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Podcast Fora de Foco #15 – Laura Carvalho e a Valsa Brasileira

Está no ar a 15a edição do Podcast Fora de Foco!
A entrevistada dessa vez é a economista e professora da FEA-USP Laura Carvalho.

Ela está lançando o seu primeiro livro “A Valsa brasileira – Do boom ao caos econômico” (Ed. Todavia)  – Clique aqui para comprar.

Na entrevista ela explica também que até mesmo um presidente de direita terá que reverter a PEC do congelamento de gastos aprovada durante o governo Michel Temer

Clica aí e ouça o programa na íntegra:

 

Donald Trump continua andando

“Você acerta Donald na cabeça e ele segue em frente. Nem percebe que foi atingido”, a frase é de Roger Ailes, ex-presidente da Rede de TV Fox News, ícone conservador estadunidense, sobre Donald Trump.

Fogo e Fúria – Por dentro da Casa Branca de Trump (Ed. Objetiva) , de Michael Wolff, é uma crônica de como, um candidato tratado como piada na maior parte do tempo da campanha eleitoral, conseguiu se eleger contra o status quo da política dos EUA.

(Primeiro, veja aqui como o cineasta Michael Moore, que está longe de ser um trumpista, elencou cinco motivos pelo qual Trump venceria a eleição meses antes dela ocorrer )

Em tempos de fake news e de pós-verdade, “seguir em frente”, como faz Trump, talvez é a principal qualidade que um político conservador deva ter.

O livro de Wolff pode ter exageros: alguém eleito presidente da maior potência mundial não pode ser um completo idiota, como o jornalista deixa claro em praticamente todas as frases do livro. Mas ele nos faz entender como a descrença na política e na “nova ordem mundial” pode produzir figuras como essa.

O ridículo político

Em diversas partes de seu livro, Wolff deixa claro que Trump é uma marca. Sua empresa não é do ramo imobiliário, esportivo, de lazer ou qualquer outro. Sua empresa é ele. E junto com isso vem, por exemplo, uma forma de pensar e resolver as coisas. O problema tem que ser resolvido, então, às favas com a diplomacia, faça-se uma lista países onde seus cidadãos, a partir de hoje, não podem mais viver o “sonho americano”. Abandone-se políticas públicas de imigração e constrói-se um muro na fronteira com o México. (e faça os mexicanos pagarem por ele)

A filósofa Márcia Tiburi lançou, em 2017, seu livro “O ridículo político” (Ed. Record). Nesse vídeo ela recorda do filósofo alemão, integrante da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin onde ele aponta que havia naquele momento uma estetização da política.

“Quando a gente fala de estética política nós estamos colocando em cena justamente o aparecer do poder. O modo como o poder se apresenta e como, ao se apresentar, toca na nossa sensibilidade. Como nos afeta e nos influencia o nível também dos nossos sentidos”, explica.

Trump não é burro! Mas talvez a construção de um presidente que não é nada além do que a sua marca seja uma das coisas mais americanas que existem.

Em certo momento, Wolff explica qual era a importância de Steve Bannon, que foi membro do Conselho de Segurança Nacional do governo Trump até abril de 2017.

“Simplesmente fazer tornou-se um princípio de Bannon, o antídoto generalizado para a resistência e para o tédio da burocracia do estabilishment. Foi o caos desses tipo de atitude que realmente levou as coisas a serem feitas”.

Na coletânia de artigos “Ocuppy – Movimentos de protesto que tomaram as ruas” (Ed. Boitempo), o filósofo e psicanalista Vladimir Safatle aponta:

“O pensamento, quando aparece, exige que toda a ação não efetiva pare, com o intuito de que o verdadeiro agir se manifeste. Nessas horas, entendemos como, muitas vezes, agimos para não pensar. Pensar de verdade significa pensar em sua radicalidade, utilizar a força crítica do pensamento. Quando a força crítica do pensamento começa a agir, todas as respostas se tornam possíveis e alternativas novas aparecem na mesa”.

A saída de Trump, mais que o não-pensamento, é o anti-pensamento. É o se manter em pé mesmo com uma bala na cabeça. A urgência do ato em oposição ao pensamento é a mentira de que não há outro modo de fazer as coisas.

