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Brasil de 2019 e a estética do urgente

Por Bruno Pavan

A estética é sempre capaz de traçar uma espécie de perfil de uma época.

Filmes, músicas, quadros, esculturas, programas de TV são sempre um modo de entender a realidade em que vivemos.

Quando, na Europa, as pessoas deixaram de colocar Deus no centro do universo, a arte mudou.

No Brasil, por exemplo, Getúlio Vargas usava as marchinas de carnaval a seu favor. Um país que saia da República Velha e despontava para o futuro. Tinha uma esperança e uma descontração.

Nos anos JK, um presidente moderno, uma nova capital, não combinava muito com aqueles cantores do rádio, empostadores de voz, como Francisco Alves. Nasce então a Bossa Nova, uma mistura de samba com jazz, feita para ser a cara do novo país e levar o Brasil pra fora.

Na ´peoca da ditadura, ao menos três movimentos surgiram. Um conservador, de uma música bastante influenciada pelo rock americano falando sobre o beijo no cinema, o calhambeque, da namoradinha do amigo. A Jovem Guarda.

Outra contestador da realidade política nacional, que não tem muito nome, mas era liderado por Chico Buarque  e Geraldo Vandré.

O terceiro era moderno, contestador na forma, psicodélico. A Tropicalia. Ao cantar “É proibido proibir”, no festival de 1968, Caetano Veloso berrava, soterrado por vaias: “se vocês em política como são em estética, estamos feitos”

É possível traçar outras dezenas de exemplos, o rock dos anos 1980, em um país sem rumo; o axé nos anos 1990, em um país otimista e de bem com a vida; o funk ostentação nos anos 2010, em um país que consumia cada vez mais.

E hoje, qual a estética de um país deprimido, dividido, autoritário?

A cara do Brasil hoje é a cara de Jair Bolsonaro. Isso é doloroso de se dizer, mas é isso.

A cara do Brasil hoje é o pão com leite condensado que ele come no café da manhã, a caneta bic com que assina a sua posse, o bandeijão em que ele janta sozinho na Davos.

A simplicidade fake em contraste com os “marajás” que só pensam em sugar dinheiro da população.

Mas, mais do que isso, a cara do Brasil hoje são as artes de whattsApp.

Um governo como esse só para em pé se se colocar como a única saída frente todas as outras. Então, a estética dele não pode deixar margem nenhuma.

A imagem que ilustra a postagem é clara. Um recém-nascido bate continência e se declara pronto pra batalha. Quem pensa diferente é inimigo dessa criança que acabou de nascer. Ela não precisa nem aprender a andar, falar e pensar pra “saber” disso.

A estética é a mais “amadora” possível e, claro, isso também não é coincidência. Assim como Bolsonaro, pra essas pessoas, se elegeu contra tudo e contra todos, é necessário fazer a sua própria arte.

Tudo que é bem feito não combina com essa sensação de urgência que o Brasil tem hoje, pra tudo. E além de ter recebido dinheiro da Lei Rouanet.

Basta ver também os títulos de canais conservadores no Youtube: Bolsonaro HUMILHA (sim, sim, em caixa alta) jornalista comunista. Fulano CALA A BOCA de Sicrano. Mostra em quem está o poder e o que deve-se fazer com o “inimigo”.

Tem que mudar. Tem que matar. Tem que prender. Tem que humilhar.

Compartilhe. Agora. Já. Porque a Globo não vai mostrar.

Isso, justiça seja feita, a esquerda também faz.

O Brasil hoje é urgente. Não tem mais espaço pra país do futuro. Não tem mais espaço pra futuro.

As ruas que falam

Por Bruno Pavan

A cidade sempre foi uma grande fonte de inspiração para cantores, escritores, compositores… É na cidade e seus lugares onde tudo acontece.

A casa no campo, por exemplo, fez Elis sonhar em plantar amigos, discos e livros. Sampa, com sua deselegância discreta, fez Caetano entender que Narciso acha feio o que não é espelho.

