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O nazismo e a masculinidade

Por Bruno Pavan

Por mais que a gente veja mulheres ganhando cada vez mais espaço em governos, ganhando eleições, ocupando cargos em ministérios e no setor privado, óbvio que a sociedade ainda precisa melhorar, e muito, para uma equiparação de ato de gênero.

No Brasil as mulheres ganham 77,5% dos homens em média. R$ 2410 para eles contra R$ 1868 para elas, de acordo com o IBGE. Fora o fato de que mulheres morrem somente por serem mulheres.  

Apesar disso tudo, elas vem ganhando cada vez mais espaço. E isso nos deixa (homens brancos) raivosos. Eleições de Donald Trump e Jair Bolsonaro, notórios machistas e misóginos, são grandes exemplos disso.

Assista o vídeo dos Galãs Feios sobre a masculinidade tóxica

Essa saída autoritária não acontece só por isso claro. A piora nas condições econômicas e sociais tem muito peso. Mas o machismo e a misoginia e a vontade de retorno a uma sociedade em que homens eram os provedores de suas famílias  sempre aparece.

Na ascensão do pensamento conservador que levou ao nazismo isso estava presente. Sempre ligado ao discurso de degeneração dos valores do estado.

(Se quiser saber como os juízes também colaboraram com isso, clique aqui)

Em seu livro A chegada do Terceiro Reich (Ed. Crítica), Richard J Evans deixa claro como esse discurso estava presente no caldo social, surgido no pós primeira guerra, que levou ao nazismo alemão anos mais tarde.

Primeiro, a frustração da derrota da guerra deixou os alemães frustrados e humilhados. O discurso de que as tropas haviam levado uma “punhalada nas costas” foi muito bem difundido na época. O fracasso da República de Weimar (tratarei disso em outra oportunidade), que não conseguiu garantir estado de bem estar que prometeu, junto com as pioras econômicas, também foi um ingrediente.

Mas os homens que voltaram humilhados pela derrota na guerra e não tinham mais dinheiro nem condições de prover sua família foram os grandes incentivadores da guinada autoritária. E os discursos vocês devem conhecer muito bem!

Economicamente a Alemanha pós guerra era muito diferente e diversa. Em 1918, 36% da população ativa era formada por mulheres. Evans aponta que “havia uma crise de masculinidade discernível na Alemanha antes de guerra”.

“O aumento da competição feminina por empregos masculinos, e um medo mais geral entre nacionalistas de que o vigor na Alemanha estivesse se exaurindo pela queda no índice de natalidade que se havia estabelecido por volta da virada do século, fundiram-se com ansiedades culturais mais abrangentes para produzir um repuxo que já estava se tornando evidente antes de 1914. Havia uma crise de masculinidade discernível na Alemanha antes de guerra, quando nacionalistas e pan-germânicos começaram a clamar para que as mulheres voltassem para casa e para a família a fim de cumprir seu destino de produzir e educar mais crianças para a nação”, conta na página 177.

Com essa maior independência financeira, movimentos feministas nasceram questionando outros pontos como sufrágio, liberdade sexual e informação sobre prevenção de gravidez. “A liberdade sexual desfrutada de modo evidente pelos jovens nas grandes cidades era um alvo particular de desaprovação da geração mais velha (…) os críticos ligavam essas tendências com aquilo que viam como iminente declínio da família”. Se as mulheres não estavam em casa, a balbúrdia reinava!

No âmbito cultural, a chegada do jazz norte-americano ao país era uma ameaça aos conservadores. Nessa questão se juntava o racismo contra o negro e sua arte popular e “menor” com o ambiente que se formava em volta dele, de crítica a uma velha forma de se viver.

