O Belas Artes, a esquerda e a desigualdade cultural


Em pouco mais de 2 km, quem sai do Belas Artes tem mais de 50 salas de cinema; em 3 km, quem mora em Emerlino Matarazzo, extremo leste da cidade, tem três

Por Bruno Pavan

O Cine Belas Artes é um espaço tradicional em São Paulo. Na esquina da Consolação com a Paulista, o prédio recebe um cinema desde 1943. Especializado em filmes fora do circuito comercial, é um lugar adorado pelos amantes da sétima arte.

Após a não renovação de contrato com a Caixa Econômica Federal, no começo de 2019, o espaço corre o risco de fechar as portas novamente. O sócio-proprietário do local é o ex-secretário municipal de cultura de João Doria, André Sturm.

Antes de entrar na história de Sturm, cabe lembrar que o Belas Artes chegou a fechar as portas em 2011, também por motivos financeiros. Com a saída de um patrocinador, o HSBC, e um pedido de aumento no preço do aluguel do espaço, o cinema fechou no dia 17 de Março. “São duas tristezas: uma pelo fechamento e outra pela luta perdida”, disse Sturm à época.

Três anos depois, em 2014, com a ajuda da prefeitura, então comandada por Fernando Haddad, o espaço reabriu, com o patrocínio da Caixa. No meio disso tudo, o Condephaat, órgão responsável por preservar o patrimônio histórico do Estado de São Paulo, tombou a fachada do imóvel. Nesses três anos, entre mortos e feridos, todos sobreviveram.

O que está colocado agora é um debate entre os progressistas contra a atitude do governo de Jair Bolsonaro de tirar a Caixa fora desse patrocínio. E, claro, quem tem um pouco de amor no coração, deve defender a existência do Belas Artes. #SomosTodosBelasArtes

Minha posição é outra. Não que irei comemorar se o espaço for fechado, mas não acenderei velas a ele.

“Isso mesmo: vou quebrar sua cara”

Vamos olhar um pouquinho para André Sturm quando foi secretário municipal de cultura de São Paulo entre 2016 a 2019.

Sua gestão foi recheada de “polêmicas” pra usarmos aqui o português polido.

Foi alvo de investigação do Ministério Público Estadual por supostamente ter direcionado um edital em favor da empresa Dream Factory que, em outra palavras, fez o folião que veio pra São Paulo no carnaval de 2018 tomar Skol ao invés de Heinekken. Também foi flagrado em gravações chantageando o instituto que gere o Theatro Municipal de São Paulo.

“Não faz sentido não resolver e correr o risco de não assinar e aí a filigrana da filipeta… Porque é isso. Você sabe como é. Quando você quer ser chato, você sabe o que advogado é capaz. A Dilma caiu por causa de pedalada fiscal”, disse em gravação obtida pela Rádio CBN.

Além disso, também foi acusado de assédio por uma ex-funcionária da secretaria.



Mas é da quarta polêmica que eu quero falar aqui. E de como o ex-secretário municipal de cultura enxerga a cultura.

Em maio de 2017 houve um, digamos, “confronto de ideias e prioridades” entre a prefeitura de São Paulo e o movimento que mantém a Ocupação Cultural Ermelino Matarazzo, extremo leste de São Paulo. Não havia, ali, qualquer chance de um banco chegar e patrocinar aquele local, a 26 quilômetros do elegante e tombado prédio do Belas Artes.

Sturm e o movimento que mantém a casa se reúnem e na pauta estava a manutenção do espaço, importante pra região por trazer atividades culturais como dança, saraus, debates e…. cinema. O Movimento, que ocupou o local em 2016 um prédio público sem função há mais de 10 anos. Queria que a prefeitura mantivesse os R$ 100 mil semestrais para que o espaço continuasse funcionando. A Caixa pagava de patrocínio para o Belas Artes R$ 2 milhões por ano. Ou seja, 10 vezes mais.

A reunião foi tensa, com os moradores argumentando que prestavam contas do lugar e “faziam corres” para mantê-lo, mas que não seria viável a manutenção sem o apoio da prefeitura.

Sturm, membro da “elite cultural” de São Paulo, destila a boa educação que duvido que deve esbanjar nos jantares com potenciais patrocinadores do Belas Artes com o ativista cultural Gustavo Soares. 

“Providencia com a prefeitura regional o fechamento do espaço de Ermelino Matarazzo. Boa sorte pra vocês. Vocês querem fazer esse discursinho babaca. Você é um chato, rapaz. Se você falar assim eu vou quebrar sua cara. Isso mesmo: vou quebrar sua cara(…) Acabou a molecagem”, disse Sturm.