Elis queria a tranquilidade e um controle sobre tudo ao seu redor. “Plantar amigos”. Caetano caiu na realidade da cidade sem rosto e coração.

“Se a rua beale falasse” (Cia das Letras), de James Baldwin não é só uma história de amor. Nem só um cenário do Harlem dos anos 1970.

O livro conta a história de amor de Clementine (Tish) com Alonzo (Fonny). E a luta dela para libertar o namorado após ser preso por um crime que não cometeu.

Tish, a narradora e protagonista, conta a história com vigor, foco e uma espécie de eletricidades nos detalhes certos. A passagem que mais me chamou a atenção foi quando ela, que trabalha no setor de cosméticos de uma grande loja de departamentos, conta um pouco da sua rotina:

“Não eram só as velhas brancas que vinham cheirar as costas da minha mão. Muito raramente um negro chegava perto daquele balcão, e, quando o fazia, suas intenções eram com frequência mais generosas e sempre mais precisas. Talvez, pra um homem negro, eu realmente lembrasse muito de perto uma irmã mais nova indefesa. Ele não gostaria que eu me tornasse uma puta. E talvez alguns deles se aproximassem simplesmente para olhar nos meus olhos, ouvir minha voz ou apenas verificar o que estava acontecendo. E nunca cheiravam as costas da minha mão: um homem negro estende as costas da mão dele para que você a borrife, e então ele próprio leva até o nariz. E não se dá ao trabalho de fingir que veio comprar algum perfume. Às vezes compra algum; na maioria das vezes, não. Às vezes a mão que desceu do nariz forma secretamente um punho cerrado, e, com uma prece, com tal saudação, ele se afasta. Mas um homem branco leva a mão da gente até o nariz dele e a mantém lá” (pp 117 e 118)

Tão singelo e tão forte quanto os punhos cerrados dos Panteras Negras é a mão negra que, após cheirar um perfume, se transforma em resistência.

A cidade também pode ser representada pela falta de palavras. Que muitas vezes grita mais do que o mais descritivo dos parágrafos. No trecho do livro onde a mão de Tish vai a Porto Rico, o advogado da Família, Hayward (não) tenta descrever uma favela. E por isso a descreve melhor do que ninguém.

“Estive só uma vez em Porto Rico, por isso não vou tentar descrever uma favela. E tenho certeza que, quando voltar, você também não vai tentar descrever o que é”.

Apesar do sofrimento gerado nas famílias, a vilã da história não é Victoria Rogers, a jovem porto riquenha que acusa Fonny de tê-la estuprado. O vilão se chama Estados Unidos da América.

Ernestine, irmã de Tish, em um momento de sororidade feminina, explica para a irmã o quão sofrido será para a Rogers revisitar uma história tão dura pra ela e mudar seu depoimento, inocentando Fonny. “Claro que ela está mentindo. Nós sabemos que ela está mentindo. Mas ela não está mentindo. Pra ela, foi o Fonny, e estamos conversados, ela não precisa mais lidar com isso. Está terminado. Pra ela. Se mudar o depoimento, vai ficar louca. Ou se transformar em outra mulher. E você sabe com que frequência as pessoas enlouquecem e como é raro que se transformem”.

Em outra parte, Sharon, mãe da narradora, bate na porta da Sr. Rogers. Em um momento da conversa, para convencê-la a mudar o seu depoimento, Sharon diz: “ele é negro. Como nós”.

A cidade que te mostra o que você é. Quem você encontra no trabalho, o ônibus que te leva, o quanto tempo você leva pra chegar em casa, onde você encontra seus amigos. E, muitas vezes, é mais do que ser herói ou vilão.

