A esquerda não tem um nome pra 2022. E nem deveria ter

Por Bruno Pavan

O governo Jair Bolsonaro conseguiu atingir números de reprovação acima de qualquer outro nos primeiros 6 meses de governo.

36,2% considera a sua (indi) gestão ruim ou péssima de acordo com pesquisa do Atlas Político. As ruas já mandaram o recado de que estão a todo vapor , e em maior número, para atacar o seu governo. A economia não dá sinais de melhora. Os projetos do governo não andam no Congresso Nacional.

O candidato que conseguiu chegar ao segundo turno contra Bolsonaro foi o petista Fernando Haddad. Mesmo partido que elegeu a maior bancada da Câmara dos deputados, empatada com a do PSL do presidente. Vendo as coisas por esse lado, a notícia seria a melhor possível para o PT e a oposição a esquerda, não?

NÃO.

Tanto o PT quanto o PDT de Ciro Gomes estão em pé de guerra. Ciro não perde uma oportunidade de se colocar, não como pós PT, mas como anti-PT em entrevistas que dá. O importante encontros dos policiais anti-fascistas terminou em um lamentável bate boca entre Gomes e a deputada petista Maria do Rosário.  

Claro que ainda é muito cedo para 2022. Mas não é cedo para as eleições municipais de 2020, que podem ditar a temperatura e o humor do eleitorado. Mas não há um projeto para as eleições.

Por quê?

A esquerda, sejamos francos, saiu esfacelada dessa eleição. Fora do nordeste, não ganhou um estado brasileiro sequer. Ainda perdeu grandes nomes no Senado. A mágoa de Ciro e Marina Silva com o PT acaba com qualquer possibilidade de uma união “republicana”  para 2022.

O problema não é nem a agenda eleitoral, a esquerda precisa recuperar uma agenda positiva de propostas antes de pensar em subir a rampa novamente.

Os protestos pela educação podem até ter dado um bom pontapé e indicar um caminho para furar a bolha. Mas é só um começo.

Eu entendo a dificuldade de tentar dar o passo à frente quando o centrão e Rodrigo Maia são os principais aliados do “republicanismo tupiniquim”. Fora que se colocar como oposição combativa tão pouco tempo depois de sair do poder e com o principal líder preso também não ajuda.

Ter um nome forte na urna tem que andar junto com uma agenda de mobilizações orgânicas, alinhadas com uma visão de país clara, progressista e igualitária.

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

Bolsonaro se isola no radicalismo

Por Bruno Pavan

Não é fácil analisar o que aconteceu nesse último domingo (26) pelas ruas de mais de 150 cidades do país. Manifestações a favor do governo de Jair Bolsonaro foram convocadas para defender um governo que já começa capenga.

(Os agentes do mercado, ao que parece, já estão pulando fora)

As manifestações não foram um fracasso. Nem um sucesso. O governo conseguiu tirar gente de casa num domingo ensolarado mesmo que em menor número que os estudantes e professores saíram no último dia 15 em defesa da educação pública. Mas não conseguiu agregar ninguém fora dos 30% que consideram o governo ótimo ou bom.

Ele ficou no radicalismo.

Nem todos os eleitores de Bolsonaro fazem parte desse núcleo duro que está com ele desde que ganhou notoriedade nos tempos de CQC. Alguns votaram apenas para tirar o PT. Outros confiando que a economia iria melhorar. Os primeiros, que vêem comunistas debaixo da cama, continuam apoiando o capitão-presidente. Já o outro grupo não.

Nesse aspecto, a manifestação do dia 15 conseguiu furar a bolha. Os verde-e-amarelos, não.

Mas há algo mais para se analisar nesse debate: o apoio, não ao presidente, mas aos ministros Sergio Moro e Paulo Guedes.

A Folha de S.Paulo, malandramente, como diz o funk, omitiu o nome do presidente na principal manchete dessa segunda-feira (27). “Atos apoiam Guedes e Moro e criticam Maia e Centrão”. Omite o presidente, que entre outras barbaridades chama os estudantes e professores nas ruas de “idiotas úteis”, e foca nos “cheirosos”.

O Valor publica uma pesquisa, coordenada pelo professor da USP Pablo Ortellado, em que aponta que 75% dos manifestantes em São Paulo foram às ruas em favor da reforma da previdência. Sem uma pesquisa que diz quem são esses manifestantes, idade, cor da pele e classe social, isso não significa muita coisa.

A tentativa da imprensa é clara: descolar Guedes e Moro de Bolsonaro. O primeiro pois defendê-lo é defender a “necessária”, na visão da maioria da grande imprensa, reforma da previdência. O segundo é defender o “legado da Lava Jato”.