Por isso a confiança em instituições e ideias pouco democráticas como a família, a igreja e a polícia. Por isso a oposição à política e a virtude nos gestores. Estados tem que ser gerenciados como empresas privadas.

Ao contrário do que disse Francis Fukuyama depois do fim da URSS: parece que a História vai começar outra vez.

A favor do futebol moderno

Eu frequento estádios de futebol desde o longínquo Corinthians 3 x 2 União de Araras, no campeonato Paulista de 2001. Fiquei no famoso “chiqueirinho”, a última parte do U do Pacaembu, de frente para a torcida visitante.

De lá pra cá aprendi a ver o futebol como algo muito grande e importante. Um lugar de alegre e nervoso ao mesmo tempo, onde passei por grandes conquistas e derrotas humilhantes.

Desde sempre eu via a importância de quem estava ali, fazendo parte daquelas festa junto comigo. Pessoas diferentes, brancas, pretas, pobres, não tão pobres. Os ricos estavam em outro setor do estádio porque, no Pacaembu, eu quase sempre estava de arquibancada verde ou tobogã.

A Copa do Mundo de 2014 e as novas arenas acenderam um debate bastante importante, e que já vinha acontecendo mesmo antes do evento: os pobres não estavam mais nos estádios. Não como antes.

O Bussiness dos clubes, a necessidade de ganhar mais com o futebol foi ganhando espaço e os mais pobres, perdendo. Isso era visível nos estádios e, com a construção do Itaquerão, isso foi ficando mais visível.

Isso abriu espaço pra uma galera se dizer “contra o futebol moderno”, como uma espécie de resistência popular contra o que estava acontecendo nas arenas. Se protestava, principalmente, contra o preço dos ingressos. Esse movimento era (e é) bastante justo e necessário.

Acontece que a coisa contra o futebol moderno se esvaziou. Virou um slogan, como quase tudo na sociedade capitalista e de consumo. Os publicitários viram que, sexo e poder vendem, mas militância também vende. Ou melhor, como disse Frank Underwood, personagem do Kevin Spacey no House Of Cards, “tudo tem a ver com sexo, menos sexo. Sexo tem a ver com poder”.

Hoje me deparei com uma campanha da Kaiser (quem toma Kaiser, pelo amor de Deus?) em que eles chamaram os ex-jogadores Vampeta, Túlio e Dadá Maravilha pedindo a volta do “futebol raiz”. Quando marca de cerveja começa a abraçar uma causa, parceiro, tem caroço nesse angu. O nome do programa é “Pela volta do futebol com bolas” se o machismo não está gritando na sua frente agora, repense seus posicionamentos.


Apesar de ser justo, eu sempre achei esse discurso de “ódio ao futebol moderno” um pouco enfadonho: na maioria das vezes eu via ele partindo de neo-torcedores que nunca pegaram chuva no Pacaembu em um jogo de Paulista e precisou almoçar espetinho na porta do estádio e que agora veem com um discurso paternalista de “proteção” aos mais pobres. De minha parte, eu vi dois jogos do Corinthians no Pacaembu esse ano e minha saudade já foi muito bem matada, obrigado. (Além de dezenas de jogos por lá, tenho a fachada do Paulo Machado de Carvalho tatuada no braço)

Esse discurso de “futebol raiz” esconde uma outra coisa: um desejo conservador de que a arquibancada do estádio vire, novamente, terra de ninguém onde machismo e homofobia estão liberados. Nunca achei que futebol fosse programa pra família feliz de margarina. Futebol é paixão e um pouquinho de entretenimento. Passeio com a família é em parque, shopping, museu, restaurante etc etc etc. Mas esse debate pra tornar o estádio um lugar sem racismo, machismo, homofobia e xenofobia é muito válido.

O futebol anda cheio de “viadagem” reclamam muitos que recém abraçaram o slogan contra o “futebol moderno”.

De minha parte, escrevi recentemente a conversa que eu tive com um mendigo na estação Sé do Metrô, que prometeu que se o Corinthians fizesse 5 a 0 no SPFC ele iria tomar duas garrafas de Corote. Menos de um mês depois, fui convidado pra assistir, de camarote, o segundo jogo da final do campeonato paulista contra o Palmeiras.