“As turnês de big bands e dançarinas, como as Tiller Girls, animavam a cena de Berlim, enquanto os mais audaciosos podiam passar a noite em um clube como o Eldorado, ‘um supermercado do erotismo’, conforme o chamou o compositor popular Friedrich Hollaender, e ver Anita Berber executar danças pornográficas com nomes como cocaína e morfina para uma audiência liberalmente salpicada de travestis e homossexuais, até sua morte prematura em 1928 por abuso de drogas. Os shows de cabaré acrescentavam a tudo isso um elemento de sátira política mordaz contra o autoritarismo, e enfureciam os pomposos conservadores com piadas sobre os ‘sentimentos nacionalistas e religiosos de cristãos e alemães’, conforme um deles reclamou encolerizado”.

Todo esse cenário de ódio, ressentimento e desesperança, muito estruturado em cima do machismo, da misoginia e da homofobia de grande parte da população enfraqueceu a democracia.

“Os alemães esqueceram como odiar. A queixa feminina tomou o lugar do ódio masculino”, apontou Ernst Röhm, um dos primeiros seguidores de Adolf Hitler.   

Dia sem imposto MESMO

Por Bruno Pavan

Não é de hoje que existe a moda do “Dia sem imposto”.

Começou com os postos de gasolina, que há anos marcam uma data para vender combustível com o preço como se não houvessem tributos a se pagar para andar com o seu carrinho. Filas quilométricas se formam na frente dos que aderem ao “protesto” by classe média.

Esse ano, durante meu entretenimento no youtube, fui “impactado” por mais um desses dias. Dessa vez foi um site de venda de vinhos que prometia te deixar embriagado sem pagar imposto.  

Quem passa pelo centro de São Paulo, em frente à Associação Comercial, já deve conhecer o “impostômetro” que indica o quanto o brasileiro já pagou de imposto no ano.

Uma das pautas certas dos sites de notícias no país é mostrar quando o índice bate algum número redondo (1 bilhão, 1 trilhão), todos sugados pelo estado malvadão…

Aproveitando toda essa movimentação e indignação aos tributos, sugiro um outro tipo de protesto para esse dia.

Que os hospitais públicos e postos de saúde fiquem fechados durante todo o dia. Que as escolas públicas não abram. Que a Polícia Militar deixe de rodar pela rua. Que a Polícia Civil pare as investigações. Que tratores destruam os asfaltos das ruas. Que ônibus e metrôs deixem de circular.

É um só por um diazinho!!!!  

Os juízes e a ascensão da direita pré-Hitler na Alemanha

A chegada do Terceiro Reich, do historiador Richard J. Evans, conta como se formou o caldo social, político e econômico do que foi se tornar o nazismo.

Uma das receitas desse caldeirão eram os juízes e como eles viam a República (e a esquerda) como inimiga.

Leiam o relato de Evans:

“Depois de anos, de fato décadas, tratando os críticos social-democratas e liberais de esquerda do governo do kaiser como criminosos, os juízes ficaram relutantes em reajustar suas atitudes quando a situação política mudou. Sua lealdade estava não com a nova república, mas com o mesmo ideal abstrato do Reich a que seus pares no corpo de oficiais continuavam a servir ; um ideal construído largamente sobre memórias do sistema autoritário do Reich bismarckiano.

Talvez fosse inevitável que, nos numerosos julgamentos políticos surgidos dos profundos conflitos políticos dos tempos de Weimar, eles ficassem esmagadoramente a favor dos infratores de direita que também alegavam estar agindo em nome daquele ideal e se animassem em processar aqueles da esquerda que não o faziam.

Na metade da década de 1920, o estatístico Emil Julius Gumbel publicou números mostrando que 22 assassinatos políticos cometidos por agressores de esquerda do final de 1919 à metade de 1922 levaram a 38 condenações, inclusive dez execuções e sentenças de prisão de 15 anos em média por pessoa. Em contraste, os 354 assassinatos políticos que Gumbel computou como cometidos por agressores de direita no mesmo período levaram a 24 condenações, nenhuma execução e sentenças de prisão apenas quatro meses em média por pessoa; 23 assassinos de direita que confessaram seus crimes foram absolvidos pelos tribunais (…)