Desigualdade cultural

Como bom projeto de marxista, acredito mesmo que as desigualdades sociais começam no mundo material e no acesso às pessoas a ele. A desigualdade cultural é produto disso. o acesso da região leste da cidade a espaços culturais, públicos ou privados, é extremamente precária. Como mostra essa matéria, os coletivos de cultura são essenciais para que a população da região possa ter acesso a algum divertimento. A Caixa, que se desinteressou pelo patrocínio do Belas Artes, nunca esteve interessada nessa região.

Se excluída a opção pela Casa de Cultura, a população de Ermelino Matarazzo tem que andar muitos quilômetros para achar outro cinema. As três salas da SP Cine Quinta do Sol ficam a 3 km. Até o Shopping Metrô Itaquera, por exemplo, que tem nove salas, são 6,7 km. Para o Shopping Penha, com oito salas, alguém que sai da Casa de Cultura precisa andar 8.9 km. 11 km  separa a Casa do Cine Itaim Paulista e suas 5 salas. Já para os shoppings Metrô Tatuapé e Metrô Boulevard Tatuapé, com 13 salas no total, são 13 km. A 13 km também existe o Circuito Cinemas, em Guarulhos, com sete salas.

Agora vamos ver quantas opções a população que vive na região central da cidade tem. Caso as seis salas do belas Artes fechem, há 650 metros temos o Espaço Itaú de cinema da Rua Augusta com cinco salas. Andando 1.3 km, o mesmo Itaú mantém 12 salas no Shopping Frei Caneca. O Reserva cultural e suas quatro salas está há 1.3 km um pouco mais de 20 minutos andando pela agradável Avenida Paulista. A sala do CineSesc é ainda mais próxima, há 750 metros e o Shopping Cidade de São Paulo com suas 10 salas de última geração está há 1.4 km. O Shopping Centrer 3 tem 7 salas há 500 metros. Isso tudo sem contar as 9 salas do Shopping Pátio Paulista, mas aí seria muita maldade fazer o bom cidadão andar 2,7 km pela plana, confortável e iluminada Avenida Paulista.

UFA!

Ou seja, em menos de 3 km quem sai do belas artes tem CINQUENTA E QUATRO SALAS para escolher onde se divertir. Já quem está no extremo leste da cidade, precisa de um pouco mais de tempo para encontrar apenas três salas.

Em resumo, os amantes do cinema alternativos sobreviverão ao fim do Belas Artes.

2 comentários em “O Belas Artes, a esquerda e a desigualdade cultural”

  1. Com todo respeito, Bruno Pavan, considero lamentável seu ponto de vista quanto ao fechamento do Belas Artes. Compartilho, claro, a ideia de que é muito necessária a democratização dos espaços de cultura e de que mais “Ocupações Culturais Ermelino Matarazzo” deveriam se espalhar pelos extremos da cidade com o apoio de políticas públicas. O que você não leva em conta é que o fechamento do Cine Belas Artes não é um fechamento qualquer para os fãs do cinema alternativo. Não é “mais um” cinema no centro da capital. Não é também apenas um patrimônio arquitetônico. É patrimônio cultural, histórico, emocional e social da cidade. Pensamentos frios e desumanos como o de que pode-se jogar fora sem peso nenhum parte importante da história de São Paulo, onde muitas famílias se conheceram, onde muitos compartilharam experiências, aprenderam, e formaram-se como pessoas (isso desde a primeira metade do século passado, como bem sabe), coadunam com os discursos da especulação imobiliária. Os valores emocionais dos espaços de convivência são tão importantes quanto outros valores. São neles que nos reconhecemos como indivíduos. Parte de nós vai embora quando eles são destruídos e tudo isso tem um peso, inclusive, psíquico. E tenho certeza que não são apenas os privilegiados do centro que sofrerão. Ao invés de rachar ainda mais essa sociedade tão dividida, creio que deveríamos, sim, ser unidos em prol da cultura, da nossa história, seja onde for. Parte de todo paulistano vai embora quando um patrimônio como o Cine Belas Artes fecha.

  2. Bruno, em menção ao currículo de André Sturm faltou dizer sobre os outros cargos que ocupou nas Secretarias de Cultura estadual e municipal em outros momentos.
    Antes do último cargo público foi diretor do MIS, das exposições de David Bowie, Truffaut, Hichcock, Kubrick, Castelo Rá Tim Bum. Todas sucessos de público e pagas.

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