Quero sim os mais pobres de volta aos estádios, quero bandeiras, sinalizadores, instrumentos, cerveja etc etc etc. Mas é uma bobagem tamanha abraçar esse slogan que estão querendo fazer a gente repetir.

“A democracia está se tornando um fardo para os mais poderosos”, diz Luis Felipe Miguel

Por Bruno Pavan

O doutor em ciência política e professor da Universidade de Brasília Luis Felipe Miguel estava em São Paula na última quarta-feira (18) para o lançamento de seu novo livro “Dominação e Resistência – Desafios para uma política emancipatória” (Ed. Boitempo). O lançamento foi no debate “Estratégias de resistência política em tempos difíceis” e teve também a participação da também doutora em ciência política e professora da Unifesp, Esther Solano.

O Fora de Foco já entrevistou o professor Luis Felipe em 2017, em sua edição de número 9, por conta do lançamento do seu livro Consenso e Conflito na Democracia Contemporânea (Ed. Unesp). Clique aqui para escutar

O professor explicou no debate que o casamento do capitalismo liberal e a democracia nunca foi “por amor” e sim por conveniência pois, quando o 1% mais rico quer retirar lucros maiores da sociedade, é a democracia que acaba pagando o preço.

“A democracia foi uma concessão feita pelos detentores da riqueza que se dispunham a pagar um preço pela paz social. Hoje a gente vive um momento que essa disposição diminuiu por conta também da crise econômica desde 2008, mas também porque esse 1% se tornaram mais gananciosos. A democracia está se tornando um fardo” apontou Miguel, que lembrou do golpe sofrido pela ex-presidenta Dilma Rousseff e pelo plebiscito na Grécia, em que 61% da população disse não a condições impostas pela União Europeia de ajuda financeira ao país, mas que uma semana depois o governo do Syriza assinou o acordo rejeitado.

Para entender a relação entre Dominação e Resistência, presente no título do livro do professor Luis Felipe, Esther explica que primeiro precisamos entender como se dá o primeiro para entendermos como que a esquerda pode organizar uma resistência que consiga, de fato, resistir.

“A democracia que temos atua como uma força centrípeta, que coloca como possível as formas aceitáveis de participação e coloca como inaceitáveis as que ela considera radicais demais. Ao mesmo tempo, a dominação política também se dá dentro da democracia, ganhando mentes através de subjetividades. O campo cognitivo vai criando e formando as visões de mundo. Estamos inseridos em sistemas que nos impõe preferências. A escola é uma linha de produção que forma pensamento acrítico, a imprensa oligopolizada, que faz a notícia mercadoria, também forma essa dominação”, crítica.

Constituição em risco

Em 1988 foi promulgada a Constituição Federal, chamada de Constituição Cidadã, que prometia dar novas bases para a nova sociedade que estava nascendo depois de 21 anos de ditadura militar. Para Miguel, apesar de suas imperfeições, o processo constituinte ao menos ouviu diferentes setores da sociedade, desde mais progressistas até ruralistas e empresários.

“O que o golpe 2016 afirma é a exclusão de vozes do espaço de uma luta legítima, de um país menos violento e desigual. A gente uma ilusão da construção de uma legalidade e que a democracia estava ai pra ficar. Mas esse conjunto de garantias se foi muito rapidamente porque temos um alinhamento dos interesses dos diferentes poderes em favor de um, projeto de retrocessos”, apontou.

Em fevereiro de 2018, o professor anunciou um curso de extensão universitária sobre o golpe de 2016 na UNB. O ministro da educação Mendonça Filho (DEM) chegou a acionar o Ministério Público Federal para investigar a emenda do curso. O tiro acabou saindo pela culatra e outras diversas universidades pelo país se organizaram para oferecer disciplinas sobre o processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Miguel afirma que, por mais que não haja uma proibição formal do pensamento de esquerda no país, há uma espécie de marcatismo tupiniquim, prática usada nos EUA na época da guerra-fria para acusar alguém de traição ou subversão

“O que temos hoje no Brasil é um marcatismo, em que as posições de esquerda não estão expressamente proibidas, mas há um ambiente social que faz com que as expressões progressistas recebam todo o tipo de violência. Temos um impedimento dessas falas e as instituições, que teriam que garantir as liberdades, são coniventes com isso. Quem está nos ambiente de ensino sabe como é isso, não precisa aprovar o escola sem partido porque esse projeto fomenta uma proibição de debates, e o poder público fecha os olhos pra isso”, disse.