(…) Em 1923, quatro homens ganharam em sua apelação à Corte do Reich, a autoridade judicial suprema do país, estabelecida há muito, contra uma sentença de três meses de prisão para cada um por gritarem as seguintes frases em um encontro de Ordem Jovem Alemã, um grupo jovem de direita, em Gotha: ‘Não precisamos de um república de judeus, fora com a república de judeus!’ No julgamento, a Corte do Reich declarou de modo um tanto convincente que o significado daquelas palavras não era tão claro:

‘Eles poderiam referir-se à nova ordem legal e social na Alemanha, em cujo sistema a participação de judeus alemães e estrangeiros era destacada. Poderiam referir-se também ao poder excessivo a é influência excessiva que um grupo de judeus, que é pequeno em relação à população total, na realidade exerce na visão de grandes comadas do povo… Não ficou explicitamente estabelecido que os acusados gritaram insultos à forma de Estado constitucionalmente ancorada no Reich, apenas que gritaram insultos à presente forma do Estado do Reich. Desse modo, a possibilidade de um erro legal não está excluída’.

A distinção entre dois tipos de Estado feita pela Corte do Reich e a insinuação de que a República de Weimar era apenas um tipo de aberração temporária que não estava ‘constitucionalmente ancorada’ mostrou muito claramente com quem estava a verdadeira lealdada dos juízes”

Celso Rocha de Barros: Doria implode o PSDB raiz

João Doria emplacou seu candidato, o ex-ministro de Michel Temer Bruno Araújo como presidente do PSDB neste final de semana.

Isso significa que nada mais separa, dentro do partido, Doria do sonho presidencial.

E com isso ele acaba com o pouco de Social Democrata que ainda havia no partido.

Leia a coluna de Celso Rocha de Barros na Folha de S.Paulo nesta segunda (3)

 

O Pós-PSDB

O divórcio entre o PSDB e suas origens na esquerda foi assinado

A esquerda não tem um nome pra 2022. E nem deveria ter

Por Bruno Pavan

O governo Jair Bolsonaro conseguiu atingir números de reprovação acima de qualquer outro nos primeiros 6 meses de governo.

36,2% considera a sua (indi) gestão ruim ou péssima de acordo com pesquisa do Atlas Político. As ruas já mandaram o recado de que estão a todo vapor , e em maior número, para atacar o seu governo. A economia não dá sinais de melhora. Os projetos do governo não andam no Congresso Nacional.

O candidato que conseguiu chegar ao segundo turno contra Bolsonaro foi o petista Fernando Haddad. Mesmo partido que elegeu a maior bancada da Câmara dos deputados, empatada com a do PSL do presidente. Vendo as coisas por esse lado, a notícia seria a melhor possível para o PT e a oposição a esquerda, não?

NÃO.

Tanto o PT quanto o PDT de Ciro Gomes estão em pé de guerra. Ciro não perde uma oportunidade de se colocar, não como pós PT, mas como anti-PT em entrevistas que dá. O importante encontros dos policiais anti-fascistas terminou em um lamentável bate boca entre Gomes e a deputada petista Maria do Rosário.  

Claro que ainda é muito cedo para 2022. Mas não é cedo para as eleições municipais de 2020, que podem ditar a temperatura e o humor do eleitorado. Mas não há um projeto para as eleições.

Por quê?

A esquerda, sejamos francos, saiu esfacelada dessa eleição. Fora do nordeste, não ganhou um estado brasileiro sequer. Ainda perdeu grandes nomes no Senado. A mágoa de Ciro e Marina Silva com o PT acaba com qualquer possibilidade de uma união “republicana”  para 2022.

O problema não é nem a agenda eleitoral, a esquerda precisa recuperar uma agenda positiva de propostas antes de pensar em subir a rampa novamente.

Os protestos pela educação podem até ter dado um bom pontapé e indicar um caminho para furar a bolha. Mas é só um começo.

Eu entendo a dificuldade de tentar dar o passo à frente quando o centrão e Rodrigo Maia são os principais aliados do “republicanismo tupiniquim”. Fora que se colocar como oposição combativa tão pouco tempo depois de sair do poder e com o principal líder preso também não ajuda.