*O Fora de Foco é blog parceiro da Cia das Letras

Podcast Fora de Foco #27 – Pink, Green e Vegan Washing, o que é? – Com Alexandre Martins

Olá….
Está no ar a 27a edição do podcast Fora de Foco.
O entrevista é o Alexandre Martins, que é pesquisador e nos explicou o que são os conceitos de pink, green e vegan washing e como Israel os usa para melhorar sua imagem na região e no mundo.
Então dê o play ae e fique esperto (a)

 

Podcast Fora de Foco #26 – Andrea Longobardi – Revolução cultural chinesa

Vortemos,

Nessa primeira edição do Podcast em 2019 a entrevistada foi a Andrea Longobardi que falou sobre revolução cultural chinesa.

Dê o play ae porque tem muita desinformação rolando sobre esse assunto por aí….

Podcast Fora de Foco #25 – Intentona comunista? – Com Marly Vianna

Olá,

Está no ar a última edição do podcast Fora de Foco de 2018

E hoje vamos falar da Intentona Comunista de 1935 ou, como prefere a professora Marly Vianna, a Intentona Tenentista.

A professora é autora do livro “Revolucionários de 1935” (Ed. Expressão Popular) em que ela analisa o cenário político da época e quais eram as reivindicações desse movimento.

Ela também refuta a tese de que os revoltosos receberam dinheiro de Moscou.

Dê o play e até 2019!!!!!

Podcast Fora de Foco #24 – Bolsa Família e as taxas de suicídio – Flavia Jose Alves

Olá
Hoje a edição do Fora de Foco é com a pesquisadora Flavio Jose Oliveira Alves, uma das autores do artigo “Efeito do Programa Bolsa Família na redução das taxas de suicídio e de hospitalização por tentativa de suicídio nos municípios brasileiros”.

Dê o play ae porque o assunto é sério!!!

Podcast Fora de Foco #23 – Maria Bonita era feminista? – Com Adriana Negreiros

Olá,
O Podcast está de volta com mais uma edição!
Dessa vez a entrevistada é a jornalista Adriana Negreiros, autora do livro “Maria Bonita – Sexo, violência e mulheres no cangaço” (Ed. Objetiva). Além de contar a história do cangaço pela ótica feminina ela responde a dúvida: Maria Bonita (e as outras cangaceiras) eram feministas?
Dê o play pra saber a opinião de Adriana!!!

A rebeldia de olhar pra trás


Por Bruno Pavan

No próximo dia 20 de novembro é comemorado o dia da consciência negra. O dia da morte de Zumbis dos Palmares, em 1695, se tornou feriado em algumas cidades brasileiras. Quase sempre ele é ligado ao da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

O que essas duas datas históricas que, nos dias de hoje, apesar de terem sido separadas por mais de 200 anos, tem a ver?

A Cia das Letras lançou, em maio de 2018, o Dicionário da Escravidão e Liberdade. Organizado por Lilia M. Schwarcz e Flávio Gomes, a publicação conta com 50 artigos críticos que, por ordem alfabética, explicam, discutem o período da escravidão no país.

A consciência (ou a falta de)

O significado da palavra consciência é “sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior”.

Notem que o 20 de novembro nada tem de “coitadismo”. Eu já ouvi frases como: “se existe feriado consciência negra, porque não existe consciência branca?” Olha, até digo que a ideia não é ruim, mas ao invés de comemorações, deveria ser uma data de luto. Se você tiver a consciência do que o branco fez com os índios desse país e com os negros africanos, não vai sentir vergonha?

No texto da apresentação do dicionário, Schwarcz e Gomes lembram que “lembrar é, por isso mesmo, exercício de rebeldia; de não deixar passar e de ficar pra contar”. Em uma época em que ouvimos o tempo todo que devemos “parar de olhar pra trás”, lembrar de Zumbi, da ditadura militar, dos navios negreiros, é um ato de rebeldia enorme.

Os movimentos abolicionistas

A caneta da princesa Isabel não se mexeu por conta dela ter acordado de bom humor naquele 13 de Maio de 1888. Movimentos abolicionistas, quilombos e outras formas de resistência sempre existiram. Nunca houve corpos dóceis e domáveis pela escravidão!