O perigo da fragmentação das lutas

“A história de todos os povos é a história da luta de classes”, para o ouvinte mais desatento, essa frase de Karl Marx parece mais empoeirada do que o livro do mesmo que está esquecido no fundo do armário de casa.

Para Esther, essa fragmentação do campo da esquerda em lutas identitárias como a feminista, LGBTs e do movimento negro precisa encontrar campos unificadores para aumentar a capacidade de resistência contra os retrocessos democráticos no país.

“O conceito de classe está se esvaziando muito como fator mobilizador. A greve e as estruturas clássicas dos trabalhadores perdem seu sentido, mas temos novas formas de luta como o movimento negro, o movimento feminista e LGBT. Nós temos identidades de resistência, de se entender como subalternos, mas temos que encontrar campos unificadores de luta. Temos que entender a dominação e ver que a resistência ou se faz coletivamente ou não se faz”, encerrou.

Veja o vídeo completo do debate à partir dos 18 minutos:

A culpa é do Sol

“Sol
A culpa deve ser do sol
Que bate na moleira
O sol
Que embaça os olhos e a razão”

Assim cantou Chico Buarque de Holanda em “Caravanas”, grande música que deu título ao novo álbum do cantor.

O Sol na cabeça, que lembra uma outra música, dos mineiros do Clube da Esquina, é o título do primeiro livro de Geovani Martins (Ed. Companhia das Letras*). São 13 crônicas do escritor, nascido em Bangu, no subúrbio do Rio de Janeiro, e que tem o astro rei como personagem central.

A primeira delas, “Rolézim” (Leia aqui e escute aqui), se fosse uma chamada da Sessão da Tarde, seria resumida assim: “as aventuras de um grupo de amigos na praia da Zona Sul do Rio de Janeiro. Eles vão aprontar 1001 confusões”. Mas a realidade é bem diferente da sinopse.

 

A praia, lugar público, sem grades e sem final, aponta para a aurora do planeta redondo. Nada poderia ser mais democrático do que uma tarde na praia. Se quiser comprar, compra. Se não quiser, não compra. Quando quiser ir embora, vai embora. Teria que ser simples. Mas não é.

Tanto Chico, que vê tudo com uma sensibilidade única, mas com olhos da zona sul carioca, quanto Martins concordam que existem os chamados intrusos por ali.

“Um sol de torrar os miolos
Quanto pinta em Copacabana
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba”

Buarque canta a chegada dos visitantes, que desperta o ódios dos banhistas “de bem”. Martins narra a cena desde horas antes.

“Tinha dois conto em cima da mesa, que minha coroa deixou pro pão. Arrumasse mais um e oitenta, já garantia pelo menos uma passagem, só precisava meter o calote na ida, que é mais tranquilo”.

O astro rei, que tira os jovens de casa em busca de diversão na praia, aumenta o ódio na elite carioca.

O comboio dos jovens funciona como se fosse uma colonização portuguesa ao contrário. Onde os nativos tomam conta da terra novamente. Querem retomar o mar onde seus antepassados chegaram, forçados da África.  

“A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné”

A praia acaba virando o campo para o confronto de classes. Que, afinal, é a história de todos os povos (Momento citei Marx!!!!) Na hora de ir embora, o narrador e seus amigos descobrem que aquele não é o lugar que querem que eles estejam.

“…Aí (o policial) veio com um papo de que quem tivesse sem dinheiro de passagem ia pra delegacia, quem tivesse com muito mais que o da passagem ia pra delegacia, quem tivesse sem identidade ia pra delegacia”, conta o autor.