Ter um nome forte na urna tem que andar junto com uma agenda de mobilizações orgânicas, alinhadas com uma visão de país clara, progressista e igualitária.

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

Bolsonaro se isola no radicalismo

Por Bruno Pavan

Não é fácil analisar o que aconteceu nesse último domingo (26) pelas ruas de mais de 150 cidades do país. Manifestações a favor do governo de Jair Bolsonaro foram convocadas para defender um governo que já começa capenga.

(Os agentes do mercado, ao que parece, já estão pulando fora)

As manifestações não foram um fracasso. Nem um sucesso. O governo conseguiu tirar gente de casa num domingo ensolarado mesmo que em menor número que os estudantes e professores saíram no último dia 15 em defesa da educação pública. Mas não conseguiu agregar ninguém fora dos 30% que consideram o governo ótimo ou bom.

Ele ficou no radicalismo.

Nem todos os eleitores de Bolsonaro fazem parte desse núcleo duro que está com ele desde que ganhou notoriedade nos tempos de CQC. Alguns votaram apenas para tirar o PT. Outros confiando que a economia iria melhorar. Os primeiros, que vêem comunistas debaixo da cama, continuam apoiando o capitão-presidente. Já o outro grupo não.

Nesse aspecto, a manifestação do dia 15 conseguiu furar a bolha. Os verde-e-amarelos, não.

Mas há algo mais para se analisar nesse debate: o apoio, não ao presidente, mas aos ministros Sergio Moro e Paulo Guedes.

A Folha de S.Paulo, malandramente, como diz o funk, omitiu o nome do presidente na principal manchete dessa segunda-feira (27). “Atos apoiam Guedes e Moro e criticam Maia e Centrão”. Omite o presidente, que entre outras barbaridades chama os estudantes e professores nas ruas de “idiotas úteis”, e foca nos “cheirosos”.

O Valor publica uma pesquisa, coordenada pelo professor da USP Pablo Ortellado, em que aponta que 75% dos manifestantes em São Paulo foram às ruas em favor da reforma da previdência. Sem uma pesquisa que diz quem são esses manifestantes, idade, cor da pele e classe social, isso não significa muita coisa.

A tentativa da imprensa é clara: descolar Guedes e Moro de Bolsonaro. O primeiro pois defendê-lo é defender a “necessária”, na visão da maioria da grande imprensa, reforma da previdência. O segundo é defender o “legado da Lava Jato”.

Por último mas não menos importante, as manifestações não ajudaram em nada na melhoria da relação do governo com o Congresso Nacional.   

Obs: aqui dados completos da pesquisa completa de Ortellado em que mostra que 65% dos manifestantes eram homens; 78% acima dos 35 anos; 66% brancos e 54% recebem mais de cinco salários mínimos.

Quem vai pra rua dia 26. E quem vai ficar em casa

Jair Bolsonaro manteve a temperatura social alta nos primeiros cinco meses de governo. Manteve por estratégia eleitoral e política. Ele tem que manter suas bases aquecidas e mobilizadas porque, de fato, pouco fez até agora no poder a não ser lutar contra os moinhos de vento do socialismo, marxismo cultural e a “extrema imprensa”.

A estratégia ficou clara no corte (ou contingenciamento, como quiser) de 30% do orçamento federal na educação. O governo Bolsonaro não foi o primeiro a cortar na educação. Mas foi o primeiro a ter orgulho disso. Tanto na mentira contada pelo ministro Abraham Weintraub, que disse que cortaria somente de universidades que promovessem “balbúrdia”, quanto na declaração do próprio presidente que chamou os milhões de manifestantes nas ruas no último dia 15 de “idiotas úteis”.

Isso tudo está tendo reflexos nos índices de aprovação da (indi) gestão, que nunca foram tão baixas em tão pouco tempo de governo. Some-se a isso a falta de habilidade de Bolsonaro e seu staff em negociar com a Câmara e o Senado e as previsões de crescimento econômico abaixo do que se esperava e temos um capitão nas cordas.