Por último mas não menos importante, as manifestações não ajudaram em nada na melhoria da relação do governo com o Congresso Nacional.   

Obs: aqui dados completos da pesquisa completa de Ortellado em que mostra que 65% dos manifestantes eram homens; 78% acima dos 35 anos; 66% brancos e 54% recebem mais de cinco salários mínimos.

Quem vai pra rua dia 26. E quem vai ficar em casa

Jair Bolsonaro manteve a temperatura social alta nos primeiros cinco meses de governo. Manteve por estratégia eleitoral e política. Ele tem que manter suas bases aquecidas e mobilizadas porque, de fato, pouco fez até agora no poder a não ser lutar contra os moinhos de vento do socialismo, marxismo cultural e a “extrema imprensa”.

A estratégia ficou clara no corte (ou contingenciamento, como quiser) de 30% do orçamento federal na educação. O governo Bolsonaro não foi o primeiro a cortar na educação. Mas foi o primeiro a ter orgulho disso. Tanto na mentira contada pelo ministro Abraham Weintraub, que disse que cortaria somente de universidades que promovessem “balbúrdia”, quanto na declaração do próprio presidente que chamou os milhões de manifestantes nas ruas no último dia 15 de “idiotas úteis”.

Isso tudo está tendo reflexos nos índices de aprovação da (indi) gestão, que nunca foram tão baixas em tão pouco tempo de governo. Some-se a isso a falta de habilidade de Bolsonaro e seu staff em negociar com a Câmara e o Senado e as previsões de crescimento econômico abaixo do que se esperava e temos um capitão nas cordas.

No próximo domingo (26) o governo verá o que esperar de sua base eleitoral. Estão convocadas manifestações em todo o país em defesa do governo e contra o Congresso Nacional e o Supremos Tribunal Federal.

Quem vai, afinal?

O núcleo duro mais a direita (que periga se afogar no oceano atlântico). Os chamados Olavetes. Olavo de Carvalho, “filósofo” e guru ideológico de figuras importantes dentro do governo, inclusive o zero dois Eduardo Bolsonaro,  disse que ficará quietinho a respeito da política nacional. Carvalho trucou. Sabe que ainda tem influência no governo. Se as manifestações de domingo forem um sucesso, ele será o grande vencedor, derrotando os militares que não querem ir pras ruas. Se não forem, ele tentará sair por cima dizendo que não tem nada a ver com isso. Mas tem.

O Círculo Militar também convocou para as manifestações. 

Quem não vai?

O presidente, que disse que ia, não vai mais. O MBL, grande articulador dos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff, também não vai e está em atrito com o governo. O presidente do PSL, partido do presidente, não vai e disse que a ideia não é boa.

Outro setor que ficará em casa no próximo dia 26 é o tal mercado. O Ministro da economia Paulo Guedes sabe que precisa do Congresso Nacional para aprovar sua reforma da previdência. Se a temperatura subir ainda mais, seu trabalho pode se complicar. A Fiesp também não está disposta a colocar seu pato na rua. Seu presidente, Paulo Skaf, surfou no Bolsonarismo, não conseguiu sequer ir ao segundo turno na disputa pelo governo de São Paulo, e zarpou.

Por último e não menos importante, Rodrigo Maia está magoado com o governo. Sabe que a Câmara, casa que ele preside, será um dos principais alvos dos protestos. Bolsonaro e sua equipe os tratam como bandidos. O líder do governo na casa, Major Victor Hugo, compartilhou, via WhattsApp uma imagem mostrando que, para negociar com o Congresso, só com um saco de dinheiro.  O governo pode ter vitórias na casa até domingo, se a tal reforma administrativa for aprovada e o COAF voltar para as mãos do Ministro da Justiça Sergio Moro. Mas o recado está dado.

 

Difícil prever o que vai acontecer. Mas não é um bom sinal um governo que precisa mobilizar a sua base de apoio com menos de seis meses no poder. Quando deveria estar em lua de mel com o país. Fosse um jogo de poker, Bolsonaro está dando um “all-in” cedo demais. Pode ganhar uma pequena sobrevida se tiver um jogo bom. Mas valerá à pena?

A depressão, a zoeira e o “futebol raiz”

Por Bruno Pavan

No último dia 12 de maio o Santos venceu o Vasco pelo campeonato brasileiro de 2019 por 3 a 0. Um dos grandes personagens daquela partida foi o goleiro Sidão. Conhecido das torcidas de São Paulo e Botafogo, ele falhou no gol que abriu a contagem para o time santista.