Martins narra cenas em diversos cenários, que mostra que os negros e pobres estão em todos os lugares de um país como o Brasil, de uma cidade como o Rio De Janeiro. Como Marielle Franco estava na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, posta lá por quase 50 mil pessoas. E que, no meio da cidade, foi assassinada com quatro tiros na cabeça. Porque ousou falar alto.  

Assista o programa documento especial – “Os pobres vão à praia”

*O Fora de Foco é blog parceiro da Companhia das Letras 

Não se pode dizer que é um governo socialista, diz Raquel Varela sobre a geringonça portuguesa

O chanceler português Antonio da Costa com a ex-presidenta do Chile Michelle Bachelet. Foto: Sebastian Rodriguez / Gobierno do Chile

Por Bruno Pavan

Parece que foi ontem, mas a crise de 2008 completará uma década ainda esse ano. Para muitos a crise foi a pior desde 1929. O que começou com empréstimos de alto risco sendo concedido a torto e a direito nos Estados Unidos devastou e economia de diversos países gerando crises econômicas e políticas sucessivas.

Um dos maiores atingidos por ela foi Portugal. Principalmente depois de 2010 o país foi devastado por altos índices de desemprego, aumento na taxa da pobreza, corte de serviços básicos e a utilização de dinheiro público para salvar empresas privadas.

A suposta saída foi apontada pela chamada Troika, grupo composto por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia, é velha conhecida de quem viveu o Brasil dos anos 90: privatizações de empresas e serviços públicos, superávit na balança comercial e cortes no investimento público em prol do pagamento da dívida pública.

A historiadora portuguesa Raquel Varela explica que o remédio amargo da Troika focou, novamente, nos cortes contra os trabalhadores, que hoje trabalham com direitos cada vez mais precários. Enquanto os capitalistas concentram uma fatia cada vez maior da riqueza do país.

“O que a troika impôs foi uma dramática intensificação do trabalho. As pessoas trabalham mais horas com mais tarefas. Desde 2008 isso tem levado a um aumento enorme do desgaste dos trabalhadores, do absenteísmo no trabalho e dificuldades das pessoas em se concentrarem. Fora que as políticas impostas são péssimas do ponto de vista do desenvolvimento do país sobretudo a longo prazo, já que elas destroem os sistemas de educação e saúde públicos”, disse.

Nasce a geringonça

Nos anos 1990 as experiências neoliberais principalmente na América latina, foram traumáticas. Altíssimas taxas de desemprego e estados totalmente desmontados fizerma com que todo o continente tivesse uma guinada a esquerda nas eleições no final da década e começos dos anos 2000. De moderados como Lula, no Brasil, e Nestor Kirchner, na Argentina; até Hugo Chávez, na Venezuela; Evo Morales, na Bolívia e Rafael Correa, no Equador, que refundaram seus respectivos países com novas constituições.

Portugal vive hoje um momento parecido. Depois de governos de direita desde a crise econômica, hoje o país é governado pela chamada “Geringonça socialista”. O primeiro ministro Antonio da Costa, do Partido Socialista, precisou de uma coalizão tida como frágil da direita portuguesa, com o Bloco de Esquerda, o partido Comunista Português e os Verdes.

O sociólogo português Boaventura Sousa Santos, em entrevista à Folha de S. Paulo, disse que o único governo de esquerda a, de fato, governar à esquerda na Europa é o de Portugal

Varela não é tão otimista assim. Ela aponta que o apoio de certos setores da classe trabalhadora ao governo é por medo de que a direita volte ao poder, mas que o governo o PS não rompeu com as políticas neoliberais da Troika.

“Não se pode dizer que é um governo socialista, apesar do partido se chamar socialista. As privatizações não foram revertidas, manteve-se a degradação dos serviços públicos e o governo se recusou a alterar as leis liberais que a Troika implementou. Não é socialista porque o capital tem todo o espaço de acumulação. A geringonça não só salvou as ações privadas de três bancos como se orgulha de pagar juros antecipadamente ao FMI”, critica Varela.

Para ela, o bom momento econômico do país não permite que haja um avanço dos grupos chamados “eurocéticos”, ao contrário do que acontece em países como França e Itália. Mas que como o governo da geringonça não realizou mudanças econômicas profundas, em uma próxima crise a situação em Portugal pode se agravar ainda mais.