No próximo domingo (26) o governo verá o que esperar de sua base eleitoral. Estão convocadas manifestações em todo o país em defesa do governo e contra o Congresso Nacional e o Supremos Tribunal Federal.

Quem vai, afinal?

O núcleo duro mais a direita (que periga se afogar no oceano atlântico). Os chamados Olavetes. Olavo de Carvalho, “filósofo” e guru ideológico de figuras importantes dentro do governo, inclusive o zero dois Eduardo Bolsonaro,  disse que ficará quietinho a respeito da política nacional. Carvalho trucou. Sabe que ainda tem influência no governo. Se as manifestações de domingo forem um sucesso, ele será o grande vencedor, derrotando os militares que não querem ir pras ruas. Se não forem, ele tentará sair por cima dizendo que não tem nada a ver com isso. Mas tem.

O Círculo Militar também convocou para as manifestações. 

Quem não vai?

O presidente, que disse que ia, não vai mais. O MBL, grande articulador dos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff, também não vai e está em atrito com o governo. O presidente do PSL, partido do presidente, não vai e disse que a ideia não é boa.

Outro setor que ficará em casa no próximo dia 26 é o tal mercado. O Ministro da economia Paulo Guedes sabe que precisa do Congresso Nacional para aprovar sua reforma da previdência. Se a temperatura subir ainda mais, seu trabalho pode se complicar. A Fiesp também não está disposta a colocar seu pato na rua. Seu presidente, Paulo Skaf, surfou no Bolsonarismo, não conseguiu sequer ir ao segundo turno na disputa pelo governo de São Paulo, e zarpou.

Por último e não menos importante, Rodrigo Maia está magoado com o governo. Sabe que a Câmara, casa que ele preside, será um dos principais alvos dos protestos. Bolsonaro e sua equipe os tratam como bandidos. O líder do governo na casa, Major Victor Hugo, compartilhou, via WhattsApp uma imagem mostrando que, para negociar com o Congresso, só com um saco de dinheiro.  O governo pode ter vitórias na casa até domingo, se a tal reforma administrativa for aprovada e o COAF voltar para as mãos do Ministro da Justiça Sergio Moro. Mas o recado está dado.

 

Difícil prever o que vai acontecer. Mas não é um bom sinal um governo que precisa mobilizar a sua base de apoio com menos de seis meses no poder. Quando deveria estar em lua de mel com o país. Fosse um jogo de poker, Bolsonaro está dando um “all-in” cedo demais. Pode ganhar uma pequena sobrevida se tiver um jogo bom. Mas valerá à pena?

A depressão, a zoeira e o “futebol raiz”

Por Bruno Pavan

No último dia 12 de maio o Santos venceu o Vasco pelo campeonato brasileiro de 2019 por 3 a 0. Um dos grandes personagens daquela partida foi o goleiro Sidão. Conhecido das torcidas de São Paulo e Botafogo, ele falhou no gol que abriu a contagem para o time santista.

Seria apenas uma falha de um goleiro se não fosse um agravante. A Rede Globo estabelece uma votação, em todos os jogos que ela transmite, em que o internauta escolhe o melhor jogador da partida. Uma das iniciativas da transmissão de interagir com o (a) espectador (a). A votação foi “invadida” por internautas dispostos a alterar a enquete. O que era pra ser a escolha do melhor do jogo acabou sendo uma ironia com Sidão, que foi mal, e mesmo assim venceu a votação com 90% dos votos. A repórter Júlia Guimarães entregou o irônico troféu ao goleiro.

Um dos principais canais que mobilizaram essa votação foi o “Desimpedidos”. “Zoeira sem limites”, diz seu slogan. Isso obviamente uma bobagem enorme. Claro que a zoeira tem que ter limites e nós já deveríamos saber disso. E quem mais deveria saber disso é a Rede Globo.  

Deixo aqui o texto do jornalista Maurício Stycer sobre o ocorrido.

