Podcast Fora de Foco #15 – Laura Carvalho e a Valsa Brasileira

Está no ar a 15a edição do Podcast Fora de Foco!
A entrevistada dessa vez é a economista e professora da FEA-USP Laura Carvalho.

Ela está lançando o seu primeiro livro “A Valsa brasileira – Do boom ao caos econômico” (Ed. Todavia)  – Clique aqui para comprar.

Na entrevista ela explica também que até mesmo um presidente de direita terá que reverter a PEC do congelamento de gastos aprovada durante o governo Michel Temer

Clica aí e ouça o programa na íntegra:

 

Donald Trump continua andando

“Você acerta Donald na cabeça e ele segue em frente. Nem percebe que foi atingido”, a frase é de Roger Ailes, ex-presidente da Rede de TV Fox News, ícone conservador estadunidense, sobre Donald Trump.

Fogo e Fúria – Por dentro da Casa Branca de Trump (Ed. Objetiva) , de Michael Wolff, é uma crônica de como, um candidato tratado como piada na maior parte do tempo da campanha eleitoral, conseguiu se eleger contra o status quo da política dos EUA.

(Primeiro, veja aqui como o cineasta Michael Moore, que está longe de ser um trumpista, elencou cinco motivos pelo qual Trump venceria a eleição meses antes dela ocorrer )

Em tempos de fake news e de pós-verdade, “seguir em frente”, como faz Trump, talvez é a principal qualidade que um político conservador deva ter.

O livro de Wolff pode ter exageros: alguém eleito presidente da maior potência mundial não pode ser um completo idiota, como o jornalista deixa claro em praticamente todas as frases do livro. Mas ele nos faz entender como a descrença na política e na “nova ordem mundial” pode produzir figuras como essa.

O ridículo político

Em diversas partes de seu livro, Wolff deixa claro que Trump é uma marca. Sua empresa não é do ramo imobiliário, esportivo, de lazer ou qualquer outro. Sua empresa é ele. E junto com isso vem, por exemplo, uma forma de pensar e resolver as coisas. O problema tem que ser resolvido, então, às favas com a diplomacia, faça-se uma lista países onde seus cidadãos, a partir de hoje, não podem mais viver o “sonho americano”. Abandone-se políticas públicas de imigração e constrói-se um muro na fronteira com o México. (e faça os mexicanos pagarem por ele)

A filósofa Márcia Tiburi lançou, em 2017, seu livro “O ridículo político” (Ed. Record). Nesse vídeo ela recorda do filósofo alemão, integrante da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin onde ele aponta que havia naquele momento uma estetização da política.

“Quando a gente fala de estética política nós estamos colocando em cena justamente o aparecer do poder. O modo como o poder se apresenta e como, ao se apresentar, toca na nossa sensibilidade. Como nos afeta e nos influencia o nível também dos nossos sentidos”, explica.

Trump não é burro! Mas talvez a construção de um presidente que não é nada além do que a sua marca seja uma das coisas mais americanas que existem.

Em certo momento, Wolff explica qual era a importância de Steve Bannon, que foi membro do Conselho de Segurança Nacional do governo Trump até abril de 2017.

“Simplesmente fazer tornou-se um princípio de Bannon, o antídoto generalizado para a resistência e para o tédio da burocracia do estabilishment. Foi o caos desses tipo de atitude que realmente levou as coisas a serem feitas”.

Na coletânia de artigos “Ocuppy – Movimentos de protesto que tomaram as ruas” (Ed. Boitempo), o filósofo e psicanalista Vladimir Safatle aponta:

“O pensamento, quando aparece, exige que toda a ação não efetiva pare, com o intuito de que o verdadeiro agir se manifeste. Nessas horas, entendemos como, muitas vezes, agimos para não pensar. Pensar de verdade significa pensar em sua radicalidade, utilizar a força crítica do pensamento. Quando a força crítica do pensamento começa a agir, todas as respostas se tornam possíveis e alternativas novas aparecem na mesa”.

A saída de Trump, mais que o não-pensamento, é o anti-pensamento. É o se manter em pé mesmo com uma bala na cabeça. A urgência do ato em oposição ao pensamento é a mentira de que não há outro modo de fazer as coisas.

Por isso a confiança em instituições e ideias pouco democráticas como a família, a igreja e a polícia. Por isso a oposição à política e a virtude nos gestores. Estados tem que ser gerenciados como empresas privadas.