Podcast Fora de Foco #14 – Alysson Mascaro – As limitações da luta por direitos

A décima quarta edição do Podcast Fora de Foco está no ar!

Nesse programa o professor da Faculdade do Largo São Francisco Alysson Mascaro debate a forma do direito em um estado capitalista e critica a visão da esquerda de somente lutar por mais direitos.

Racismos, Marx e as “coisas de preto” no Brasil

“É preto, é coisa de preto”, diz William Waack

Recebi em meados do mês de março da Companhia das Letras o livro Racismos, do historiador e professor da King`s College, em Londres, Francisco Bethencourt*.

A primeira coisa que me chama a atenção é o “s” de Racismos que tem muito destaque na capa. O livro procura entender as origens dos diversos tipos de racismos pelo mundo no tempo.

“O racismo é relacional e sofre alterações com o tempo, não podendo ser compreendido na sua totalidade através do estudo segmentado de breves períodos temporais, de regiões específicas ou de vítimas recorrentes – negros ou judeus, por exemplo”, explica Bethencourt na introdução do livro.

Outro destaque de seu pensamento durante o livro é que em relação à preconceitos étnicos associados a ações discriminatórias foi motivado por projetos políticos. A extensa obra analisa diversos momentos históricos desde as cruzadas, a exploração oceânica dos europeus, as sociedades coloniais, como foi a criação das teorias de raça e, por fim, o papel do nacionalismo.

O Brasil

“Como é possível que a mesma pessoa seja considerada negra nos Estados Unidos, de cor no Caribe ou na África do Sul e branca no Brasil? (…) nos Estados Unidos, uma gota de sangue africano define um indivíduo como negro, ao passo que, no Brasil, o status de classe média embranquece a tez humana”, explica o autor logo na página 22.

Aqui entra o ALERTA LEIA MARX do texto. É um erro pensar na questão de raça descolada da questão de classe no Brasil. Bethencourt acusa a interpretação marxista para o problema do racismo limita a explicação às relações econômicas. Talvez realmente tenhamos que ir além de Marx para entender, por exemplo, a questão das desigualdades de acesso à escola, saúde pública ou bens culturais da população negra no Brasil. Mas tirar o sistema capitalista dessa conta não é o caminho.

A tal da Nova Classe Média, propagandeada pelos governos petistas e limitada a nível de renda mensal, foi um erro grave. Do mesmo jeito que, alguém que ganha R$ 2.000,00 por mês tem a sua tez embranquecida, se isso não vier com reformas profundas no Estado, daqui a alguns anos essa mesma pessoa pode ter seus direitos trabalhistas extingui….. er, quer dizer, flexibilizados, ter que virar profissional autônomo ou voltar pra subempregos. E tem a sua tez escurecida novamente.

Foi só a crise econômica chegar ao Brasil que a renda dos negros e pardos, entre 2015 e 2017, caiu 1,6% e 2,8% respectivamente. A dos brancos subiu 0,8%. Entre 2012 e 2014 a situação era inversa: os rendimentos dos autodeclarados pretos cresceu 8,6%; de pardos 6,5% e o de brancos 5,6%. Um trabalhador negro ganha, em média, 56% do que um branco. Clique aqui ler mais. Quando fazemos o recorte por gênero, os números são ainda piores. 63% das trabalhadoras domésticas do país são mulheres negras, uma categoria que sempre teve condições trabalhistas muito precarizadas. Clique aqui para ler mais.

Por fim, mas não menos importante, cabe lembrarmos que, com menos direitos sociais a balança sempre acaba pendendo mais para a questão penal e carcerária. Com a terceira maior população atrás das grades do planeta, 726 mil pessoas se encontram presas hoje no Brasil. 64% delas são negras. Os estados do Acre (95%), Amapá (91%) e Bahia (89%) são os com maiores percentuais de negros nas penitenciárias. Clique aqui para ler mais.