“A emissora está corretíssima em buscar formas de interação com o público cada vez mais engajado nas redes sociais, mas não pode esquecer que tem uma responsabilidade social expressa, inclusive, na legislação. Além disso, é preciso usar o bom senso. Nem toda “zoeira da internet” é sem consequências. Ao obrigar a repórter Julia Guimarães a entregar o troféu de “craque do jogo” para Sidão, a Globo o humilhou em público. Pareceu um quadro do finado “Pânico”, um programa de humor desabusado (…)

A reflexão vale para toda a mídia tradicional, mas é especialmente dirigida à televisão. Se abraçar esta “zoeira” sem filtrá-la, a TV vai perder a sua identidade”

No segundo episódio do Podcast “Muito mais que futebol”, o jornalista Lúcio de Castro também abordou o tema de uma maneira bastante bacana e original. Para ele, a falta de diversidade nas redações colabora pra que isso aconteça. Ouça o podcast aqui.

Depressão no futebol

Um outro tema que pode ser levantado a partir disso é como jogadores de futebol e esportistas de alto nível não estão livres de problemas psicológicos.

O próprio Sidão, humilhado em rede nacional em pleno dia das mães, já havia confessado problemas que passou por uma depressão por conta de seu relacionamento com sua mãe, que estava sendo homenageada em sua camisa no fatídico jogo. 

“Sentia vontade de morrer mesmo, mas eu não tinha coragem de cometer suicídio. Então o que eu fazia era ir pra rua caçar confusão pra ver se alguém entrava na minha e me matasse”

Outro que passou pelo mesmo problema recentemente foi o atacante Nilmar. O ótimo jogador com passagens por Internacional, Corinthians, Oriente Médio e seleção brasileira rescindiu seu contrato com o Santos por não conseguir atuar por enfrentar uma forte depressão.

Em entrevista ao ex-jogador e hoje comentarista Roger Flores, Nilmar apontou que teve que se medicar para superar o problema. “Eu lembro dos meus filhos chegando do colégio e eu sem forças para brincar com eles. Um dos principais motivos pra querer voltar era para os meus filhos, que já estavam maiores, verem o pai jogar”, desabafou.

 

Mas talvez o caso mais famoso e marcante é o de Adriano Imperador. Quando estava no auge de forma física e técnica na Inter de Milão, o atacante perdeu o pai e nunca mais conseguiu repetir o bom futebol que o levou para a seleção brasileira.  

Em entrevista à Pedro Bial, ele confessa que sua carreira não foi tudo que poderia ter sido.  “Você se sente orgulhoso?, pergunta Bial. “Por inteiro não, porque eu não consegui completar a minha carreira por inteiro. Aconteceram algumas coisas que me fizeram meio que afastar do futebol. Então, posso dizer que ficou na metade”, disse Adriano emocionado.

Na minha opinião o discurso do futebol é jogo para homens atrapalha muito um debate sério sobre diversas questões. A depressão é uma delas. O discurso do “futebol raiz” que exalta figuras folclóricas do futebol que bebem, fogem da concentração, não treinam e pegam todas as mulheres atrapalha pensarmos que o futebol mudou, a sociedade mudou e hoje temos outros pontos a abordar.

Não basta comparar um jogador dessa geração com o de outras para dizer “mas naquela época não tinha isso“, ou “esses caras ganham demais, não podem ficar com frescura”. O caso de Sidão é emblemático. Ele não é um grande goleiro. Joga num time gigante e deve, sim, ser cobrado. Mas acho que o problema pode não ser só técnico, pode ser psicológico também.  

Podcast Fora de Foco #29 – Mulher, Estado e Revolução com Diana Assunção

E ae, gente, tudo bem? Está no ar a 29a edição do Podcast Fora de Foco que dessa vez é com a Diana Assunção para falar sobre o livro “Mulher, Estado e Revolução” da Wendy Goldman. Quer saber como a questão da família, casamento e filhos eram vistas na Rússia pós-revolução de 1917? Então dê o play ae 🙂

 

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