Gomes nos conta, no artigo “Quilombos/ Remanescentes de Quilombos” que o primeiro “mocambo” foi formado em 1575 na Bahia. Mais de 300 anos antes da abolição e 75 anos depois da chegada dos portugueses.

Movimentos sociais abolicionistas ganhavam bastante importância no século XIX, anos antes da lei áurea ser aprovada. Wamyra Albuquerque conta muito bem essa história no artigo “Movimentos sociais  abolicionistas”. Ela conta como episódios como a Revolta dos Malês, em 1835 e da Revolta de Manuel Congo em 1838 foi produto de uma grande intensificação da rebeldia escrava.

Luiz Gama foi outro personagem essencial para que o debate sobre o abolicionismo ganhasse importância. Contrariando as estatísticas, Gama conseguiu se alfabetizar, se tornar um grande jornalista e atuar como um defensor de escravizados na justiça. Ficou conhecido como o advogado da liberdade.      

Categorias de trabalhadores como padeiros e tipógrafos também colaboraram na resistência a para dar o caldo necessário para que crescessem as vozes pelo fim do trabalho escravo.

O dia 15 e o dia 20

No artigo “Pós abolição; o dia seguinte” Walter Fraga nos aponta como abolição e proclamação da república, separadas por 1 ano e meio, se relacionaram.

“Ao longos dos anos de 1888 e 1889, representantes dos fazendeiros defenderam no Parlamento indenização pelas perdas financeiras decorrentes do fim do cativeiro. O fato de não verem atendida sua reivindicação explica porque muitos desistiram da monarquia e embarcaram no projeto de República pouco mais de um ano depois do Treze de Maio (…) Nos anos iniciais do Brasil republicano, recrudesceu o controle sobre os candomblés, batuques, sambas, capoeiras e qualquer outra forma de manifestação identificada genericamente como `africanismo`”

Ou seja, a “República”, coisa do povo, em latim, já nasceu de costas para a maioria de seu povo.

Ainda no texto de Fraga, ele narra como o país foi tomado por uma grande festa no episódio da assinatura da lei áurea. Machado de Assis, embranquecido pela História com agá maiúsculo que se repete como farsa, cinco anos depois, escreveu que o 13 de maio foi “o único dia de delírio público que me lembro ter visto”.

Cabe voltar a Machado no seu romance Esáu e Jacó quando, pra mostrar que grande parte da população estava totalmente a parte do processo da proclamação (note para a expressão proclamação e não Guerra de República), conta o episódio de Custódio, dono da “Quitanda do Império”, que, precisando de uma nova placa para o estabelecimento, pede ao pintor que pare depois da letra d por não saber se completaria com “Império” ou “República”.

As festas e o ódio

A elite nacional, já em 1888, apelava para a grande teoria que a classe média abraça hoje no país de que carnaval e qualquer tipo de festa é coisa de vagabundo que não quer trabalhar.

Fraga conta sobre a carta de um senhor de engenho para um senador dizendo como foram as festanças em Salvador. Ele a encerra dizendo: “ainda ontem conversando com o presidente e Chefe de Polícia pedi-lhes que assim que passassem as festas, providenciasse no sentido desses trabalhadores voltarem às fazendas, se não em breve os roubos e mortes se dariam a cada momento”. As festas e os batuques do povo negro sempre foram vistos pelos senhores como prenúncios de revolta.

O povo feliz (e com consciência) ainda hoje incomoda!  

*O Fora de Foco é parceiro da Cia das Letras em 2018  

Podcast Fora de Foco #22 – Fascismo e crise de hegemonia com Tatiana Poggi

A nova edição do Podcast traz uma entrevista com a professora de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) Tatiana Poggi que falou sobre o novo fascismo que vem crescendo pelo mundo e crise de hegemonia.

Ela participa também do web curso sobre fascismo realizado pelo Esquerda Online. Clique aqui para ver

 

Ouça o programa

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