Seria apenas uma falha de um goleiro se não fosse um agravante. A Rede Globo estabelece uma votação, em todos os jogos que ela transmite, em que o internauta escolhe o melhor jogador da partida. Uma das iniciativas da transmissão de interagir com o (a) espectador (a). A votação foi “invadida” por internautas dispostos a alterar a enquete. O que era pra ser a escolha do melhor do jogo acabou sendo uma ironia com Sidão, que foi mal, e mesmo assim venceu a votação com 90% dos votos. A repórter Júlia Guimarães entregou o irônico troféu ao goleiro.

Um dos principais canais que mobilizaram essa votação foi o “Desimpedidos”. “Zoeira sem limites”, diz seu slogan. Isso obviamente uma bobagem enorme. Claro que a zoeira tem que ter limites e nós já deveríamos saber disso. E quem mais deveria saber disso é a Rede Globo.  

Deixo aqui o texto do jornalista Maurício Stycer sobre o ocorrido.

“A emissora está corretíssima em buscar formas de interação com o público cada vez mais engajado nas redes sociais, mas não pode esquecer que tem uma responsabilidade social expressa, inclusive, na legislação. Além disso, é preciso usar o bom senso. Nem toda “zoeira da internet” é sem consequências. Ao obrigar a repórter Julia Guimarães a entregar o troféu de “craque do jogo” para Sidão, a Globo o humilhou em público. Pareceu um quadro do finado “Pânico”, um programa de humor desabusado (…)

A reflexão vale para toda a mídia tradicional, mas é especialmente dirigida à televisão. Se abraçar esta “zoeira” sem filtrá-la, a TV vai perder a sua identidade”

No segundo episódio do Podcast “Muito mais que futebol”, o jornalista Lúcio de Castro também abordou o tema de uma maneira bastante bacana e original. Para ele, a falta de diversidade nas redações colabora pra que isso aconteça. Ouça o podcast aqui.

Depressão no futebol

Um outro tema que pode ser levantado a partir disso é como jogadores de futebol e esportistas de alto nível não estão livres de problemas psicológicos.

O próprio Sidão, humilhado em rede nacional em pleno dia das mães, já havia confessado problemas que passou por uma depressão por conta de seu relacionamento com sua mãe, que estava sendo homenageada em sua camisa no fatídico jogo. 

“Sentia vontade de morrer mesmo, mas eu não tinha coragem de cometer suicídio. Então o que eu fazia era ir pra rua caçar confusão pra ver se alguém entrava na minha e me matasse”

Outro que passou pelo mesmo problema recentemente foi o atacante Nilmar. O ótimo jogador com passagens por Internacional, Corinthians, Oriente Médio e seleção brasileira rescindiu seu contrato com o Santos por não conseguir atuar por enfrentar uma forte depressão.

Em entrevista ao ex-jogador e hoje comentarista Roger Flores, Nilmar apontou que teve que se medicar para superar o problema. “Eu lembro dos meus filhos chegando do colégio e eu sem forças para brincar com eles. Um dos principais motivos pra querer voltar era para os meus filhos, que já estavam maiores, verem o pai jogar”, desabafou.

 

Mas talvez o caso mais famoso e marcante é o de Adriano Imperador. Quando estava no auge de forma física e técnica na Inter de Milão, o atacante perdeu o pai e nunca mais conseguiu repetir o bom futebol que o levou para a seleção brasileira.  

Em entrevista à Pedro Bial, ele confessa que sua carreira não foi tudo que poderia ter sido.  “Você se sente orgulhoso?, pergunta Bial. “Por inteiro não, porque eu não consegui completar a minha carreira por inteiro. Aconteceram algumas coisas que me fizeram meio que afastar do futebol. Então, posso dizer que ficou na metade”, disse Adriano emocionado.

Na minha opinião o discurso do futebol é jogo para homens atrapalha muito um debate sério sobre diversas questões. A depressão é uma delas. O discurso do “futebol raiz” que exalta figuras folclóricas do futebol que bebem, fogem da concentração, não treinam e pegam todas as mulheres atrapalha pensarmos que o futebol mudou, a sociedade mudou e hoje temos outros pontos a abordar.

Não basta comparar um jogador dessa geração com o de outras para dizer “mas naquela época não tinha isso“, ou “esses caras ganham demais, não podem ficar com frescura”. O caso de Sidão é emblemático. Ele não é um grande goleiro. Joga num time gigante e deve, sim, ser cobrado. Mas acho que o problema pode não ser só técnico, pode ser psicológico também.