O lugar do negro na sociedade brasileira está bem delimitado, mesmo sem escravidão, mesmo sem apartheid oficial. Caso ouse sair desse lugar, com méritos próprios, como os liberais adoram dizer, mesmo Marielle Franco (Psol-RJ) conseguindo mais de 40 mil votos e ser eleita vereadora na segunda maior cidade do país, corre o risco de tomar quatro tiros na cabeça e, ainda por cima, ser difamada nas redes sociais.

*O Fora de Foco faz parte do time de leitores da Cia das letras de 2018

Tom Zé e a urgência didática

A tropicália morreu em um apê do Leblon, mas vive nas ideias e na inquietação de Tom Zé

Por Bruno Pavan

Tom Zé tem 81 anos.

Contou no show que fez no último sábado (6) no Sesc Belenzinho, Zona Leste de São Paulo, que depois que compôs “Tô”, um de seus maiores sucessos no disco “Estudando o Samba”, em 1976, ficou 20 anos fazendo shows em diretórios acadêmicos de universidades pelo Brasil e pensou em ir trabalhar em um posto de gasolina de seu sobrinho, em Salvador.

“Eu to te explicando pra te confundir/ Eu tô te confundindo pra te esclarecer”, disse ele na canção.

Somente no final da década de 1990 o músico britânico David Byrne, da banda Talking Heads, recuperou Tom Zé do ostracismo e fez o Brasil redescobrir o músico.

(Aqui para ler a entrevista que o baiano deu para Pedro Alexandre Sanchez, na Folha de S. Paulo, no ano 2000.)  

Viajando direto para 2016, já com 80 anos, lançou seu mais recente álbum “Canções eróticas de ninar” onde prova que o sexo e prazer são construções sociais acima de tudo. 

O caminho começa em “descaração familiar”  e nas sutilezas de como os filhos da Casagrande eram introduzidos a educação sexual. “Puras figuras de linguagem/ Na libidinagem”.

Depois vem a “urgência didática” das muitas vezes violentas formas de colocar meninos e meninas em seus quadrados de acordo com o que tem “debaixo do umbigo”.

(Nesse momento Tom interrompeu a música, ao vivo, pra explicar a importância de se desatar, não só o primeiro nó da mulher, o debaixo do umbigo, mas todos eles, inclusive aquele que está na cabeça e que é imposto pela sociedade e igreja.)

“Tinha que ser libidinática a urgência didática/ Bem discarática, sem-vergonhática Lascivolática/ LBGTS, a luta permanece, nosso coração merece”.

 

Em tempos de Escola sem partido, uma porrada muito mais bem dada do que os papas da Música Brasileira estão dispostos a dar.

O show segue, falando sobre a sexualidade da “moça feia” e chegando perto do orgasmo com um pedido: “sobe ni min”.

Até que chega em “orgasmo terceirizado”, que é a melhor história do álbum.

Tom conta que ele estava com muita dificuldade em compor o repertório do novo trabalho. Tudo que mostrava as amigas não gostavam, achavam vulgar etc.

Até que chegou em sua casa a revista JP, da colunista social Joyce Pascowitch.

Uma matéria na edição de outubro de 2015 o chamou atenção: “orgasmo terceirizado”, conta a experiência de uma repórter da revista havia ido a um local de massagem tântrica.

A educação sexual que lá atrás os filhos da burguesia teriam que ir até a Copa e a cozinha receber de forma sutil, agora estava em uma publicação da classe AAA. Entre iates, jatinhos e BMWs, o orgasmo.

(Aqui para ler a matéria na íntegra)

“É de outubro ano 15, memorize/ Uma vitória da imprensa, musa que pensa/ Numa edição histórica, a revista categórica/ Expõe pela primeira vez/ O que o homem prometeu e nunca deu”

O show, por mais que trate de um assunto ainda tão delicado, é uma brincadeira de Tom em cima do palco. Uma espécie de cientista do som, mistura sussurros, respiros e jogos de palavras.

Há uma chama transgressora ali, uma transgressão naturlíssima. Sem ativismo de butique, sem os “Fora Temers” classemedianos

A tropicália vive, e não é nos petit comitês do Leblon, uma espécie de redoma à prova de balas. Vive na energia, no atrevimento e na urgência didática de Tom Zé.

“Eu tô aqui comendo para vomitar…”