tempo da campanha eleitoral, conseguiu se eleger contra o status quo da política dos EUA.

(Primeiro, veja aqui como o cineasta Michael Moore, que está longe de ser um trumpista, elencou cinco motivos pelo qual Trump venceria a eleição meses antes dela ocorrer )

Em tempos de fake news e de pós-verdade, “seguir em frente”, como faz Trump, talvez é a principal qualidade que um político conservador deva ter.

O livro de Wolff pode ter exageros: alguém eleito presidente da maior potência mundial não pode ser um completo idiota, como o jornalista deixa claro em praticamente todas as frases do livro. Mas ele nos faz entender como a descrença na política e na “nova ordem mundial” pode produzir figuras como essa.

O ridículo político

Em diversas partes de seu livro, Wolff deixa claro que Trump é uma marca. Sua empresa não é do ramo imobiliário, esportivo, de lazer ou qualquer outro. Sua empresa é ele. E junto com isso vem, por exemplo, uma forma de pensar e resolver as coisas. O problema tem que ser resolvido, então, às favas com a diplomacia, faça-se uma lista países onde seus cidadãos, a partir de hoje, não podem mais viver o “sonho americano”. Abandone-se políticas públicas de imigração e constrói-se um muro na fronteira com o México. (e faça os mexicanos pagarem por ele)

A filósofa Márcia Tiburi lançou, em 2017, seu livro “O ridículo político” (Ed. Record). Nesse vídeo ela recorda do filósofo alemão, integrante da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin onde ele aponta que havia naquele momento uma estetização da política.

“Quando a gente fala de estética política nós estamos colocando em cena justamente o aparecer do poder. O modo como o poder se apresenta e como, ao se apresentar, toca na nossa sensibilidade. Como nos afeta e nos influencia o nível também dos nossos sentidos”, explica.

Trump não é burro! Mas talvez a construção de um presidente que não é nada além do que a sua marca seja uma das coisas mais americanas que existem.

Em certo momento, Wolff explica qual era a importância de Steve Bannon, que foi membro do Conselho de Segurança Nacional do governo Trump até abril de 2017.

“Simplesmente fazer tornou-se um princípio de Bannon, o antídoto generalizado para a resistência e para o tédio da burocracia do estabilishment. Foi o caos desses tipo de atitude que realmente levou as coisas a serem feitas”.

Na coletânia de artigos “Ocuppy – Movimentos de protesto que tomaram as ruas” (Ed. Boitempo), o filósofo e psicanalista Vladimir Safatle aponta:

“O pensamento, quando aparece, exige que toda a ação não efetiva pare, com o intuito de que o verdadeiro agir se manifeste. Nessas horas, entendemos como, muitas vezes, agimos para não pensar. Pensar de verdade significa pensar em sua radicalidade, utilizar a força crítica do pensamento. Quando a força crítica do pensamento começa a agir, todas as respostas se tornam possíveis e alternativas novas aparecem na mesa”.

A saída de Trump, mais que o não-pensamento, é o anti-pensamento. É o se manter em pé mesmo com uma bala na cabeça. A urgência do ato em oposição ao pensamento é a mentira de que não há outro modo de fazer as coisas.

Por isso a confiança em instituições e ideias pouco democráticas como a família, a igreja e a polícia. Por isso a oposição à política e a virtude nos gestores. Estados tem que ser gerenciados como empresas privadas.

Ao contrário do que disse Francis Fukuyama depois do fim da URSS: parece que a História vai começar outra vez.

A favor do futebol moderno

Eu frequento estádios de futebol desde o longínquo Corinthians 3 x 2 União de Araras, no campeonato Paulista de 2001. Fiquei no famoso “chiqueirinho”, a última parte do U do Pacaembu, de frente para a torcida visitante.

De lá pra cá aprendi a ver o futebol como algo muito grande e importante. Um lugar de alegre e nervoso ao mesmo tempo, onde passei por grandes conquistas e derrotas humilhantes.

Desde sempre eu via a importância de quem estava ali, fazendo parte daquelas festa junto comigo. Pessoas diferentes, brancas, pretas, pobres, não tão pobres. Os ricos estavam em outro setor do estádio porque, no Pacaembu, eu quase sempre estava de arquibancada verde ou tobogã.

A Copa do Mundo de 2014 e as novas arenas acenderam um debate bastante importante, e que já vinha acontecendo mesmo antes do evento: os pobres não estavam mais nos estádios. Não como antes.

O Bussiness dos clubes, a necessidade de ganhar mais com o futebol foi ganhando espaço e os mais pobres, perdendo. Isso era visível nos estádios e, com a construção do Itaquerão, isso foi ficando mais visível.

Isso abriu espaço pra uma galera se dizer “contra o futebol moderno”, como uma espécie de resistência popular contra o que estava acontecendo nas arenas. Se protestava, principalmente, contra o preço dos ingressos. Esse movimento era (e é) bastante justo e necessário.

Acontece que a coisa contra o futebol moderno se esvaziou. Virou um slogan, como quase tudo na sociedade capitalista e de consumo. Os publicitários viram que, sexo e poder vendem, mas militância também vende. Ou melhor, como disse Frank Underwood, personagem do Kevin Spacey no House Of Cards, “tudo tem a ver com sexo, menos sexo. Sexo tem a ver com poder”.

Hoje me deparei com uma campanha da Kaiser (quem toma Kaiser, pelo amor de Deus?) em que eles chamaram os ex-jogadores Vampeta, Túlio e Dadá Maravilha pedindo a volta do “futebol raiz”. Quando marca de cerveja começa a abraçar uma causa, parceiro, tem caroço nesse angu. O nome do programa é “Pela volta do futebol com bolas” se o machismo não está gritando na sua frente agora, repense seus posicionamentos.


Apesar de ser justo, eu sempre achei esse discurso de “ódio ao futebol moderno” um pouco enfadonho: na maioria das vezes eu via ele partindo de neo-torcedores que nunca pegaram chuva no Pacaembu em um jogo de Paulista e precisou almoçar espetinho na porta do estádio e que agora veem com um discurso paternalista de “proteção” aos mais pobres. De minha parte, eu vi dois jogos do Corinthians no Pacaembu esse ano e minha saudade já foi muito bem matada, obrigado. (Além de dezenas de jogos por lá, tenho a fachada do Paulo Machado de Carvalho tatuada no braço)

Esse discurso de “futebol raiz” esconde uma outra coisa: um desejo conservador de que a arquibancada do estádio vire, novamente, terra de ninguém onde machismo e homofobia estão liberados. Nunca achei que futebol fosse programa pra família feliz de margarina. Futebol é paixão e um pouquinho de entretenimento. Passeio com a família é em parque, shopping, museu, restaurante etc etc etc. Mas esse debate pra tornar o estádio um lugar sem racismo, machismo, homofobia e xenofobia é muito válido.

O futebol anda cheio de “viadagem” reclamam muitos que recém abraçaram o slogan contra o “futebol moderno”.

De minha parte, escrevi recentemente a conversa que eu tive com um mendigo na estação Sé do Metrô, que prometeu que se o Corinthians fizesse 5 a 0 no SPFC ele iria tomar duas garrafas de Corote. Menos de um mês depois, fui convidado pra assistir, de camarote, o segundo jogo da final do campeonato paulista contra o Palmeiras.

Quero sim os mais pobres de volta aos estádios, quero bandeiras, sinalizadores, instrumentos, cerveja etc etc etc. Mas é uma bobagem tamanha abraçar esse slogan que estão querendo fazer a gente repetir.