Ao contrário do que disse Francis Fukuyama depois do fim da URSS: parece que a História vai começar outra vez.

A favor do futebol moderno

Eu frequento estádios de futebol desde o longínquo Corinthians 3 x 2 União de Araras, no campeonato Paulista de 2001. Fiquei no famoso “chiqueirinho”, a última parte do U do Pacaembu, de frente para a torcida visitante.

De lá pra cá aprendi a ver o futebol como algo muito grande e importante. Um lugar de alegre e nervoso ao mesmo tempo, onde passei por grandes conquistas e derrotas humilhantes.

Desde sempre eu via a importância de quem estava ali, fazendo parte daquelas festa junto comigo. Pessoas diferentes, brancas, pretas, pobres, não tão pobres. Os ricos estavam em outro setor do estádio porque, no Pacaembu, eu quase sempre estava de arquibancada verde ou tobogã.

A Copa do Mundo de 2014 e as novas arenas acenderam um debate bastante importante, e que já vinha acontecendo mesmo antes do evento: os pobres não estavam mais nos estádios. Não como antes.

O Bussiness dos clubes, a necessidade de ganhar mais com o futebol foi ganhando espaço e os mais pobres, perdendo. Isso era visível nos estádios e, com a construção do Itaquerão, isso foi ficando mais visível.

Isso abriu espaço pra uma galera se dizer “contra o futebol moderno”, como uma espécie de resistência popular contra o que estava acontecendo nas arenas. Se protestava, principalmente, contra o preço dos ingressos. Esse movimento era (e é) bastante justo e necessário.

Acontece que a coisa contra o futebol moderno se esvaziou. Virou um slogan, como quase tudo na sociedade capitalista e de consumo. Os publicitários viram que, sexo e poder vendem, mas militância também vende. Ou melhor, como disse Frank Underwood, personagem do Kevin Spacey no House Of Cards, “tudo tem a ver com sexo, menos sexo. Sexo tem a ver com poder”.

Hoje me deparei com uma campanha da Kaiser (quem toma Kaiser, pelo amor de Deus?) em que eles chamaram os ex-jogadores Vampeta, Túlio e Dadá Maravilha pedindo a volta do “futebol raiz”. Quando marca de cerveja começa a abraçar uma causa, parceiro, tem caroço nesse angu. O nome do programa é “Pela volta do futebol com bolas” se o machismo não está gritando na sua frente agora, repense seus posicionamentos.


Apesar de ser justo, eu sempre achei esse discurso de “ódio ao futebol moderno” um pouco enfadonho: na maioria das vezes eu via ele partindo de neo-torcedores que nunca pegaram chuva no Pacaembu em um jogo de Paulista e precisou almoçar espetinho na porta do estádio e que agora veem com um discurso paternalista de “proteção” aos mais pobres. De minha parte, eu vi dois jogos do Corinthians no Pacaembu esse ano e minha saudade já foi muito bem matada, obrigado. (Além de dezenas de jogos por lá, tenho a fachada do Paulo Machado de Carvalho tatuada no braço)

Esse discurso de “futebol raiz” esconde uma outra coisa: um desejo conservador de que a arquibancada do estádio vire, novamente, terra de ninguém onde machismo e homofobia estão liberados. Nunca achei que futebol fosse programa pra família feliz de margarina. Futebol é paixão e um pouquinho de entretenimento. Passeio com a família é em parque, shopping, museu, restaurante etc etc etc. Mas esse debate pra tornar o estádio um lugar sem racismo, machismo, homofobia e xenofobia é muito válido.

O futebol anda cheio de “viadagem” reclamam muitos que recém abraçaram o slogan contra o “futebol moderno”.

De minha parte, escrevi recentemente a conversa que eu tive com um mendigo na estação Sé do Metrô, que prometeu que se o Corinthians fizesse 5 a 0 no SPFC ele iria tomar duas garrafas de Corote. Menos de um mês depois, fui convidado pra assistir, de camarote, o segundo jogo da final do campeonato paulista contra o Palmeiras.

Quero sim os mais pobres de volta aos estádios, quero bandeiras, sinalizadores, instrumentos, cerveja etc etc etc. Mas é uma bobagem tamanha abraçar esse slogan que estão querendo fazer a gente repetir.